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23/03/2018 | Finanças Ruído na comunicação pode ter alimentado surpresa com Copom

Por Lucas Hirata | De São Paulo

A forte queda dos Juros futuros ontem indica que a sinalização do Comitê de Política Monetária (Copom) de que deve haver mais um corte da Selic em maio foi uma grande surpresa. Não porque faltem motivos para reduzir ainda mais o juro – a inflação corrente desacelerou mais do que o esperado, empurrando para baixo as expectativas para o ano. Mas pelo fato de que, em nenhum momento, o BC colocou essa possibilidade claramente no radar. Ao contrário, a comunicação da autoridade monetária chegou a esfriar o entusiasmo com a extensão do ciclo de flexibilização monetária.

Foi o próprio Copom que, em fevereiro, levou o mercado a acreditar que o ciclo de corte de Juros seria encerrado. No comunicado da decisão, o BC disse que considerava adequado interromper o ciclo de flexibilização. E que só “mudanças na evolução do cenário básico e do balanço de riscos” abririam espaço para queda adicional agora em março. Naquele momento, o BC trabalhava com inflação de 4,2% neste ano, enquanto as projeções do mercado apontavam para 3,8%.

Esse cenário foi colocado em dúvida no dia seguinte ao anúncio, quando o IPCA de janeiro veio mais fraco que o esperado. O índice subiu 0,29%, levando o mercado a revisar suas projeções para o ano. E também a questionar se esse dado já representaria mudança no balanço de riscos.

Dias depois, a ata do Copom mostrou que parte dos diretores era contrária ao sinal tão enfático sobre o fim do ciclo. Isso levou o mercado a considerar que a porta para novos cortes não estava assim tão fechada – visão reforçada pelos números do PIB, com a contribuição do consumo para o crescimento abaixo do esperado. E também pelo IPCA de fevereiro (0,32%), que completou o oitavo mês consecutivo de inflação em 12 meses abaixo de 3%.

Só quando o presidente do BC, Ilan Goldfajn, reconheceu que a inflação estava surpreendendo, o mercado passou a acreditar que haveria mais cortes de Juros. A fala de Ilan não apenas encorajou o mercado a apostar em nova redução em março como levantou o debate sobre a possibilidade de cortes adicionais.

Mas esse movimento foi contido pelo próprio BC. Comentários de Ilan expressavam dúvidas quanto ao tamanho do hiato do produto. E o diretor de política econômica, Carlos Viana, chegou a dizer a representantes do mercado, em reuniões privadas, que as leituras estavam ousadas demais, segundo relatos desses profissionais.

Esse vaivém de sinais influenciou não apenas os Juros futuros como também os cenários de economistas, que tendem a ser muito mais conservadores. Um bom exemplo foi o Itaú, que alterou sua expectativa para a Selicno fim deste ano de 6,5% para 6,75%, logo após a reunião do Copom de fevereiro. Um mês depois, voltou para 6,5%. Depois da reunião desta semana, o cenário base do banco passou a ser juro de 6,25%.

O mercado chegou à última reunião com a expectativa de que o Copom elevaria o nível de exigência para um novo corte, indicando o fim do ciclo. Não foi o que aconteceu. O Copom abriu a porta para queda adicional. O cenário alternativo se tornou a interrupção do ciclo. E tamanha surpresa pode ser verificada nas quedas dos Juros futuros e na onda de revisões de cenários. Bradesco, UBS e BNP Paribas, por exemplo, se alinharam à sinalização de Selic a 6,25%.

No mercado, as taxas de curto prazo, que sofrem influência da política monetária, tiveram as baixas mais intensas em oito meses. No fim do pregão regular, o DI para janeiro de 2019 era negociado a 6,240%, ante 6,455%. A aposta, até então residual, se tornou o cenário base: agora há 80% de chances de corte de 0,25 ponto em maio.

A mudança de discurso não chega a ser objeto de crítica do mercado porque boa parte dos analistas concorda que os fundamentos justificam um juro mais baixo. O BC corrigiu sua projeção de inflação para 2018 para 3,80%, num momento em que analistas já estão trabalhando com estimativa ainda mais baixa, perto de 3,40%. Ainda assim, esse ruído pode deixar o mercado mais suscetível a instabilidade a cada novo indicador.

Apesar do ruído, a percepção é de que a atual administração do BC tem sido muito zelosa sobre a transparência e comunicação. Ontem, mesmo, o presidente do BC disse que vai realizar quatro coletivas de imprensa por ano. A leitura da ata e do relatório trimestral de inflação (RTI) também ganham especial importância nesse sentido. Em 45 dias, num ano eleitoral e saindo de uma recessão, muitas coisas podem mudar e o que este episódio mostra é que há grande sensibilidade a cada comentário vindo do BC.

Fonte: Valor Econômico

5ª feira, 26 de Abril de 2018
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