HERÓI-BANDIDO

    Rotineiramente genial, o Verísimo observou que ninguém mais atravessa o Canal da Mancha a nado; ninguém mais ateia fogo às vestes, ninguém mais faz reunião com strogonoffe, ou usa Vic-vaporube. Escreveu o cronista que o mesmo fenômeno aconteceu com a escalada do Everest, que era uma prova de perseverança humana e tinha que ser conquistado porque estava lá. Acha também que depois que o primeiro inglês chegou ao seu cume a conquista do monte banalizou-se. E desconfia que hoje existam excursões de fim de semana tipo “duas noites no Himalaia Hilton”, uma no pico do Everest para alpinistas amadores e que grupos de colegiais devem estar atravessando a nado o Canal da Mancha todos os dias e a gente é que não fica sabendo. O humorista gaúcho não disse diretamente, mas, desconfio que, como eu, ele acha que nos dias atuais estão faltando heróis. Não daquele tipo bonzinho, que beija e se casa com a protagonista principal no final do filme ou da novela. Esses não mais satisfazem. O herói de hoje tem que possuir uma porção bandido. Do tipo John Lennon e Maddona. Tem que insinuar que na sua vida existe alguma coisa escondida, algum segredo, política e socialmente incorreta.  Tenho a impressão que o General Charles de Gaulle e o Sir Winston Churchil não repetiriam o sucesso em nossos dias. Entretanto, Adolf Hitler, teria boas possibilidades de tornar-se bastante popular.O Brasil de hoje também carece de heróis. Até houve tentativas de alguns dos nossos  “bad boys” mas ninguém chegou lá. Faltaram pique e carisma para Edmundo, Paulo Maluf, Vera Fischer, Belo e outros. Na hora “H”, faltou gasolina para o jet-ski do “caçador de marajás”. Existem aqueles que se não teimassem em esquecer o seu “lado bandido” poderiam ser lançados como candidatos: Pelé enfatiza apenas o seu perfil esportivo do mais idolatrado e melhor atleta de todos os tempos. Esconde a versão Edson, na qual é um tremendo” cabeça-de-bagre “. Xuxa renega o passado das fotos eróticas para posar de supermãe e de uma alegre “tia” (nos dois sentidos). Roberto Carlos, com mais de 60 anos, ainda não se definiu. O eterno viúvo apaixonado fica entre a paixão por Jesus Cristo e a desilusão com a fé cristã. O último herói brasileiro foi Airton Sena. Talvez devido ao seu aspecto enigmático, dava impressão de esconder um grande segredo. Os demais, entre eles, Guga, Fernanda Montenegro, os Ronaldos e Barrichello são” gente boa “. Está na cara.Nesse ponto a Argentina nos ganha de goleada.  Possuem o Maradona, o Carlos Menem, já tiveram o Che Guevara, Juan e Evita Perón, e até mesmo o francês de nascimento Carlos Gardel, o conturbado e inigualável intérprete dos tangos mais dramáticos.O último que esteve em condições de colocar a candidatura de “herói-bandido” para o “conjunto da sociedade” foi o José Dirceu. Afinal, ele possui no currículo a incrível façanha de conseguir esconder da própria esposa – durante anos – a sua verdadeira identidade. Entretanto, “morreu” do seu próprio veneno. Waldomiro Diniz, seu assessor mais próximo – há muito tempo – foi flagrado com a boca escancarada exigindo propinas debaixo da sua barba.  Não há como discordar do Veríssimo. O nosso último “herói-bandido” não foi um “bad boy”. Foi Jorge Guinle. Um “maluco beleza”.  Conseguiu torrar uma fortuna incalculável, nunca trabalhou e faturou todas as atrizes vieram passar o carnaval no Brasil. Sua competência ultrapassou fronteiras: antes de se tornar amante de John Kennedy, Marilyn Monroe, primeiro, prestou continência às suas armas. Uma vitória espetacular das nossas cores. Enfim, o cargo está vazio e país necessitando de quem o ocupe. Alguém aí tem candidato?