ESQUECIMENTO

    Li uma nota na coluna “Gente Boa” de O Globo, que aqueles “brancos” a partir dos 40 anos – “Onde deixei as chaves?” “O que eu vim fazer aqui?” “Para quem mesmo eu estava discando?” – são explicados pela jornalista Cathryn Jacobson Ramim que, assustada com o que acontecia com ela, se submeteu, como cobaia, a todos os tratamentos e, para não esquecer, tomou notas – no livro “Memória e atenção: desafios da meia-idade”.  De antemão, discordo de que os esquecimentos e as desatenções só passem a ocorrer a partir dos 40 anos, porque comigo acontecem desde que era jovem. Minha mãe, sabiamente, ante aos males, sempre exclamava perguntando: não sei como você pode morar sozinho!?                 Raramente me lembro de datas de aniversários ou de onde “guardei” alguma coisa. O ápice desses esquecimentos foi no dia em que telefonei para a minha esposa, no seu trabalho, e uma amiga dela atendeu. Na conversa, a pessoa me disse que já havia encomendado o bolo e os refrigerantes para a comemoração daquele emblemático 25º aniversário, com o comentário: ¼ de centenário! Nem assim consegui me lembrar que estava se referindo ao vigésimo quinto aniversário da minha “consorte”. Até hoje, todo ano, ela me lembra do esquecimento.                         Na faculdade de comunicação tínhamos que fazer um trabalho “para ontem”: a gravação de um diálogo com três vozes femininas e uma masculina, valendo nota. Nosso grupo era formado por três mulheres e dois homens. No dia, esqueci e não fui gravar. Ao encontrar os demais, fui informado que o trabalho não havia sido realizado porque faltou a voz masculina e, em conseqüência, iríamos tirar zero. “Fulo” da vida argumentei que, na minha ausência, o outro homem do grupo poderia ter feito a voz. Foi aí que disseram: você é o cúmulo do esquecimento mesmo! Esqueceu de vir e não lembra que o outro homem do grupo é gago!            Sei de histórias de outras pessoas que dão outro texto (quem quiser contribuir, será bem recebido). Por hora, aí vão duas delas.            Um conhecido chegou em casa e encontrou a sua esposa  – beata até não poder mais –   toda apetrechada para sair: roupa nova, salto alto, bolsa à tiracolo, maquiada, perfumada, unha e cabelos feitos. Desconfiado de que aquele era um dia especial, mas não querendo “pagar mico”, colocou a sua melhor roupa e convidou-a para um cinema. Sem ligar para a contrariedade inicial demonstrada pela mulher, foram assistir ao escandaloso (para a época), “O último Tango em Paris”, na sessão das nove da Cinelândia, um antigo centro de cinemas, restaurantes, comércio e da “vida fácil” do Rio. Na saída, convidou-a para comer – em pé e rodeada por travestis e prostitutas o “Angu do Gomes”, naquelas carrocinhas ambulantes onde uma única água, lavava todos os pratos. A mulher, que todo o dia sonhou com um jantarzinho romântico num restaurante iluminado por velas e um motel cinco estrelas para fechar a noite, no dia seguinte ao seu 30º aniversário e do 10º ano de casamento, pediu divórcio.              “Saideira” inteiramente verdadeira: quando se lembra, “coleguinha, da ativa, verifica no calendário em que ano estamos. Depois, pesquisa no Sisbacen em que ano nasceu. Pega uma máquina de calcular, diminui o segundo ano do primeiro e descobre a sua idade…