OS DESVAIRADOS DA ESTRADA

    Todo mundo sabe o quanto certos brasileiros e brasileiras são completamente irresponsáveis ao volante de um automóvel, nenhuma novidade. Entendo que na base disso está, como sempre, a educação,  ou melhor, a falta dela.   Nas nossas constantes idas e vindas entre o Rio e Cabo Frio, temos presenciado, seja na Niterói – Manilha, seja na Br-101, seja na Via Lagos, a cenas  que justificam por si só a grande quantidade de acidentes que ocorrem em nossas estradas rotineiramente. Em regra por culpa dos respectivos motoristas, alcoolizados ou não.   Ainda recentemente, em uma de nossas idas para a querida cidade praiana, ficamos a contar quantos desvairados, ao volante de seus veículos, cometiam uma infração, que pode provocar grandes acidentes, mas que deixa de ser punida porque falta policiamento em quase todas as nossas estradas. Os pouquíssimos policiais rodoviários  que lá se encontram, geralmente sequer têm condições de trabalho.   A infração a que me refiro é a seguinte: um carro segue na auto estrada pela faixa da esquerda, porém a pouca velocidade. Outro se aproxima, mais veloz, e de pronto o ultrapassa pela direita. Todos sabemos, porque aprendemos na auto-escola e porque está escrito nas leis que regem nosso comportamento ao volante, que toda ultrapassagem deve ser efetuada pela esquerda, e somente por ela.   Usar a direita para avançar à frente de outro veículo pode pôr em risco a vida dos ocupantes de ambos os carros.  Já vimos acidentes em que, quando o motorista do veículo que segue pela esquerda percebe a rápida aproximação de outro e logo cuida de mudar de faixa, por imprudência do segundo, acabam por colidir… na faixa da direita, claro. Entretanto este abuso se repete constantemente.   Naquele dia a que me refiro acima, perdemos a conta de quantas vezes aquela irregularidade aconteceu. Na Niterói – Manilha, por exemplo, percebi, por alguns minutos, que vários veículos se aproximavam de um Fiat, que ia mais lento pela esquerda, e logo o ultrapassavam, mas pela direita. Cheguei a imaginar que ao volante do Fiat estivesse algum morrinha daqueles teimosos que se recusam a dar passagem.   Pela atitude de tantos outros motoristas deu para imaginar isso. Mas, quando o tráfego acalmou, fui para trás dele e percebi que sua velocidade estava aí pelos 90 km por hora. A velocidade máxima naquela estrada, em quase toda a sua extensão, é de 100 km por hora. Fiz então o que está escrito na “cartilha” do bom motorista: usei a seta do farol e dei-lhe um sinal, pedindo passagem.   Para surpresa minha, de imediato o condutor da Fiat acionou a seta indicativa de que ia sair para a direita, e o fez logo a seguir. Acelerei, e ao ultrapassá-lo, pela esquerda, dei leve toque na buzina, agradecendo. Ele, por sua vez, também buzinou me cumprimentando. Percebi então que minha precipitada conclusão anterior estava completamente equivocada quanto àquele motorista.   Por outro lado ficou comprovado, para mim, que os inúmeros carros que haviam cometido, de forma totalmente irresponsável, a infração a que aludo acima, só o fizeram por terem ao volante pessoas despreparadas para dirigir, ou mal educadas, que não se deram ao trabalho de pedir passagem. A isso, preferiram bancar os “espertinhos” (e há tantos soltos por aí a provocar desgraças) e lançar-se logo pela faixa da direita. Se houvesse um choque entre os veículos, ainda iriam invocar razão!   Afinal, para muitos desses motoristas, regras e leis foram criadas para “otários”, e eles não têm tempo para essas “bobagens”. Talvez seja por isso que morrem tantos deles pelos quilômetros afora da nossa malha rodoviária. Triste é quando arrastam com eles pessoas inocentes que ocupam veículos atingidos por decisões criminosas desses “desvairados da estrada”.   Claro que esta é apenas uma das muitas infrações que eles cometem impunemente. Outra, costumeira quando há alguma retenção no tráfego, é a de invadirem os acostamentos. Pessoas já foram atropeladas e mortas quando trocavam pneu ou esperavam socorro naquele local previsto justamente para essas emergências.   Em outubro, quando nos dirigíamos a Cabo Frio para a estada de uma semana, novamente, logo após o antigo trevo de Manilha, onde agora está sendo construído um viaduto (até que enfim!) o tráfego estava bem lento nos 3 quilômetros seguintes. Logo inúmeros “espertalhões”, cuja pressa cegava a responsabilidade, projetaram-se pelo acostamento, e quando encontravam algum obstáculo, lançavam-se sobre os veículos que trafegavam normalmente na faixa da direita.   