“A CAMINHO DAS TREVAS”

     Há uns 5 dias atrás um amigo meu, indignado, fez este comentário: “Olha Chico, o mundo inteiro tem demonstrado sua desaprovação com a possibilidade dessa guerra insana, milhões de pessoas têm ido às ruas, em todos os continentes, dizer não à guerra, até mesmo nos EUA,  o Papa faz apelos pela Paz, pelo equilíbrio, pelo diálogo, e duas pessoas conseguem contrariar todo mundo?” Olhei para ele enquanto respirava fundo, mas logo arrematou: “Bolas, por que não enfiam esse dois caras, o Bush e seu boneco de ventríloquo, o Toninho inglês, num desses foguetes e os mandam para bem longe, digamos, para a lua, e os deixam lá para esfriarem suas cabeças, ou, quem sabe, vendo lá de cima a beleza de nosso planeta, ainda azul, eles tenham uma recaída, repensem as idéias, e optem pela Paz?!” Dei um sorriso e comecei a expor o que julgo que vá acontecer. Na sexta-feira passada, pesquisas realizadas nos EUA indicaram que se Saddam cumprisse com sua palavra  e destruísse os tais mísseis encontrados pelos inspetores, o apoio que Bush ainda possuía, de cerca de 70% de seu povo, para fazer a guerra, despencaria drasticamente para irrisórios 33%.  E Saddam está destruindo os tais mísseis. A mesma pesquisa também revelou que hoje apenas 47% dos americanos votariam em Bush para uma reeleição. Para quem já teve um apoio de 90% seria o caso dele parar e repensar tudo. Parece, porém, que pensar não é o forte dele, muito menos admitir que esteja errado. A velha arrogância e a má educação não deixam. No mesmo dia, no noticiário internacional das Tvs, falaram que até o pai do presidente teria pedido calma a ele, para ir mais devagar na condução do assunto dessa guerra contra o Iraque. Não sei se quem o educou mal tem hoje autoridade para ser ouvido e respeitado.  Acho difícil.   No que se refere ao seu “sócio” nessa empreitada de sangue, o Sr. Blair, pesquisa, também muito recente, realizada no Reino Unido, demonstrou que mais de 80% dos ingleses não aprovam a decisão de seu primeiro-ministro. Por outro lado, em pleno Parlamento inglês, mais de 100 representantes do seu próprio partido, há uns 10 dias, repudiaram sua moção pela guerra. Maior prova de desprestígio seria impossível. No mundo inteiro, as revistas têm estampado inúmeras fotomontagens e caricaturas, ridicularizando tanto a um quanto a outro. Em outras palavras, perderam completamente o respeito pelos chamados “senhores da guerra”. E eles? Não estão nem aí para todo este cenário indicativo de que cada vez mais ficam isolados em seus interesses belicistas, e suas ambições, petrolíferas.  Eles andam aparecendo muito na Tv, fazem pronunciamentos, mas sempre com a mesma idéia fixa: a guerra. O que os dois, porém, teimam em  “esquecer” é a situação  que atravessam os países cujos povos os elegeram para os governar. Todos sabemos como anda doente a economia americana. De quando em vez ainda pipocam escândalos, fraudes em balanços, falências etc e tal. Some-se isto ao desemprego elevado. Mas Bush só tem olhos, voz e cabeça para a guerra. Na Inglaterra a coisa também não anda lá muito bem, e faz tempo. Segundo pesquisa realizada há uns poucos meses, grande parte da população dizia que o Sr. Blair estava conseguindo ser mais ineficiente do que seu antecessor, o conservador John Major. Este tivera índices de reprovação bem altos, à época. Alguns serviços públicos estariam hoje em níveis não condizentes com o passado. Mas, o Sr. Blair quase nem tem tempo para ficar em seu país. Ele repete, repete, e repete cansativamente e exaustivamente a mesma lenga-lenga, pelo mundo afora: só quer falar em guerra.  Nenhum dos dois diz também uma só palavra, por exemplo, sobre a situação atual do Afeganistão. Soltaram milhares de bombas, mísseis e tudo mais que fosse destrutivo sobre um dos países mais pobres e desprotegidos do mundo, mataram muitos e muitos inocentes, alguns terroristas, prenderam outros, mas, pelo que dizem as notícias internacionais, alguns líderes  do terrorismo, como Osama,  estão livres e em local desconhecido, e até andam fazendo ações isoladas.  