Nancy Onishi
Os diferentes caminhos que levaram até o Banco Central
Nesta entrevista, conhecemos a trajetória da filiada Nancy Onishi, mulher que trilhou diferentes caminhos profissionais até chegar ao Banco Central. Confira abaixo os principais fatos de uma jornada que conta até com uma experiência do outro lado do mundo.
Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória até a chegada ao BC?
Estudei sempre em escola pública, tendo me formado em Ciências Contábeis na USP, em 1985. Quando me formei, estava trabalhando no Banespa. Saí para trabalhar na área contábil em uma construtora, depois trabalhei em uma empresa farmacêutica multinacional e depois numa outra multinacional, fabricante de cabos e pneus.
Na época em que prestei concurso para o Bacen (1990), houve outros concursos também, eu tinha prestado concurso para TTN (Técnico) da Receita Federal. Fui chamada e trabalhei por alguns meses lá, porém como “estagiária”. Eles demoraram muito para publicar as nomeações. Tanto que acabei desistindo antes de ser nomeada. Nessa época meus irmãos estavam indo trabalhar no Japão e era meu sonho também conhecer o Japão. Aproveitei a oportunidade e fui com eles. Trabalhei lá por um ano como “dekassegui” em uma fábrica de peças para motor de trator, em um torno circular, trabalho bem braçal mesmo. A fábrica ficava em uma cidade bem pequena, de uma província chamada Ibaraki, a uma hora e meia de trem de Tokyo.
Eu gostei muito do país, porém, não fiquei mais tempo por receio de não conseguir emprego aqui se ficasse por lá muito tempo. Quando voltei ao Brasil, em 1992, consegui retornar ao meu emprego anterior na multinacional de cabos e pneus. Mas acabei ficando pouco tempo, pois o Bacen me chamou, em 1994.
Quando entrei no Banco, o regime de trabalho era CLT – creio que fomos os últimos a ter o registro do BC na carteira de trabalho.
O que mais te motivou a seguir carreira na Instituição?
Um dos fatores que me motivou a prestar o concurso para o Bacen foi a estabilidade. Trabalhando em empresas privadas testemunhei profissionais extremamente dedicados e competentes, e chegando próximo da idade de se aposentar, serem demitidos. Não queria que isso acontecesse comigo.
Além disso, o Banco Central sempre foi uma instituição muito respeitada dentro do serviço público, fato que me orgulhava muito. Não é um órgão para o qual havia indicações políticas: exceto para o nível de Diretoria, todos os servidores entram por meio de concurso público.
Entrei em maio de 1994, trabalhei por alguns meses numa área que atualmente equivale ao Deafi, enquanto aguardava o curso de formação. Depois do curso, fui para a área de fiscalização, que, na época, se chamava Refis (Regional do Departamento de Fiscalização em São Paulo). E, no ano seguinte, abriram vagas para Inspetor, que, na época, equivalia a um cargo em comissão: participei da concorrência e passei. Desde 1995 trabalho na área de fiscalização.
As atividades exercidas no Bacen e na fiscalização, em especial, eram bastante desafiadoras, o que, para pessoas com um espírito curioso como o que eu tinha, era muito estimulante uma vez que, para conseguirmos desempenhar a função, era necessário estar constantemente estudando, aprendendo sobre os novos normativos, novas tendências com relação às operações e atividades das instituições financeiras, acompanhar as mudanças ocorrendo em outros países, etc.
O que mais se destaca em sua trajetória? O que você sente quando olha para a sua jornada até aqui?
Eu sempre trabalhei na fiscalização, acontece que as coisas no Bacen são muito dinâmicas, então, mesmo sem me movimentar muito, vivenciei muitas mudanças. A própria área foi sendo modificada ao longo dos anos, com o aumento da complexidade das tarefas. Ao longo da minha carreira, sempre permaneci no Desup; inicialmente trabalhei numa equipe de supervisão de bancos, corretoras e distribuidoras (1995 a 1998), depois passei a trabalhar na equipe de tesouraria (1998 a 2000), depois fui para uma equipe responsável pela implementação dos acordos de Basileia.
