INIMIGOS PRA CACHORRO

    Há dias atrás bateu-me no peito a mesma indignação que muita gente deve ter sentido. Refiro-me à entrevista, divulgada na Tv, com palavras do médico veterinário que inutilizou as cordas vocais da cachorrinha de uma senhora, a pedido desta. E ainda admitiu, com uma frieza impressionante, que já fizera o mesmo com outros cachorros. O referido senhor procurou justificar este procedimento como uma “coisa normal” e até “rotineira”. Só por se tratar de um animal? E se fizessem o mesmo com as cordas vocais do veterinário, como ele se sentiria, hein?! Isto vem se somar a atitudes monstruosas que deram de ser meio rotineiras, como filhos matarem os pais e vice-versa, além de denúncias de torturas no ambiente familiar, etc. A sociedade, ou parte dela, parece que deu de se acostumar com esses fatos. Isso é muito perigoso. A dona do cachorrinho me deixou estarrecido também ao dizer que “nada alterou no animal, ele continua se comportando como antes e até late (pasmem) à maneira dele…” Será que ela é cristã? Será que se considera humanista, bondosa, será que ama mesmo o seu cãozinho? Não lhe dói o coração não poder mais ouvir a voz dele tentando comunicar-se com ela? Que raio de amor é este?  A alegação, que não aceito em hipótese alguma, é a de que alguns vizinhos reclamavam dela porque o bichinho costumava latir muito, e às vezes, de madrugada. Não vou ao extremo de dizer que os vizinhos que se mudassem, claro, mas jamais acolherei aquela justificativa para aprovar a barbaridade impetrada contra o inocente animal. Afinal prevaleceu o desejo, que se revela profundamente egoísta, da senhora, em ter o cão. É a minha opinião, mas creiam, não apenas minha. Nós adoramos animais e aprendemos há muito a respeitá-los. Se não possuímos um cão é porque a convenção do condomínio em que moramos, no Rio, não o permite. Esta proibição tem sido muito contestada hoje em dia, mas para evitar maiores problemas na convivência com os demais moradores, preferimos abrir mão desse desejo. Inadmissível seria atender ao nosso anseio e, para tanto, mutilar o animal. O dicionário, quando define o vocábulo “animal”, a certa altura diz: “pessoa muito ignorante, estúpida; pessoa desumana, bárbara, cruel”. Como é fácil de perceber, no pior dos sentidos que possamos dar àquela palavra, “animais” são certos seres humanos, ditos racionais. Esses, por outro lado, não usam a sua razão como também define o dicionário: “Faculdade que tem o ser humano de avaliar, julgar, ponderar idéias universais; raciocínio, juízo, inteligência.”  Dois dos bons amigos que me honram com sua leitura e atenção, o Ivan Matvichuc e sua esposa Fátima, de São Vicente, S. Paulo, escreveram-me, também revoltados, e lembrando com que carinho eu narrei há tempos a história do Branquinho, na crônica “Amigo pra cachorro”. Ela pode ser lida no meu site pessoal na relação de crônicas do cotidiano.Disseram eles em sua mensagem: “Soubemos através do noticiário da  TV Globo que os cães poderiam ser vítimas de uma campanha para silenciá-los e evitar que seus latidos possam perturbar o sossego público. A idéia seria operá-los para tirar ou cortar suas cordas vocais. Ficamos tão indignados que resolvemos enviar e-mail à Rede Globo e à Sociedade Protetora de Animais, protestando contra essa barbaridade e nos alinhar na luta contra essa ignomínia.”  E mais adiante os amigos comentaram: “Na nossa opinião, isto é uma barbaridade que somente os trogloditas seriam capazes de cometer. Lembramos, ao escrever essa mensagem, de um cãozinho chamado Branquinho, num prédio onde você morou, Francisco, e que se tornou amigo dos empregados do condomínio, o João e o Manuel e que você imortalizou em seu conto “Amigo pra Cachorro”, publicado na Antologia Estalidos da Rozélia Scheifer Rasia, de Cruz Alta-RS. Ficamos imaginando como seria a vida desse cãozinho se ele fosse mudo e incapaz de se comunicar com vocês.”Lindas palavras, lindo sentimento, expresso por pessoas que merecem, eles sim, serem considerados humanos, ou seja, “bondosos, humanitários, integrantes da natureza humana”, como também define o dicionário. Na verdade a trajetória do cão Branquinho se deu aqui em nosso Condomínio Parque Oásis, em Cabo Frio, formado por mais de 90 casas.  