MENTIRAS DIGITAIS

    Hoje se sabe que a principal razão alegada incessantemente por George Bush e Tony Blair para justificar a invasão do Iraque pelas tropas aliadas – a presença escondida de armas de destruição em massa no país do Oriente Médio – era completamente falsa. Fato que nos leva a concluir estar “prenhe de razão”, como diria Chico Buarque, quem cunhou o pensamento de que, numa guerra, não se deve confiar dos fatos e jamais acreditar piamente nas versões destes.           Mas não é de exclusividade dos dirigentes políticos o falseamento e a distorção das verdades sobre conflitos. As redes de TV e os jornais – alegando não saber como lidar com o seu público quando se trata de grandes tragédias – tem trilhado pelo mesmo caminho. No 11 de setembro nova-iorquino, as redes de TV americanas decidiram não dividir com os telespectadores o horror que chegou às redações. Praticamente não se viu uma gota de sangue no vídeo.        Neste 11 de março de Madrid, a foto de maior impacto do atentado, a que mostrava vítimas sendo atendidas diante dos trens destruídos, expunha do lado inferior esquerdo um pedaço de corpo. Não dava para afirmar se um braço ou uma perna. No entanto, em vários dos principais jornais do mundo o membro ofensivo foi eliminado digitalmente.         “Prenhe de razão” também está a cronista Cora Rónai analisando a questão para O GLOBO ao afirmar que esses jornais atropelaram uma regra básica do fotojornalismo que é de nunca modificar a realidade mostrada pela fotografia. Pode-se, disse ela, cortar as fotos, publicá-las em preto e branco, aplicar uma tarja ao que não se quer mostrar, mas nunca suprimir ou acrescentar nada ao que foi capturado pela lente, sem se informar isso.        O fecho dado foi de brilhantismo irreparável: ”… o membro ofensivo foi eliminado digitalmente. Um recurso fácil, e até compreensível como cuidado, mas com uma conseqüência funesta: perda de credibilidade. A única forma de conservar a fé do leitor no que vê é garantindo que nenhuma foto de reportagem será jamais alterada sem que ele saiba disso. Este é o caso em que uma palavra – “modificada” – pode valer por mil imagens.  Portanto, definitivo.