Outros, ainda mais alucinados, circulavam para além do acostamento, ou seja, na faixa de chão batido, que em realidade era a rua das pessoas que moram nas redondezas e por ali caminhavam. Não encontro algum outro tipo de classificação que faça justiça a este tipo de comportamento que não chamar esses irresponsáveis de “aspirantes a assassinos”.   Pedestres, ciclistas, pequenas carroças, todos foram ameaçados com aquela invasão realmente criminosa de seu legítimo espaço de trânsito. Uma barbaridade. E o problema, cuja causa acabamos por não perceber, atrasava a viagem somente num pequeno trecho de 3 quilômetros. Os veículos desenvolviam velocidade bem baixa, mas não estavam parados. Todavia, os “desvairados da estrada” não podiam desperdiçar tempo, ainda que tivessem que perder a própria vida ou tirar a de outros.   Naquele mesmo dia, algo tão ou mais grave estaria para ser presenciado por nós. Foi na Via Lagos, auto estrada em muito bom estado, alguns quilômetros antes do pedágio. A tranqüilidade era a tônica do tráfego naquela via, no referido sábado à tarde. A estrada apresenta duas largas faixas de rolamento em ambos os sentidos e tem, em quase toda a sua extensão, um acostamento bom.   Três carros seguiam pela esquerda, a certa distância um do outro, com o intuito de ultrapassar um caminhão que ia pela faixa da direita. O terceiro dos veículos era o nosso. Aproximava-se uma curva logo adiante. Repentinamente surgiu como um bólido uma cherokee preta, na mesma faixa em que estávamos, aproximando-se velozmente de nossa traseira.   Num piscar de olhos, aquele veículo já estava me ultrapassando pela esquerda. Só que na faixa da esquerda já estava eu. O irresponsável motorista, com a família no carro, se lançara para uma das faixas da contra-mão, ou o sentido contrário da via Lagos. Note-se que, separando as mãos, há no chão aqueles obstáculos retangulares de bom tamanho e feitos de ferro. Aquilo pode alterar a direção do carro ou furar penus.   Quem estava ao volante era, com certeza, um sério candidato a assassino ou a suicida, ignorando até a presença de seus familiares na cherokee. Por haver uma curva logo adiante ele acelerou fundo e, com muita sorte, conseguiu retornar a nossa faixa de rolamento na frente do carro que eu seguia, na seqüência da ultrapassagem ao caminhão. Imediatamente surgiu um veículo na curva, no sentido contrário, justamente na faixa onde pouco antes passava a cherokee, na contra-mão.   Por sorte o pior não aconteceu, mas como nem sempre essas loucuras dão certo, uma hora famílias inteiras deixam suas vidas na estrada. E sabemos que muitos desastres são perfeitamente evitáveis, desde que dirijamos todos com equilíbrio, com respeito às regras do trânsito, e com muita responsabilidade, só que isso exige uma boa formação educacional, e essa está na base de tudo, com certeza.   Em contrapartida alguns prefeitos enchem as estradas de “pardais eletrônicos”, totalmente inúteis no que concerne a orientar, a educar os que dirigem. Visam apenas a arrecadar mais sem o menor interesse com a segurança dos motoristas. Essas peças também estão desmoralizadas pela esmagadora maioria dos condutores de veículos.   A rotina que eles seguem é esta: quando vêem o aviso da “fiscalização eletrônica” todos freiam e põem-se a andar bem devagarinho, entre 40 e 50 km. Todos “rigorosamente obedientes” à velocidade ali estabelecida. No que ultrapassam os poucos metros do alcance do referido controle, bom, aí todo mundo baixa o sapato no acelerador e… velocímetro pra que te quero… Deixam ruborizada a placa do limite de 100 km, permitido, com a cara-de-pau e a falta de responsabilidade de tanta gente.   Insisto que nossas autoridades não demonstram a menor sensibilidade para com todos esses problemas. Deveriam encetar muitas campanhas educativas, permanentes, em rádio, Tv e jornais, formuladas por gente criativa e talentosa, em vez de ficarem a fazer discursos inúteis e a extorquir algum dos mais distraídos, pelos tais “pardais eletrônicos”.   Se “pardal eletrônico” tivesse alguma utilidade como professor de educação, eu não veria sempre, na ponte Rio-Niterói, onde há muitos deles, tantos veículos com velocidade bem acima dos 80km permitidos e a passarem por nós feito raios. Educar, senhores, acima de tudo, educar. Esta deveria ser a preocupação primeira e sempre de nossas autoridades. O resto é demagogia e mais uma forma de ludibriar o cidadão.