CABO FRIO, A MINHA PRAIA

    Quem me lê habitualmente sabe o quanto amo esta cidade. Estar na praia das dunas, uma continuação da praia do Forte, é uma ventura que se renova a cada experiência. Aqui o oceano atlântico parece sorrir mais feliz. Nossa praia não é poluída, como outras tantas pelo nosso Estado do Rio. Quando caminhamos na areia temos de um lado o mar e do outro as alvas e refulgentes dunas, a nos acompanhar os passos. Nada de asfalto quente ou prédios ou buzinas impertinentes. Durante o verão, o nosso ponto de referência é a barraca do Pedro. Ela é também um marco de reencontro. Amigos que se vêem uma ou duas vezes por ano abraçam-se, festejam, extravasam uma alegria que, por meses, a saudade substituiu. Nós moramos aqui grande parte do ano, mas a maioria não. Chegar à praia é quase como vencer uma mini maratona. Caminhamos pouco mais de 800 metros, desde nossa casa. Damos passos em caminho de areia e por um cenário de dunas, algumas árvores, além de pássaros. Outro dia descobrimos duas pequenas corujas, entre dunas e ao sol das 10hs da manhã. Um espanto, já que elas são, por natureza, aves noturnas. Mas, estavam lá e vivas. Os últimos metros de nossa caminhada são em subida numa imensa duna no alto da qual está incrustada a barraca do amigo Pedro. A visão do mar é um refrigério e nossa "medalha de honra ao mérito". Após o exercício diário de caminhar durante cerca de uma hora, com o mar a nos beijar os pés constantemente, ali fazemos nosso pouso. Um a um vamos identificando amigos e amigas. O Mário, com seu lugar cativo, à sombra, alegra a turma com seus papos intermináveis. Eu começo a tomar minha água de coco, ele já esvaziou algumas garrafas de cerveja. Parece que quanto mais bebe mais sóbrio ele fica. Fala com todo mundo e tem grande prestígio com a petizada. Um grande praça o bom Mário, morador no nosso condomínio. O nome Pacajú é ouvido seguidamente. O pequeno Pacajú, 59 anos, cearense, é o mais popular dos serventes da barraca. Exibe uma forma física invejável. Desloca-se rápido entre as mesas e os clientes e nunca esquece um pedido. Seu nome verdadeiro é José Maria Nogueira. Por que "Pacaju"? Bom, ele nasceu na pequena cidade de Pacajus, no Ceará. Vive a promover sua terra natal, claro. A amiga e vizinha, Celma, passa com um copo de caipirinha e pára ao nos ver. Conversa vai, conversa vem, papos de família, comentários sobre planos futuros, e tenho que recusar o gentil oferecimento de um gole na sua deliciosa bebida. Em outros tempos eu aceitava. Ocorre que renunciei ao álcool já há mais de um ano. Para viver melhor tive que perceber e acatar sugestões que o meu organismo me tem transmitido. Aposentei as garrafas de cerveja, de uísque, de vinhos, enfim, sou agora adepto da água mineral, da água de coco e correlatos. Não confundir com "beber água na orelha dos outros", que significa viver aos cochichos, fazer intrigas. O nosso querido Yuri, já com 7 anos, (que pressa de crescer?!) exibe a uns amigos, alguns dos golpes que aprendeu no karatê. A seguir corre para o mar e ficamos conhecendo seu progresso nas atuais aulas de natação. Meu afilhado e quase neto nos surpreende sempre com suas "tiradas" inteligentes. Nos 6 anos passados produzi, a cada ano, um vídeo, acompanhando seu crescimento e desenvolvimento. Cada vez chega mais gente e Pacaju, o super-homem dos garçons, o "The Flash" da esperança, da sede e da fome da clientela, consegue atender a todos na babel que segue crescendo num tirotear de pedidos que ricocheteiam de todas as direções. De repente várias pessoas se levantam e alguém, apontando, exclama: "Olha só que legal, gente." Desviamos nosso olhar para o mar. Vemos um homem, com os pés certamente bem presos a um par de esquis, as mãos segurando firme um trapézio que pende de um parapente. Este, inflado pelo forte vento, faz com que o esportista singre as águas numa velocidade fantástica. Ele consegue esquiar rapidamente em qualquer direção. O espetáculo se torna mais atraente pelas piruetas que o homem faz. Usando a velocidade, ele salta propositadamente sobre as ondas, alcançando uns 2 metros de altura, ao mesmo tempo que rodopia no ar, ora para um lado ora para o outro. Ao cair sobre a água, logo já está de pé e prossegue o espetáculo. Os mais empolgados até aplaudem embora o "artista" nada ouça pela distância. Após mais