O “MEU” CHE GUEVARA

    Minha adolescência durou um tempão: 18 anos. Demorou tanto que entrou pelo casamento e até assistiu ao nascimento da minha primeira filha. Teve início na noite do dia 31 de março de 1964, exatamente no momento em recebi a notícia do golpe militar. Naquele momento, voltando solitário para casa, percebi que o meu tempo de criança havia acabado e o que vinha a seguir – a juventude – trazia consigo inúmeras preocupações sociais e políticas. Acordei para a fase adulta numa tarde de junho, quando o Brasil perdeu de 3 x 2 para a Itália na Copa de 1982 na Espanha. O choque de perceber que o meu imbatível “dream team” era feito de carne e osso e sujeito a derrotas irreparáveis, me fez experimentar quebrar promessas, apagar velas oferecidas às almas e pisar em encruzilhadas. Passei a sorrir menos, a pensar mais, a saborear o amargo e a beber o intragável.Paralelo ao desenrolar desses anos, nós, “subversivos” ou não, passamos a acompanhar a onipresença na América do Sul de um médico argentino que sabíamos possuir todos os atributos de um verdadeiro e imortal líder a ser seguido: Ernesto Che Guevara. Publicamente, a maneira de solidificarmos sua presença e a crença nos seus ensinamentos era usar uma réplica da sua boina estrelada. Também a sua foto estampada na camiseta branca fazia parte do modelo. Intimamente, a demonstração de idolatria era pendurar no quarto um quadro com a reprodução da sua silhueta.  Os extremistas cometiam o sacrilégio de retirar a imagem do Sagrado Coração de Jesus da sala de jantar da família e no lugar era inserido um pôster do aliado de primeira hora de Fidel Castro. Hoje é possível vermos na rua alguns jovens usando “T-shirt’s” com seu nome ou com a reprodução do seu rosto, mas duvido que saibam o que representa.  Che foi caçado e morto por militares na Bolívia, sob a batuta da CIA, em 1967. Entretanto, de vez em quando volta ao nosso convívio “vivinho da silva”. Às vezes, em dose dupla, como atualmente no badalado “Diários de motocicletas” e no livro “O dia em que Getúlio matou Allende”.     Do filme soube alguma coisa pela minha filha menor. Contou que a obra revela um jovem aventureiro, alegre, mulherengo, persuasivo, sonhador, e até mesmo um tanto quanto “171”. O livro do repórter Flávio Tavares – que ainda não li, mas onde desconfio que não vou encontrar nenhuma surpresa – narra o Guevara homem prático, seriíssimo e intelectual. Que estudou com afinco Lênin e Marx e mantinha um velho amor pelos romances de Pablo Neruda e Garcia Lorca. Descreve o alfabetizador que dava aulas de história, geografia, espanhol; além de ensinar francês a quem tinha paciência em Sierra Maestra. Conta também que, o mesmo Guevara que atuou como presidente do Banco Nacional de Cuba, construiu como se fosse engenheiro, casas, armazéns, escolas e hospitais. Desvenda o asmático médico que atuava como dentista arrancando dentes à frio. E encontra tanto o combatente que matou incontáveis inimigos, como também o Comandante militar que executou pessoalmente os traidores – com absoluta frieza e único tiro – sem nenhum tipo de piedade. Ainda não resolvi se vou assistir ao filme. Egoísta e medroso, não quero tomar conhecimento da adolescência da pessoa a quem mais admirei na minha juventude. Receio que possa haver nos “Diários de Motocicleta” alguma revelação que prejudique a irretocável imagem que conservo guardada a sete chaves do ícone único e máximo da minha juventude.O “meu” Che Guevara, com certeza absoluta, não é do filme. Tudo leva a crer que seja o do livro. Aquele que não cansou de ensinar  que “hay que endurecer siempre, pero, sin jamás perder la ternura”. 

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