E AÍ LULA?

    Enfim você venceu. Espero que a vitória maior tenha sido do Brasil, dessa nossa gente que tentou, tentou, tentou e agora alcançou o seu objetivo. Você foi eleito pela imensa maioria de nosso povo que já carregava, no coração e na mente, a sua bandeira de um país mais justo, menos corrupto, com mais emprego e menos miséria, onde a dignidade humana assuma o lugar dos humilhados, dos esquecidos, dos marginalizados, dos excluídos, dos despojados de seus mais comezinhos direitos constitucionais.   Sabemos que você está herdando uma nação cheia de esperança, angustiada por mudança, mas também atolada em dívidas e problemas que se avolumaram por muitos anos. Você quis, você se preparou e lutou muito para ver esse dia chegar, agora é arregaçar mangas e começar a trabalhar. Nosso povo não suporta mais  desesperança, ludíbrio, impostura, falsidade e tanta injustiça social.   Esta é a realidade que, talvez melhor do que ninguém, você conheça, porque correu este país em todos os seus quadrantes, por muitos anos, aprofundando-se em seus problemas, estudando soluções. Você sempre disse que, ganhando, seria o presidente de todos os brasileiros. Agora você vai ser o nosso presidente da república. E aí Lula?   Em longa entrevista à revista Isto É, de 02.10.2002, você afirmou: “Somos capazes de fazer o grande pacto social de que o Brasil precisa.” Outro dia uma boa amiga me disse que nenhum governo terá sucesso, consertará o Brasil ou qualquer outro país, se não houver a participação ativa do povo. Ela não votou em você, mas disse exatamente o que você afirmou na entrevista. Ambos estão com a razão e o que esperamos agora, Lula, é que você cumpra o prometido.   Leia com atenção, por favor, essas palavras que não são minhas, mas de um grande amigo, meu leitor, que votou em você, pela primeira vez. Disse-me ele: “A vitória do Lula não nos garante o governo com que sonhamos. Numa economia globalizada como esta em que vivemos e, considerando, ainda, a dependência do País do capital especulativo internacional, nenhum governante pode ser absolutamente independente e realizar tudo o que gostaria, ou de conformidade com a doutrina do seu partido. Não vamos ser ingênuos de achar que o novo governo atenderá a todas as nossas expectativas. Ficaremos frustrados em muitas ocasiões, com certeza”.   “O mais importante na vitória do Lula é a "virada". É o povo mostrar que quer mudanças e não se assustar mais com o bicho-papão. É o povo mostrar que está cansado de só a elite mandar – desde a independência – e ele, o povo, apenas ter, "como direito", a obrigação de pagar a conta e de votar para "legalizar" a escolha do nome da vez.”   “Não pretendo que o Lula  faça o melhor governo de todos os tempos. Quero que ele não erre muito (porque erros ele vai cometer). Quero que ele comece a  buscar outros caminhos possíveis que venham  a libertar o Brasil, num futuro não por demais distante, da  especulação financeira e da dependência da agiotagem internacional.”   “Quero que o Lula não permita que o pouco que ainda sobrou do patrimônio público seja entregue aos amigos nacionais e estrangeiros, a preço vil. Quero que o Lula saiba escolher bem os seus auxiliares e, daqui a quatro anos, entregue o poder ao novo presidente-eleito, num processo democrático normal, sem quebra da ordem, sem que haja tentativas de golpes internos ou promovidos de fora para dentro, como já experimentamos no passado.”   E concluiu o meu amigo-leitor: “Quero que ele inspire confiança ao empresariado e o ajude a promover a economia pela produção industrial e agrícola, que dá emprego e melhora a renda do País. Quero que ele continue a defender a elevação dos salários para um nível que dignifique o trabalhador. Não é possível continuarmos a ter os mais baixos salários do mundo, numa economia do tamanho da nossa. Se pelo menos ele iniciar estes caminhos, vou dizer, daqui a quatro anos, que valeu a pena a mudança.”   Lula, esta é a expectativa de toda a nossa gente que votou em você. Mas tem que ser também o expectar de todos os brasileiros e brasileiras que eventualmente não lhe destinaram seu voto. Recuso-me a imaginar que os milhões que preferiram outros candidatos venham a ter agora uma atitude antidemocrática, anti-social, antipatriótica a ponto de torcer contra, em vez de somar.     Não acredito, eles sabem que juntos poderemos ajudar neste grande pacto social por você proposto e colocar o Brasil no lugar de destaque que merece, mas, separados, é provável que “afundemos” todos juntos. Quando falamos de povo sabemos que podemos confiar, pois nossa gente já cansou de acreditar no prodigioso, no incrível, no falso, no simulado, no extravagante, no mentiroso. Eles querem o melhor para o país, e este não é apenas você, Lula, e seus Ministros, somos todos nós.   Claro que sempre haverá as exceções, como os que vivem da especulação, dos ganhos fáceis, dos privilégios inaceitáveis, das fraudes, etc. Estes farão de tudo para manter seus privilégios. Mas, espero, sinceramente, que tenhamos virado esta página de nossa história, caso contrário a mudança poderá não ter adiantado de nada.  Aqueles a que me refiro acima não têm propriamente uma pátria, sua bandeira é da cor da moeda com que especulam.   Confio no Congresso que certamente emprestará o melhor de seus esforços, não na reconstrução do país, porque, afinal de contas, se houve erros nos governos passados, não podemos deixar de reconhecer os avanços alcançados, aos quais você garantiu que daria continuidade. Sei, por outro lado, que os senhores parlamentares não se furtarão a escrever os seus nomes nesta que esperamos seja uma nova e produtiva fase da política brasileira.   Você prometeu “mudar o modelo econômico e devolver a auto-estima ao povo brasileiro com ações políticas fortes a fim de pôr a Nação nos trilhos do crescimento, da geração de empregos e da distribuição de renda”. Por favor, não nos decepcione, Lula. Confiamos em você.