alguns goles na minha água de coco, escuto um sujeito, bem à minha frente, falar alto com um pequeno garoto, de uns 6 a 7 anos, que cavava solitariamente um buraco na areia. Gritou ele: "Olha, você tem me desobedecido e tem ido lá para as ondas onde tem morrido muita gente afogada…" Respirou fundo e atacou de novo o garoto que, indiferente, continuava a cavar: "Se bobear você não vai mais pra casa, ouviu, vou te levar para um asilo…" Sussurrei para minha esposa: "Quem tem um pai desses não precisa de inimigo." Era um protótipo de mau exemplo paterno. Quando pensamos que ele havia terminado suas ameaças, levantou-se, falou algo para a mãe do menino, e reacendeu o ataque: "Tem mais, quando chegar em casa vou te dar uma surra." Bem, pelo menos ele não disse que mataria o garoto! E este continuava cavando sem levantar os olhos e sem mostrar qualquer emoção. O pai foi então mergulhar nas ondas onde… "tem morrido muita gente afogada"… A mãe fazia um mero "papel decorativo" na violenta cena paterna. Foi aí que ouvimos um forte roncar de turbinas de um grande boeing. Ele passava meio baixo sobre a praia, ganhando altura rapidamente. Acabara de levantar vôo. Espantados? Pois saibam que temos um bom aeroporto, em Cabo Frio, há mais de um ano. Vôos diários do Rio, em 18 minutos, paisagens lindíssimas e bilhete a R$90,00. Agora há vôos regulares vindos também de Buenos Aires e de Montevidéu. Segundo o Prefeito, na proximidade do Carnaval haverá linhas aéreas ligando Cabo Frio a outras capitais brasileiras. Nosso turismo tem sido bem incrementado, é verdade. O avião fazia a volta por sobre a cidade quando um mineirinho falou: "Olha lá mãe, não parecem 3 grandes manchas de óleo na água?" Tive que explicar ao jovem das alterosas que as 3 "manchas" eram cardumes de milhares de filhotes de peixe, bem agrupados, que se dirigiam ordeiramente na mesma direção. Vez ou outra assiste-se a este outro espetáculo. Eles passam a poucos metros da praia. Convidei-o a ir até a água, com a promessa de que ele não faria nenhum gesto agressivo que espantasse os peixinhos. E assim fomos. Aproximamo-nos bem devagar de uma das "manchas", chegamos a penetrar em uma delas sem fazer qualquer outro movimento. Os peixinhos passavam, alguns esbarrando em nós, mas sem qualquer reação de medo. Ele ficou encantado. É um verdadeiro show da vida. Eles são todos filhotes bem pequenos. As 3 "manchas" seguiram, o tempo todo, na direção do Forte. É como se estivessem fazendo exercício de ordem unida. Não sei como conseguem conservar a estrutura, a organização dos grupos, durante o longo deslocamento. O mineirinho aprendeu mais uma lição com o mar para contar na volta. "Olha a empada praiana, está quentinha e deliciosa. Vai uma, chefe?" É o gaúcho que trocou o verde dos pampas pelo azul do nosso mar e a alvura das dunas. Um dos muitos vendedores do "batalhão" que nos propicia saborear a mais gostosa empada da praia. Quando nos encontramos costumamos falar sobre a vida. Hoje ele disse que está sentindo a idade chegar. Andar o dia todo na areia para ganhar a vida, não é tarefa fácil, mas ele sempre distribui um sorriso contagiante. Uma jovem atravessa por dentro da barraca e lança ao chão uma garrafa vazia de plástico. Entreolhamo-nos, mas nada dissemos. Muitos já aprenderam, porém um dia todos aprenderemos que não se faz assim. O vento fica mais forte e uma barraca pequena começa a voar. Alguém corre para pegá-la. Uma pipa liberta-se da linha e ganha sua alforria. O menino não entende e chora. Outros garotos correm na esperança de conseguir ganhar, ao acaso, o que não deu para comprar. "Oh Pacaju, queres me matar de sede, cara?" Era o bom amigo Mário, sua quarta cerveja estava demorando além da conta. E Lá vem o Pacaju correndo. Ele recebe, como prêmio, o sorriso largo e simpático do Mário. A festa, iniciada de manhã, na praia, alguns desses amigos a estendem pela noite, no condomínio, num sarau que vai até Morpheu convocá-los a mergulhar, mas no sono. O verão apenas começa, e antes da hora. Consulto o relógio e vejo que são quase 14 hs. Pagamos a conta, despedimo-nos dos amigos e iniciamos o retorno da praia. Ao chegarmos à casa somos recepcionados pelo canto de um bem-te-vi pousado no parapeito do pátio em nosso segundo piso. Detalhes de um viver em harmonia com a natureza que a cidade grande já esqueceu.