EU ME LEMBRO…

    OJoaquim Ferreira dos Santos escreveu duas crônicas seguidas no Globo,inspiradas no livro “Memorando”, onde o jornalista Geraldo Mayrinkapresenta uma coleção de histórias do cotidiano, todas abertas com a expressão:”Eu me lembro…”. A idéia, com a colaboração dos leitores, tevelembranças de comerciais de TV, anúncios e modismos. Como na minha casa a TVchegou bem depois, a pretensão, aqui, é produzir um mini “eu melembro…”, com lembranças pessoais, de reclames ou sob a inspiração daRádio Sociedade de Friburgo.             Eu me lembro que me senti realizado no domingo em que fui à sessão da tarde doCine Eldorado, de camisa de manga comprida, sapatos Vulcabrás e calçasFar-West.                 Eu me lembro que me sentia “o dono do mundo” quando viajava paraNiterói pela Auto Ônibus Friburguense, “montado” nos enormescavalos pintados nas laterais dos veículos, que simbolizavam a potência daempresa.             Eu me lembro que joguei apenas uma vez no bicho e ganhei. Com o dinheiro fumeicigarros Negritos e bebi licor de pêssego Adônis. Para disfarçar o hálitochupei uma tangerina. Minha mãe cheirou a minha boca e fingiu que só sentiu o cheiroda fruta.              Eu me lembro que, na Rádio Friburgo havia o programa “Você é quemmanda”. Consegui linha e pedi a canção “La Violetera”, comSarita Montiel. A atendente me instruiu: “quando no ar com o locutor,você diz que quer ouvir “Olhos Castanhos”, com FranciscoJosé.”              Eu me lembro que enfileirados na calçada do Externato São José, meninos emeninas entravam no colégio por portões opostos. Eu e June, uma linda morena,mantivemos, por muito tempo, um namoro apenas pela troca de olhares queacontecia no cruzamento das filas.           Eu me lembro que “quase-felicidade” era quando havia lanche àtarde. “E que a felicidade era completa se o lanche fosse sanduíche demortadela do Cantelmo, regado com Guaraná Caledônia.            Eu me lembro que “voava” no interior dos automóveis que utilizavampneus Good-Year, como sugeriam os anúncios das revistas.              Eu me lembro que tinha pena daquele homem do reclame da Emulsão Scott, feita deóleo de fígado de bacalhau, que não se cansava de carregar um pesado peixe nascostas.             Eu me lembro quefomos a um laranjal e minha mãe abriu uma exceção permitindo que eu chupasseuma laranja. E no meio de uma centena de frutas enormes e maduras,respeitosamente, eu peguei a menorzinha, bem murchinha, quase apodrecendo eprovei…             Eu me lembro queno Natal pedi um dicionário de inglês Michaelis. Mas, ao receber o presentefiquei inconsolável, porque, arrependido da escolha, desejei ganhar umbrinquedo.           Eu me lembro que não continha o choro ao ouvir na, Rádio Friburgo, Teixeirinhacantar o clássico “Coração de Luto” que, de tão trágica, éconhecida como “churrasquinho de mãe”.           Eu me lembro que “meu mundo caiu” quando surpreendi Marília, umalinda vizinha de olhos claros, beijando o meu melhor amigo, com quemcompartilhava a minha secreta paixão.             Vou parar nesse ponto porque, como lembrou o Joaquim,citando Carlos Drummond de Andrade, há um limite nas lembranças em que o melhoré abrir os vidros da loção e abafar o insuportável mau cheiro damemória.   

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