Naquela minha narrativa sobre fatos verdadeiros da convivência do Branquinho com os moradores, omiti umas poucas pessoas que mais desejavam se livrar da “incômoda” presença dele, já que, se pudessem, o expulsariam de nossa comunidade. Pessoas mal amadas, que alimentam o desamor, que vivem de mal com o mundo, existem em qualquer grupo social, em qualquer condomínio. Infelizmente a cadela “Filé”, trazida por Branquinho, e aqui deixada em seu lugar, quando ele morreu, acabou sumindo de nossas ruas há alguns meses. Surgiram logo denúncias sobre determinado morador que a teria entregue à tal carrocinha. Lamentamos pela sorte da amiga. Quanto ao responsável por a termos perdido, certamente já deve ter infelicidade demais em seu viver sombrio adubado de cruezas. Esses fatos me arremetem também às touradas. Quando escrevi “OLÉ TOURO” omiti propositadamente o teor de um documento – denúncia que me chegara de Portugal quanto a certas maldades que fazem não só com o touro como também com os cavalos usados, em parte do “espetáculo”, pelos toureiros. Vários são os requintes de crueldade que incitam o touro a entrar na arena babando e a correr feito louco em busca de algo que ele nem sabe mesmo o que é. Normalmente o animal não teria porque adentrar o recinto exibindo aquele furor aparentemente indomável. Essas revelações também nos haviam sido feitas, pessoalmente, em 1992, em Figueira da Foz, por um jovem, filho do homem que administrava a praça de touros daquela bonita cidade portuguesa. No rol de torturas a que seriam, ou são, submetidos, tanto os touros quanto os cavalos, conforme o referido documento, consta que chegam ao extremo de cortar a língua desses últimos, para que não relinchem quando atingidos pelos chifres dos animais, ou quando sofrem uma queda etc. Dizem os adeptos das corridas de touro que o relincho “enfearia” o espetáculo.  Creio que, a serem verdades tais denúncias, o que efetivamente enfeia as touradas, para além de todo o tormento por que passa o touro na arena, e portanto o próprio “espetáculo” em si, é o aplauso, o delírio de um público, seja em que país for, é a insensatez de seres humanos, ditos racionais, que se comprazem com um festival de torturas, no qual o sangue do animal não parece lhes saciar a sede de irracionalidade. Digo isto porque dias depois lá estão outra vez a repetir o mesmo ritual lúgubre.  Esses fatos estão também intimamente ligados com o atual aparecimento dos “inimigos pra cachorro”, não se iludam. Se a sociedade não reage, se ela se mostra insensível, logo a crueldade vira rotina, se não acabar até amparada por alguma lei, sei lá. Sabemos que existem mentes, humanas (?!), capazes de impetrar as maiores atrocidades, haja vista as guerras sem fim, algumas só pela disputa de poder. Os “inimigos pra cachorro” hoje nos deixam indignados, mas quantos nem sequer terão se importado com aquela reportagem da TV? Quantos até acharam, talvez, que se justifique? Aí começa o perigo. Quem ainda tem capacidade de se revoltar, de se indignar com coisas como esta e tantas outras, não deve se calar, não deve comodamente se refugiar no silêncio que acaba por ser cúmplice.  Devemos lançar o nosso brado de alerta, assim como fizeram os meus amigos Ivan Matvichuc e sua esposa, Fátima, de São Vicente, São Paulo. Eles chegaram a me dizer que conheceram alguém que tinha o hábito de implicar com o canto dos sabiás de um viveiro. Parece que os bonitos gorjeios o irritavam. Ora, quem sabe amanhã alguém quer também silenciar os pássaros, como receiam Ivan e Fátima, com toda a razão? Nós, que aqui em Cabo Frio desfrutamos do privilégio de ter a janela do nosso quarto voltada para a pracinha interna de nosso condomínio, e que somos acordados, ainda cedo, pela “aurora cantante” de tantos passarinhos, seríamos muito infelizes se a natureza ficasse muda. Convivemos com um festival de pios variados durante todo o dia além de algumas “visitas” dos pássaros à nossa janela. Uma bênção que na cidade grande dificilmente podemos ter. Enquanto há seres humanos preocupados em salvar, em preservar espécies de animais, parece que outros estão se deixando envolver, cada vez mais, com essa aberração, esse desvario, essa loucura, cada vez mais ensandecida, que anda a dominar mentes e corações. Se existe algum “eixo do mal” nele estão os que apenas tramam contra a paz, contra o amor, contra a vida de animais racionais e irracionais. Entre eles estão agora inscritos esses “inimigos pra cachorros”.