Soldados americanos ainda permanecem por lá, mas e daí? A situação do povo mudou muito pouco. Nenhuma providência mais concreta, mais séria, foi tomada, visando a dar outro rumo ao país, tanto pelo grupo que assumiu o poder, como pelos próprios invasores, que tanto prometeram. Promessas, aliás, que repetem agora ao povo iraquiano. Melhores dias ao povo afegão ficaram somente nos discursos.  O que fizeram foi muita propaganda enganosa. As mulheres podem até não usar mais a burka, porém continuam a sentir fome, a serem descriminadas por elementos daqueles bandoleiros e traficantes do norte do Afeganistão que ajudaram na “guerra”, aliados que eram das tropas invasoras. O quadro geral do Afeganistão, mostrado outro dia num documentário na Globo News, continua a ser entristecedor. Conforme li na “Tribuna” do dia 01/março, o Sr. Bush afirma que tem uma “visão ampliada” sobre os supostos efeitos positivos da invasão do Iraque. Da mesma forma como o fez em relação à invasão do Afeganistão, ele agora argumenta que esta guerra pode iniciar “um novo estágio de paz no Oriente Médio”, o que favorecerá, segundo ele, “a democratização do Iraque”.  No fundo são mais mentiras como as que o Afeganistão está a conhecer. O que afirmam analistas comprometidos com a seriedade, com a verdade, é que pode haver, isto sim, uma explosão incontrolável do terrorismo e atitudes anti americanas cada vez mais agressivas, uma situação que poderá fugir ao controle e ecoar seriamente para além das fronteiras do próprio Golfo. Qualquer que seja o resultado deste conflito. Os aliados que os “senhores da guerra” ainda têm são os que habitualmente cedem às fortes “pre$$$$$$$$ões”, como vem acontecendo com alguns governos. Para eles, as vidas que se perderão não contam, são meras estatísticas. Felizmente, pelo menos por ora, o parlamento da Turquia derrubou o acordo de seu governo com Bush. Suas bases e fronteiras não poderão ser usadas pelos invasores do Iraque. Até quando? Entretanto, minha visão é esta: Bush/Blair S/A avançaram demais, gastaram bilhões e bilhões de dólares demais, indiferentes à decisão que possa tomar o Conselho de Segurança da ONU. Desde o começo eles estavam determinados a fazer essa guerra,  e não tenho dúvidas, agora, de que irão fazê-la, mesmo contra a vontade do mundo inteiro. Aliás, como Bush e Blair têm repetido, a opinião pública não conta. É, amigos, parece que faltam nomes na relação do tal “eixo do mal”… A esta altura, por mais que Saddam cumpra todas as exigências que lhe sejam apresentadas pelos inspetores da ONU, por mais que o Conselho de Segurança não aprove moção de guerra, o conflito será inevitável. Eles vão pisar em leis, resoluções, rasgar abaixo-assinados, rir de nossas manifestações, cuspir em nossa impotência, porque, por mais que os contra a guerra sejam a esmagadora maioria, eles têm a força, o poder e vão destruir e matar impunemente. Mais uma vez se nivelarão ao que eles dizem combater: o terrorismo internacional.  Eles mostram total desprezo pela opinião pública e a de tantos governos que não querem a guerra. São os “donos da verdade”, os “imperadores da era moderna”, e estão cegos o suficiente para enxergar um palmo adiante de seus narizes. Não percebem que podem estar cavando a vala comum em que eles mesmos deverão enterrar suas futuras aspirações políticas.  Anotem isso. Esquecem, ou não querem pensar, que todos os grandes impérios que a História de nossa humanidade registrou conheceram o seu declínio e a sua ruína, justamente quando estavam no auge, quando pareciam indestrutíveis, quando seus líderes se  consideravam acima de tudo, até de Deus. Talvez a história se repita.  Infelizmente, para o nosso mundo, antes eles ainda terão o poder de fazer muitos estragos, desorganizar a ordem internacional, acirrar o terrorismo assassino e cruel, provocar um conflito onde jogarão o oriente contra o ocidente, religião contra religião, etc. A Paz a que sempre aspiramos poderá ser varrida do planeta. Encerro com estas palavras do cardeal Jean-Louis Tauran, ministro das Relações Exteriores do Vaticano, proferidas há poucos dias: “Uma guerra unilateral de agressão representaria um crime contra a paz e contra a Convenção de Genebra. Nenhuma regra do direito internacional autoriza os Estados a usar unilateralmente a força para mudar o regime ou a forma de governo de um país.” (Revista Carta Capital, 05.03.2003, pág. nº 38.)