GERAÇÃO “PURO-SANGUE”

    O “Aurélio” ensina que uma geração dura aproximadamente 25 anos. Entretanto, nesses meus 27 anos de banco já assisti a passagem de três ciclos distintos de servidores: o que entrou para o BC a partir da sua criação em meados dos anos 60; e os dois que vieram nas décadas 70 e 90, o dos “puro-sangue” e o dos “fraldinhas”.A geração “60” era formada ex-funcionários do Banco do Brasil. Gente robotizada, ocupantes de todos os cargos comissionados, que insistia em fazer acreditar que deveríamos nos ater a permanecer a reboque do BB. Pregavam que só seríamos ouvidos se permanecêssemos em silêncio. Cultivavam a omissão e o medo, não necessariamente separados. Há exceções. Classifico o “ciclo de 70” (o meu) de “puro-sangue” por dois motivos: não se deixou contaminar pelos temores da geração anterior e freqüentemente dá demonstrações que corre sangue em suas veias. Foi a geração que, comandada pelo inesquecível Paulo Roberto de Castro, revolucionou social e politicamente o BC.  Inicialmente, limitou-se a procurar ocupar os espaços e, a partir daí, fez tanto barulho que acordou a direção para a necessidade da criação de um conselho de representantes eleito pelo funcionalismo. Depois, entre outras tantas ações, deflagrou o movimento de independência e democratização da ASBAC; exigiu a extinção da carreira isolada; criou a AFBC e evoluiu até chegar aos sindicatos. A recente greve mostrou-os, em sua maioria, diariamente, nas calçadas do prédio, com ou sem a assembléia prevista para o dia. Há exceções.O ápice de suas conquistas é a criação de uma “subcutânea e silenciosa” torcida organizada e fanática que não se representa pelo uso de algum uniforme colorido. O fato de “vestir a camisa” é traduzido por atos, procedimentos, comportamentos e declarações de amor e fidelidade ao seu time do coração: o BANCO CENTRAL FUTEBOL CLUBE. Sejam realizados silenciosa e internamente ou publicamente junto ao povão ao som do vento na calçada.Até os conceitos esportivos tiveram sua influência no âmbito do BC no Rio. Nos anos 80, os campeonatos de futebol soçaite tinham a participação de fortíssimas e tradicionais equipes até que um time formado apenas por amigos passou a fazer parte da competição: o “Paladino”. Ninguém precisava ser um virtuoso. Bastava querer jogar futebol sem se amofinar ou discutir as derrotas. E após os jogos, com qualquer resultado, a ordem era rir, brincar e tomar cerveja. Entretanto, após uma série de derrotas, o técnico Bira, imaginando que o seu cargo “estivesse ameaçado”, enxergou a sua permanência como treinador nos pés de um dos astros do quase imbatível time adversário do “Panelinha”. Para tanto, fez uma premonitória solicitação, digna de técnico profissional do estilo Gentil Cardoso: “dêem-me Mauricinho que lhes darei uma medalha!”.A transferência era considerada impossível. No entanto, Mauricinho, político combatente, “piqueteiro de todas as horas”, “peça raríssima”, de temperamento alegre e descontraído, preferiu topar o desafio. Resultado: medalha de bronze no peito!Nesses dias de greve dei várias voltas na calçada e não consegui vislumbrar nenhuma nova liderança.  Nenhuma voz diferente. Vi sempre os “mesmos” dos últimos 20 anos. Desculpe-me, mas a geração “fraldinha” ainda não conseguiu dizer ao que veio. Não digo que é omissa como a geração “60”, entretanto, não “abraça” a instituição como a geração “70”. Esquecem que herdarão a defesa das reivindicações trabalhistas que serão, em sua maioria, as deles mesmo. Continua, incolor, inodora e, principalmente, insossa! Há exceções.Outra conclusão proveniente dessas andanças foi que, mesmo que às vezes não representem ganhos salariais, paralisações sempre revelam quem quer aparecer; quem precisa fixar a imagem; quem busca uma candidatura; quem faz pose de essencial; supostos líderes que só aparecem dependendo da força demonstrada pelo movimento; quem faz jogo duplo; quem quer apenas semear discórdias e de quem acende uma vela para Deus e outra para o Diabo.  No domingo que entremeou esta última greve, participei de uma festa-surpresa na ASBAC do Andaraí, oferecida por componentes de uma facção da geração “puro-sangue” a um dos seus membros, o já aposentado Bira, o mesmo e antigo técnico do time “Paladino” citado aí em cima. A presença em momentos distintos nas diferentes lembranças contidas nas conversas dos grupos formados me deu a dimensão da enorme distância que separa esses três perfis do funcionalismo e me levou a uma última reflexão: para ser funcionário do Banco Central não basta apenas exibir uma coleção de cursos de extensão universitária. É também e, principalmente, exprimir vibração, fidelidade, amor, reconhecimento e compromisso para com a Casa que lhes garante o pão de cada dia, assim como o “leitinho”  das crianças.