EU, CINEASTA?

    Pois é. Outro dia alguém que nunca antes me lera e que se chegou a mim recentemente, ficou curioso ao ver, em certo texto, que dediquei boa parte do meu tempo, no passado, a produzir filmes e participar de eventos universitários. Já falei sobre esta minha atividade, mas vou relembrá-la agora rapidamente. Venham comigo.Foi nos anos 70 e começo de 80. A bitola estreita de super-8 estava numa evidência fantástica e havia muitas Mostras e Festivais pelo país afora, especialmente no circuito universitário. Davam boa projeção aos que obtinham sucesso. Vivíamos anos fortes da ditadura militar. Eu produzia filmes com mensagens político sociais.Usava “atores” amadores, amigos, colegas de trabalho, gente de rua, etc. Na criação e produção eu fazia tudo sozinho, até mesmo quando era necessário dublar. Numa crônica eu contei isto com muitos detalhes. Minha primeira inscrição foi num festival em Campos, com o filme “WAR”, feito com crianças e animação, ou quadro a quadro.Eu disse inscrição porque meu filme, junto com outro, “Favelando”, de alunos da PUC – Rio, foram retirados irregularmente por um censor. Eram ambos favoritos à vitória, segundo o organizador. A longa história, ou aventura, para recuperarmos nossos filmes na polícia federal, eu contei na crônica “PRAZER, SOU A CENSURA”.Igualmente tive outro filme considerado um dos favoritos num Festival em S. Paulo, capital, retirado pelo realizador do mesmo numa censura prévia isolada. Era “O PAPA NA TERRA DOS IRMÃOS JOÃO E PAULO”. Eu faço nele uma crítica à visita do Papa ao Brasil, misturando seus discursos com a situação social de grande parte do povo brasileiro. No centro do documentário há a história de dois garotos, sonhadores, que roubam para comer, mas também para irem a parque de diversão.Mais tarde obtive Menção Honrosa com este filme na Universidade Federal do Maranhão. Com o filme “LONA SUJA”, (ficção) todo dublado por mim, consegui o primeiro lugar numa Mostra de Filmes no CEFET, em Curitiba. Ele trata do seqüestro de um menino, filho de família rica. Aquele menino é hoje o grande violinista Glauco Fernandes, meu sobrinho, que integra a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal.No ano seguinte, no mesmo CEFET, concorri com o documentário “GRAN CIRCO DO NATAL”. Num ritmo meio alucinante, começando com cenas da chegada de Papai Noel, no Maracanã, faço uma crítica forte à hipocrisia das comemorações de Natal. São usados muitos anúncios de propaganda natalina, além de outros flagrantes. A trilha musical está numa canção de Ivan Lins, cantada por Elis Regina e músicas de Egberto Gismonti.O Júri da Mostra decidiu criar o prêmio “Solidariedade Humana” e concedê-lo ao meu filme. As Mostras do CEFET davam ótima repercussão na imprensa escrita. Na terceira vez que lá compareci infelizmente uma nova diretora do Centro estava a aplicar sua censura pessoal. Aleatoriamente e, sem qualquer aviso prévio, tive dois filmes retirados da Mostra. A partir daquele ano a Mostra acabou. A censora venceu.O filme “JOÃO CARNAVAL”, no qual o personagem central era meu cunhado, o Chico, um tipo alegre e beberrão (no filme, claro) que tinha dificuldades sérias de relacionamento em casa com sua mulher e seus dois filhos, foi filmado em grande parte nas ruas, entre foliões, durante o carnaval. Recebi também Menção Honrosa por este trabalho em outra Mostra na Universidade Federal do Maranhão.No filme “A ÚLTIMA ESSÊNCIA”, em que o bom amigo Reinaldo Campos fez o papel central, obtivemos um honroso segundo lugar num Festival em São Bernardo do Campo (SP). Aliás, perdemos apenas para um excelente documentário de alunos universitários de medicina. O filme deles apresentava uma cirurgia na cabeça de alguém, filmagem real. O trabalho era quase profissional. No meu filme o amigo Reinaldo representa o último exemplar de um ser humano não alcançado pelos ódios, desejos de vinganças, violências, enfim, por tudo que nos afasta  daquela idéia de que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Aprisionado, ele foge da jaula, corre por caminhos de toda espécie, e ao tentar fugir pela mata acaba sendo morto como uma caça. Assim é “A ÚLTIMA ESSÊNCIA”.Também tive problema com a censura pelo filme “OS CAMINHOS DO FOGO”. Um pequeno documentário de apenas 5 minutos de duração em que é mostrada a violência que acontecia, naquele período, em várias cidades brasileiras, ao atearem fogo às bancas, visando a atingir alguns jornais e revistas. Ao final o filme exibe esta sentença de George Bernard Shaw: “O assassinato é o último grau de censura.”Produzi ainda outros filmes, isto enquanto trabalhava na Direção Geral do Banco do Brasil em horário normal, sobrando para as filmagens apenas as noites e os fins de semana. Alguns chegaram a participar de Mostra e Festivais, outros não. A fase da bitola super-8 estava se esgotando. Eu, cineasta? Nem tanto, apenas um esforçado criador de filmes, em curta metragem, querendo externar seus sentimentos, sua indignação, seu repúdio à realidade que nos era então imposta. Tenho todos os filmes guardados em bom estado, mesmo na película original, acreditem. E foi assim.

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