DISCRIMINAÇÃO

    Algum tempo atrás, ouvi da caçula, envergonhada da raça humana, seu ponto de vista sobre os argumentos atribuídos aos nazistas para o extermínio de judeus. Para minha filha, são inverossímeis e infantis as alegações do tipo pureza étnica, diferenças religiosas etc. Ela tem razão.Recentemente, li na Superinteressante o motivo que, acredito, tenha sido determinante na proliferação do anti-semitismo. Prometendo levar a Alemanha a dominar o mundo, Hitler considerava os judeus o mais forte entrave às suas pretensões. Espalhados e estabelecidos em inúmeros países, haviam formado uma rica e poderosíssima nação internacional. Faz sentido.Contudo, um lado obscuro do povo de Israel me foi revelado numa hospedagem forçada de trinta dias no Hospital Israelita: a autodiscriminação. Fenômenoque, a partir daí, constatei nos demais os segmentos normalmente chamados de minorias.O mundo dos afro-descendentes, como faz questão de se autoproclamar um conhecido meu – negro – é também complexo. É conhecida a frase de Robson, jogador do Fluminense da década de 50. Pretinho baixo e cheio de chinfra, no auge da carreira, teria dito a um colega que se queixara de uma atitude racista:"- Não liga não ! Eu também já fui preto e sei bem o que é isso …" O universo feminino não só mantém a eterna guerra dos sexos: ainda por cima é paradoxal. Depois de lutar e vencer a batalha pela igualdade dos direitos, nove entre dez delas consideram que a pior coisa do mundo é receber ordens … de outra mulher. O planeta homossexual dividiu-se em castas. Os gays de ambos os sexos, assumidos e com sólido patrimônio, formam a elite. Os travestis lutam, com seu travesseiro, entre o desejo de ser mulher e manter a lógica masculina. As bichas se equilibram entre gays e travecos: ignoradas por uns, execradas pelos outros. Existem apartheids no interior mesmo das classes sociais. Os muito pobres, afastados, por óbvio, do frenesi do consumo, e carecendo de informação e cultura, constituem-se no segmento onde grassam, por excelência, os mais atrasados conceitos éticos, sociais, culturais e religiosos. Estudos recentes realizados em São Paulo descobriram a causa da derrota da reeleição de Marta Suplicy à Prefeitura em 2003: migraram para o candidato do PSDB os votos, tidos como favas contadas, da periferia. A ortodoxia pobre não digeriu a separação da prefeita do marido – com cara de honesto, fiel e bonzinho; nem o seu segundo casamento, em pleno mandato. Recusou a hipótese de uma mulher rica, sexagenária e realizada deixar sua vida estável e seguir uma irresistível paixão, aflorada às vésperas da terceira idade.Marta não perdeu a eleição para Serra. Foi derrotada por pelo menos quatro dos males presentes na mais simples das receitas de discriminação: o atraso, a inveja, o ciúme e a covardia. Hitler cultivava, entre outros, a maioria desses atributos.