Bancos estudam projeto para alterar dívida de cheque especial

    Proposta é, após 30 dias, passar saldo negativo para crédito pessoal

    BRASÍLIA – Após pressão da sociedade e do Banco Central (BC), as Instituições Financeiras começaram a desenhar um projeto para não deixar os clientes no Cheque especial — cujos Juros estão em 324,7% ao ano — por mais de 30 dias. Segundo fontes ouvidas pelo GLOBO, a proposta que está na mesa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e já foi levada ao BC é transformar o saldo negativo automaticamente em um crédito pessoal, que tem taxa de 122,6% por ano, após 30 dias de uso do Cheque especial. O cliente, porém, terá de autorizar previamente essa transação.

    De acordo com técnicos do setor, a medida ainda não está em sua forma final. Uma dúvida é se seria possível manter ativo ou não o limite de Cheque especial do correntista. Argumenta-se que o brasileiro tem a cultura de já contar com aquele dinheiro em sua conta. Mas há quem insista que chegou o momento de mudar isso.

    Houve várias divergências entre os bancos sobre o modelo. Alguns insistiam que a melhor saída era apenas investir em ações pesadas de educação financeira. As instituições chegaram a cogitar fazer o anúncio ainda este mês, apenas com o programa educacional, mas houve quem defendesse que o momento atual, em que a Taxa Básica de Juros (Selic) está em seu menor patamar histórico — 6,75% ao ano —, é o ideal para fazer uma mudança mais significativa.

    Quando a atual diretoria do BC assumiu, em meados de 2016, os Juros básicos da economia estavam em 14,25% ao ano. Apesar disso, naquela época, a taxa do Cheque especial estava mais baixa: 311,48% ao ano.

    Desde então, a inadimplência não sofreu grandes alterações. Passou de 14,9% para 15,2%. Ou seja, ficou muito mais barato para os bancos captarem, mas, mesmo assim, eles passaram a cobrar mais para os clientes com o orçamento apertado.

    Até agora, o consenso é que a mudança não pode ser obrigatória, como a que o BC fez no uso do cartão de crédito, com renegociação obrigatória, no ano passado. A ideia é fazer com que o cliente opte por transformar o débito em crédito pessoal.

    — Ninguém deve ser obrigado a aderir. Os bancos devem explicar direitinho como vai funcionar — falou uma fonte a par das discussões.

    Atualmente, os brasileiros estão no vermelho em R$ 24,4 bilhões. Em janeiro, houve um salto de 12% dessa dívida, pelo fato de ser um mês com muitas contas, como impostos e material escolar. No entanto, nos últimos 12 meses, o estoque de endividamento caiu 4,5%.

    PODE NÃO SER VANTAJOSO

    O problema, para quem não está acostumado a ficar pendurado todos os meses no Cheque especial, é que a mudança automática pode pesar mais no bolso. Se a pessoa passasse apenas um mês no vermelho, pagaria 12,8% ao mês de Juros sobre a quantia. No entanto, se esse valor for parcelado, a carga de Juros do crédito pessoal é, em média, de 122,6% ao ano. Neste caso, não valeria a pena dar a autorização ao banco.

    O foco da medida é o cliente que vive atolado no Cheque especial. Quem fica R$ 1 mil no Cheque especialpor um ano acumula uma dívida de R$ 4.109,89 se não movimentar mais a conta.

    — Há ainda um contingente alto de pessoas desempregadas no Brasil que precisam do Cheque especial — lembra Patrícia Pereira, gestora de Renda Fixa da Mongeral Aegon Investimentos. — Em muito pouco tempo, essa dívida torna-se impagável.

    Fonte: O Globo

    Matéria anteriorEquilíbrio de gênero em BCs diminui em 2018
    Matéria seguinteComissão aprova MP de fundos sem tributar estoque