Dia da Mulher: uma reflexão

Neste Dia da Mulher, agradeço por todas as flores e bombons com que formos presenteadas, por todos os cartões e sorrisos que forem a nós endereçados.
Entretanto, vivo em um Estado no qual, desde o início deste ano, uma mulher é vítima de feminicídio a cada três dias, o que me obriga a lhes trazer a reflexão levantada pelo psicanalista e escritor Lucas Lujan (@lucaslujan):
“O neoliberalismo e o patriarcado são dois modos de organizar a vida social que se reforçam mutuamente. Enquanto o patriarcado distribui poder a partir do gênero, o neoliberalismo distribui valor a partir da produtividade. Juntos, produzem uma lógica em que existir passa a depender de performar: trabalhar, render, cuidar, sustentar, dar conta.
O neoliberalismo transforma cada pessoa em responsável individual por seu sucesso ou fracasso. O patriarcado, por sua vez, já havia definido quem deveria cuidar, quem deveria sustentar, quem deveria obedecer e quem poderia decidir. Quando esses dois sistemas se encontram, a desigualdade se intensifica.
As mulheres, por exemplo, passam a viver uma dupla exigência: precisam ser produtivas no trabalho e, ao mesmo tempo, continuar responsáveis pelo cuidado, pela casa, pelos vínculos afetivos. O que antes era visto como obrigação feminina torna-se, no neoliberalismo, uma “competência emocional” – algo que deve ser realizado com eficiência e sem custo.
O sofrimento que surge daí costuma ser individualizado. Ansiedade, esgotamento e culpa aparecem como falhas pessoais, quando muitas vezes são respostas a condições estruturais de vida e trabalho. O sujeito é convocado a se ajustar, não o sistema a mudar.
Ao mesmo tempo, o neoliberalismo incorpora valores patriarcais ao transformar a autonomia em autossuficiência absoluta. Pedir ajuda vira fraqueza. Cuidar vira perda de tempo. Depender de alguém vira sinal de fracasso. Essa lógica afeta homens e mulheres, mas pesa mais sobre quem já ocupa posições de menor poder.
Para os homens, permanece a pressão de sustentar desempenho, controle e sucesso. Para as mulheres, soma-se a exigência de dar conta de tudo: trabalho, cuidado, aparência, relações, maternidade, estabilidade emocional. A sobrecarga torna-se invisível porque passa a ser vista como escolha individual.
Nesse encontro entre neoliberalismo e patriarcado, o corpo feminino continua sendo regulado, avaliado e exigido – agora também como capital. Beleza, juventude, disponibilidade e performance emocional passam a ter valor econômico e social.
O resultado é um tipo de sofrimento silencioso: as pessoas acreditam que falharam, quando na verdade estão tentando viver sob um modelo que exige muito e sustenta pouco. O cansaço deixa de ser um problema social e vira uma questão privada.
Falar dessa intersecção é importante porque mostra que o adoecimento não é apenas psicológico nem apenas econômico. Ele é produzido por formas de organização da vida que definem quem deve performar mais, quem deve cuidar mais e quem tem menos espaço para falhar.
Superar esse cenário exige mais do que mudanças individuais. Exige rever a forma como o trabalho, o cuidado, o tempo e os afetos são distribuídos. Exige desmontar a ideia de que valor humano depende de produtividade e de que o cuidado é de responsabilidade natural das mulheres.
Uma sociedade mais justa começa quando reconhecemos que autonomia não é solidão e que igualdade não significa negar diferenças, mas impedir que elas se transformem em hierarquia e exploração.”
Que o dia de hoje seja marcado pela conscientização para que, enfim, o útero –a primeira casa de todos nós – volte a ser sagrado.
Recebam meu abraço afetuoso.
Fernanda Nedwed Machado
Porto Alegre, 8 de março de 2026.
PRESIDÊNCIA
SINAL – Seção Regional de Porto Alegre
