Queda da Selic não alcança crédito

    Juros bancários continuam elevados para os padrões internacionais e consumidor demora a sentir redução histórica da taxa básica pelo BC

    A queda da Selic comprimiu a rentabilidade de boa parte dos ativos de renda fixa, que se igualam ou perdem para a Caderneta de Poupança. Isso incentiva o investidor mais conservador a dar seus primeiros passos na renda variável.

    Enquanto os Juros básicos estão em um patamar historicamente baixo, após a decisão de ontem do Banco Central (BC), que levou a Selic para 6,75% ao ano, os Juros bancários seguem elevados para padrões internacionais, e o consumidor ainda demora a sentir essa diferença nas taxas cobradas pelos bancos.

    A taxa média cobrada em operações de crédito no Brasil no ano passado foi de 25,6% ao ano. A do rotativo de cartão de crédito chegou a 334,6% ao ano e a do Cheque especial 323% ao ano. Na prática, uma dívida de R$ 5.000 no rotativo transforma-se em R$ 5.650 após um mês. No caso do cheque, ela passa para R$ 5.640.

    Embora bancos também reduzam os Juros quando a Selic cai, há uma defasagem entre a medida tomada pelo Copom e o custo dos empréstimos aos clientes. A taxa média de Juros de Crédito consignado cobrada dos trabalhadores do setor privado, que é uma das modalidades mais vantajosas no mercado, por exemplo, era de 39,8% em dezembro de 2017 – um ano antes, estava em 42,7%.

    “Há um descasamento entre a atividade econômica e a tomada de crédito. O mercado de trabalho é o último a reagir depois de uma crise, o que leva a uma lentidão na reação dos salários nominais, da renda e da informalidade. Tudo isso é mensurado pelas instituições na hora de conceder crédito. O banco não olha apenas os Juros básicos, mas a capacidade que o cliente tem de pagar o empréstimo”, segundo Maurício Godói, da Saint Paul Escola de Negócios.

    Ele avalia que a partir do segundo trimestre deve haver uma redução mais expressiva dos Juros cobrados para o crédito. “Vai cair, mas, de qualquer modo, não acompanha a Selic.”

    Segundo o economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicola Tingas, é preciso considerar que a economia costuma funcionar no curto prazo. “O risco é alto, porque o nível de planejamento tanto das pessoas quanto das empresas é baixo.”

    Ele também lembra que há um problema estrutural que depende da melhora das finanças públicas. “Estamos saindo de um processo de recessão severa, em que as perdas foram muito grandes. Desde o fim do ano passado, a inadimplência vem caindo e a oferta de crédito está aumentando. Esse movimento de transmissão das quedas da Selic para o consumidor tende a ficar mais perceptível.”

    Ontem, Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander anunciaram, na sequência da decisão do Banco Central de cortar a Selic, que vão repassar a redução para suas principais linhas de crédito. Os Juros menores vão beneficiar, conforme comunicados dessas instituições, pessoas físicas e jurídicas.

    Apesar da redução da Selic, o presidente executivo do Itaú Unibanco, Candido Bracher, afirmou que espera que os spreads se mantenham estáveis neste ano. Tende a contribuir para isso, segundo ele, uma maior demanda por crédito que deve elevar o volume de empréstimos e, assim, compensar as margens menores.

    Para Erivelto Rodrigues, da Austin Rating, os bancos terão de buscar outras formas de compensar a queda dos Juros. “Não terá outro jeito além de crescer a carteira de crédito com qualidade.”

    COMO FICAM OS INVESTIMENTOS NUM CENÁRIO DE Juros BAIXOS

    ‘Fundos de pensão e multimercado têm pouco de ações’

    William Landers, gestor dos fundos da BlackRock

    Tão importante quanto a Selic cair para um nível recorde, manter taxas baixas durante um período de tempo considerável será fundamental para atrair novos investidores para o mercado de ações. Para que isso aconteça, o processo de reforma iniciado pelo governo do presidente Temer precisará

    ser mantido por quem ganhar as eleições de outubro. Esse caso de continuidade é a nossa expectativa e esperamos que isso finalmente cause uma mudança nas carteiras brasileiras. Os fundos de pensão e multimercado, por exemplo, têm uma fatia muito pequena de ações em sua compo- sição – e isso deve aumentar. Também esperamos um resul- tado eleitoral positivo para atrair investidores internacionais que aumentem sua exposição às ações brasileiras. Temos uma visão positiva sobre os fundamentos do Brasil, dada a recuperação econômica impulsionada pelo corte das taxas de Juros e o retorno a uma maior disciplina fiscal.

    Poupança deve ter rendimento quase nulo neste ano’

    Roberto Indech, analista-chefe da Rico Investimentos

    Levando em consideração o curto prazo (um ano), há uma série de aplicações rentáveis disponíveis nas plataformas digitais de investimento. Em uma simulação detalhada que realizei com a nova taxa de Juros, a Poupança passa a ter rentabilidade anual de 4,7%. Vale considerar a necessidade dessa modalidade de completar um mês para o poupador obter a essa rentabilidade completa.  Por essa razão, tenho considerado que a Poupança não apresenta nenhuma oportunidade de ganho razoável. Afinal, se a inflação esperada para 2018 é de cerca de 4%, o retorno real dessa aplicação seria praticamente nulo no ano. Por outro lado, opções como títulos do Tesouro Selic, CDBs de bancos médios e pequenos, e Letras de Crédito Imobiliário (LCI) e do Agronegócio (LCA) podem oferecer retornos interessantes aos inves-tidores de renda fixa. Para se ter uma ideia, considerando taxa de 115% do CDI para um CBD e 95% do CDI para uma LCA/LCI, ambos os investimentos apresentariam retorno de 6,3%.

    Fonte: O Estado de S. Paulo