CONTRASTES

    Quando Armstrong pisou na Lua, em 1969, se é que pisou mesmo, alguém comentou como podíamos ter chegado tão longe na tecnologia, ao mesmo tempo em que, aqui na Terra, ainda havia gente morando em cavernas e se comunicando por grunhidos.Vejamos agora mais dois notáveis contrastes existentes na Humanidade atual, contrapondo a alta-tecnologia à alta-ignorância. De um lado, tomamos ciência da existência de grupos em que as relações humanas dependem em grande parte da internet, como é o caso dos freqüentadores das salas de chat, joguinhos on-line e listas de e-mail, em que internautas, de sexos opostos ou não, estabelecem contatos e passam a se conhecer para, quem sabe, chegar talvez a se relacionarem intimamente. Alguns até se satisfazem com o sexo virtual, sem contato físico, mas com muito bate-papo sensual.A investigação desse tipo de interligação humana através da rede tem sido tema de diversas análises. Todd Frobis publicou em abril último o estudo “Exploração sexual e alívio retórico". Neste trabalho, o autor faz uma abordagem da indústria de sexo online, focando especificamente no site da Playboy, por considerá-lo acima da grande maioria de sites de pornografia pesada, em termos de apuro estético e ausência de baixarias escrachadas. Este é um dos lados do contraste citados no início: está existindo uma extrapolação da idéia primordial do sexo que, originalmente “projetado” para dar continuidade à espécie, está sendo transformado em símbolo de prazer, tanto carnal quanto virtualmente falando.Do outro lado do contraste, a notícia sobre um casal de alemães que, ao se consultar numa clínica de fertilidade contaram aos especialistas um fato inédito. Após oito anos de casamento, o marido, com 36 anos, e sua esposa, com 30, não conseguiam ter filhos. Fizeram então todos os testes de fertilidade e concluíram que nada tinha de errado  – não havia qualquer obstáculo à concepção. Tudo se esclareceu, todavia, quando o doutor perguntou com que freqüência o casal praticava o ato sexual. A resposta, quase em uníssono foi: “Was?” (traduzindo do alemão: “O quê?”).Eles nunca tinham praticado sexo. Aliás, nem sabiam o que era. E não eram retardados nem nada. Apenas haviam sido criados num ambiente social e familiar religioso daqueles bem antiquados e repressivos. Nunca ninguém chegou pra eles um dia e explicou que, para gerar neném, é preciso algo mais do que apenas se casar no civil e no religioso. Não é difícil imaginar a surpresa dos médicos diante do achado e, ainda mais, a agradável surpresa do casal ao freqüentar as aulas de terapia sexual recomendadas pelos especialistas. Quantas descobertas práticas interessantes devem ter feito, e ainda devem estar fazendo até agora, o doce casalzinho. A equipe da clínica é claro, aproveitou a oportunidade para iniciar um estudo regional em busca de outros casais que apresentem a mesma pequena lacuna no quesito educação sexual.É assim o nosso planeta. Paradoxal. De um lado, trabalhos acadêmicos avançados sobre a vida sexual online dos internautas. Do outro, casais que nunca treparam na árvore do conhecimento, em busca dos saborosos frutos da intimidade conjugal.  Mas, estes contrastes podem ser eliminados. Basta aos casais de ambos os casos começarem a entender o sentido da expressão “trepar” de forma literal. E, aprendida a lição, praticar saudavelmente. Ao vivo e a cores.   Obs: Ao mesmo tempo em que agradeço a Suely Catão pelo envio da idéia original do Carlos Alberto Teixeira, publicada no caderno de Informática do GLOBO, solicito-lhes licença para as intervenções necessárias à adaptação da crônica ao padrão RIONET.

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