Nessa equipe foi gestado, em conjunto com o Denor (que depois foi dividido em Denor e Dereg), o Projeto Basileia no Bacen. Essa equipe começou embrionariamente sem nome, com três pessoas, depois passou a se chamar Ascap, agregando novos colaboradores e com a evolução do tema, a equipe foi se desdobrando em novas equipes: validação de modelos, risco operacional, capital e pilar 2. Quando entrei na equipe era analista, depois fui promovida a assessora e depois a coordenadora.
Trabalhar nesse projeto foi muito gratificante, eu aprendi muito! Por conta do projeto, eu pude participar de vários grupos de trabalho interdepartamentais, quando tive a oportunidade de conhecer colegas de diferentes departamentos do banco. Além disso, havia reuniões de trabalho regulares com os bancos e associações de classe. Pude participar também de grupos de discussão ligados ao Comitê de Basileia, onde se reuniam supervisores de vários países, todos trabalhando com um objetivo comum, que era a implementação do Acordo de Basileia em suas respectivas jurisdições.
Em 2014, deixei o tema Basileia e voltei a trabalhar em uma equipe de supervisão de bancos, ainda como coordenadora. Em 2025 fui promovida a chefe de subunidade, posição que ocupo atualmente. Em São Paulo, por ser uma “regional”, o número de cargos comissionados é muito menor do que em Brasília, dessa forma, leva-se muito mais tempo para conseguir um comissionamento. Para quem visa uma carreira mais rápida, a recomendação é trabalhar em Brasília.
Quais foram as dificuldades enfrentadas? Você acha que o fato de ser mulher trouxe desafios adicionais?
Pelo fato de ser mulher, muitas vezes não somos ouvidas nas reuniões, especialmente aquelas com um número maior de pessoas. Temos que nos posicionar de forma mais assertiva, e, uma vez obtida a palavra, não deixar que nos interrompam antes de concluir nossa fala. Já vi acontecer também de uma mulher apresentar uma ideia e ser ignorada e, em seguida, um homem apresentar a mesma ideia e ser ouvido
No Bacen, o número de mulheres é proporcionalmente muito menor ao número de homens, entretanto, apesar de pequenas dificuldades como as citadas e algumas atitudes machistas de alguns (raros) colegas, na minha opinião, o ambiente de trabalho para as mulheres é muito bom. De forma geral, é um ambiente de trabalho onde existe muito respeito entre as pessoas, independente do sexo.
Como as mulheres na fiscalização eram em menor número, nós, periodicamente, fazíamos o “almoço das mulheres”.
O que você gostaria que as próximas gerações de mulheres, e mesmo as que hoje fazem parte, encontrassem na Instituição?
Eu gostaria que as pessoas buscassem preservar esse ambiente de muito respeito entre todos.
Gostaria de deixar algum recado para as colegas que hoje estão no órgão?
Espero que ao longo de suas carreiras vocês sintam o mesmo orgulho que eu sinto de pertencer a esta casa.
Quem são as mulheres que te inspiram?
São muitas! Minha maior inspiradora, na vida, é minha mãe. E aqui no BC vou citar nominalmente duas pessoas, a Tereza Grossi, que eu admirava muito pela visão, inteligência e coragem que ela tinha. Algumas ações que ela tomou fizeram com que ela conquistasse vários desafetos, porém, eu considero que tais ações foram importantes para o bom funcionamento do BC.
Outra mulher que admiro muito é a Paula Cristina Seixas de Oliveira, já aposentada, que inclusive escreveu um livro junto com o atual diretor Gilneu, sobre a história da fiscalização. Paula é uma mulher fantástica, super inteligente, multitalentosa, além de ser uma simpatia de pessoa! Deixou um legado de muitas realizações no BC.
Além delas, admiro minhas colegas aqui do Bacen, mulheres incríveis, guerreiras que conseguem conciliar família e trabalho, mostrando muita dedicação ao Banco, entregando um trabalho de qualidade.
