“ESPÍRITO DE PORCO”

    Jorge Antonio de Oliveira, vulgo Dominguinhos. Flamengo “até morrer”, mulatinho, barriga de cerveja, baixinho, metido a goleiro e, principalmente, “espírito de porco”.Lá pelos anos 70, época em que o Botafogo sempre ganhava do seu time, Dominguinhos sabia que um outro folclórico personagem friburguense, um pintor de paredes, bronco, de “pavio curtíssimo”, apelidado de Bê, também torcia desesperadamente pelo Flamengo, odiava o Botafogo e, principalmente, não ia com a sua cara. Mas, só “de raiva”, fez crer ao Bê que era botafoguense. Toda vez que o Botafogo ganhava, descobria onde o pintor estava trabalhando. Quando o Bê estava lá no último degrau da escada de pintura, estacionava o seu carro, ligava o som “nas alturas” e passava a alternar o hino com a gravação dos gols do alvinegro. Numa véspera de decisão Vasco x Flamengo, fui convidado para vir ao Rio ver o jogo com ele. Assim que saímos, confessou: “Este carro está todo engatilhado. Não tem extintor, não tem triângulo, nem estepe. Está feia a coisa! Se a patrulha rodoviária parar a gente, não sei não…”.Não deu outra: assim que iniciamos a subida da serra, fomos parados. Eram dois patrulheiros, um a cinqüenta metros do outro. O policial mais próximo rodeou o carro, olhou, olhou, vasculhou, pediu documentos, fez as perguntas de praxe, mandou abrir o capô, olhou e decretou:- “Com esse carro não dá para vocês prosseguirem viagem. Está todo irregular!”.Sabendo que estava errado e não adiantava argumentar, Dominguinhos foi logo perguntando:- “E aí, “seu guarda’, tem “conversa”?”- Que conversa? Não tem conversa nenhuma! Com o carro nesse estado vocês não vão viajar, não!” Dito isso, se afastou. Dominguinhos, então, falou em voz alta: – “O jeito é voltamos para casa! Não vai dar para ver o jogo não!”Quando íamos retornar, o outro guarda se aproximou e perguntou: “Sobre que assunto você queria “conversar”, mesmo?”O meu companheiro deu um sorriso de vitória e começou a explicar: – “Nós só queremos ver o jogo e voltar. É domingo, pouco movimento, não tem perigo algum. Eu prometo que amanhã regularizo tudo”. O segundo guarda colocou algumas dificuldades, mas, depois assentiu: – “Não devia, mas vou abrir uma exceção! Da próxima vocês não escapam'”.Muito experimentado, o meu companheiro sabia que a expressão “exceção” era a senha para uma gorjeta. Pegou CEM cruzeiros e colocou na palma da mão do guarda de forma bastante discreta. Quando pensei que fossemos continuar a viagem, ele foi pelo acostamento até parar o carro em frente do primeiro guarda, que ficara fora da conversa. Com um sinal, pediu que o policial fosse até a sua janela:- “Amigo, conforme você me havia dito, o meu carro está irregular, mas entrei em acordo com o seu parceiro ali e deixei DUZENTOS cruzeiros com ele. É para vocês dividirem. Um abração!”- “Boa viagem!” Desejou o agora sorridente guarda, sem nenhum comentário sobre a divisão do suborno.  Quando pegou a estrada, Dominguinhos me falou: “Vamos subir a serra rápido para que, quando começar a troca de tiros entre eles, a gente já esteja bem longe…  Lá no alto…

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