“PARA ONDE VAMOS?”

    O silêncio frio desta noite, ainda de inverno, me flagra  num mutismo de palavras e de idéias. À minha frente, uma página branca do “Word” espera minha decisão. Este branco poderia ser de um símbolo da paz deste momento em que a vida repousa na maioria dos corpos que já se entregam ao descanso noturno.   Ledo engano, este branco inerte e vazio traduz ansiedade e espanto. Estas duas sensações me inundam em hipnose e torpor. Me encontro num certo êxtase que pende mais para a volição. Sei que existo, mas procuro não pensar. O pensamento me assusta, neste instante, porque inevitavelmente joga-me na ansiedade.   Ela é alimentada por uma  certa angústia, uma incerteza do improvável, da felicidade que parece fugir e se esconder coagida, constrangida por uma realidade onde os valores, hoje, estão sendo completamente invertidos. Ela se torna reclusa, se fecha a sete chaves, se enjaula atrás de grades que deveriam aprisionar a violência, mas que, em verdade, tentam servir de refúgio e defesa contra esta.   Liberdade é para a coação, para as torturas, para as fraudes e fraudadores, para mentiras e mentirosos, para guerras e belicistas, para a violência que promove os seqüestros, os estupros, que violam e que matam, muitas das vezes, apenas como quem participa de um jogo. Nós perdemos sempre. Perdemos ora a paz, ora a dignidade, ora a honra, ora a vida. Sentimos, dia a dia, aquele sabor de derrota, de inutilidade, de fraqueza, de vergonha do medo que nos assola e nos aflige.   Há algum tempo atrás escrevi uma poesia que ainda está inédita, como outras tantas. Seu título é “Pazmedo”. Eu a escrevi num momento como este que me acolhe agora. Alguns de seus versos dizem:                                                       “A paz sufoca escondida, A paz está com medo, Milhões de medo se guardam Se resguardam no degredo. O amor, a cidadania, o destino Nos seus castelos de medo. O medo ainda menino, O medo crescendo covarde, Já foi cedo, talvez seja tarde. A paz recua e mais recua, Se encolhe,  se deprime, Somos todos pingentes Nos estribos do medo. Reféns de uma agonia, Uma angustiante harmonia Que ilude, não redime.”   O pensamento também me lança no espanto. Minha consciência da realidade é muito forte e exigente. Não consigo ser plenamente feliz só porque da janela de minha sala para dentro tudo aparentemente vai bem. A janela não impede o alcance do meu sentimento universalista. Um amigo me disse para eu me “desligar” e assim sofrer menos, evitar angústias desnecessárias. Talvez ele consiga fazer este tipo de exercício, para mim é mais difícil. Bem que uso o humor algumas vezes para atenuar.   Mas, como “desligar”? Eu me sentiria um alienado se o fizesse com freqüência. Como “desligar” sabendo que apenas um sexto da população mundial detém o que alguns chamam de riquezas? E os outros mais de 5 bilhões de seres humanos? A cimeira realizada em Johannesburgo, recentemente, provou mais uma vez a grande indiferença dos países ricos para com a miséria, a fome e as doenças que afligem e que matam centenas de milhões de pessoas pelo mundo afora, por ano.   Como “desligar” sabendo que em nosso planeta morre gente até por não ter acesso à água potável?! Ou por ver que, com a imensa degradação do meio-ambiente, uns poucos empurram toda a humanidade para catástrofes terríveis, algumas das quais já vêm acontecendo? Sei que tem gente que insiste em fazer de conta que tudo vai bem, em “não ver” essas tragédias, assim essas pessoas conseguem “ser felizes”. Um dia acordarão para a realidade, mas poderá ser tarde demais.   Alguns gostariam que eu falasse  mais de amor. Ora, mas agora mesmo eu o estou fazendo. Afinal, não se fala de amor apenas quando dirigimos nossas palavras, nossos sentimentos, àquela pessoa que reina em nosso coração e nossa mente. Eu, até como cristão, procuro abraçar com meu amor todos os meus semelhantes. Não repito isto em minhas orações, automaticamente, sem o professar na prática, absolutamente.   Na minha maneira de ser e de sentir a vida e o mundo que me cerca, ainda que fosse ateu, com certeza eu procederia da mesma forma. Posso parecer ridículo a uns poucos, mas talvez seja por isso mesmo, pelo desinteresse que alguns manifestem a seu próximo, que assim descaminha a nossa humanidade. A piedade, para esses, não alcança a compaixão, a pena pelos males alheios. É cada um por si.   No dia 05.09.2002, eu li na coluna do jornalista Pedro Porfírio uma excelente matéria com o título  “Quem vê odaliscas não sabe o que o mundo vê”. A certa altura ele afirma: “De um modo geral, as pessoas andam cegas e arrogantes, presas a avaliações mesquinhas, cada uma confinada no seu mundinho mítico de realizações mínimas, perpetuando a pior das escravidões, a da ignorância cultivada.”   Outros que me lêem gostariam que eu falasse mais de paz. Creiam, eu também gostaria imenso. Mas, como fazê-lo se nosso mundo  está cercado de guerras por todos os lados? Guerras por todos os motivos, geralmente os mais sórdidos. Guerras  ditas “santas” que, para o meu bom senso e entendimento, são verdadeiras incoerências para qualquer fundamento religioso. Guerras por cobiça, por conquistas maiores, por vinganças, que rejeitam o direito internacional, ou o TPI.   Hoje mais de 6 bilhões habitam este lindo planeta, porém bastam uns poucos  néscios com grande e destruidor poder nas mãos e alucinadas, estultas e exterminadoras idéias na cabeça, ambicionando impor-se com uma soberania quase imperial, absolutista, insensíveis às conseqüências de seus  atos belicistas, indiferentes ao consenso que contra-indique sua fúria incontrolável, para pôr em risco o futuro de nossa humanidade. Está difícil distinguir entre o terrorismo de grupos e o de governos, atualmente eles se nivelam.   No alcance universal da minha consciência, é  impossível mesmo a hipótese do “desligamento”. Diante de fatos, os mais ameaçadores possíveis, de procedimentos absurdamente irresponsáveis, da indiferença por conseqüências as mais aterradoras, sem querer ser catastrofista, só posso antever o pior, caso sejam concretizadas recentes ameaças de deflagração de novos conflitos que acabarão por envolver muitas nações. Do prestigiado jornal “Expresso”, de Portugal, edição de 07.09.2002, matéria assinada por Mário Tomé, dirigente da UDP, transcrevo este trecho:  “Depois do 11 de Setembro, a democracia deixou de ser um estado subordinado ao império do direito, de garantia das liberdades e respeito pelos direitos das pessoas; passou a ser subordinada ao império dos EUA, uma classificação auto-atribuída com o fundamento da força bruta – designação de todos os Estados que aceitem fazer parte da aliança anti terrorista que mandou às urtigas o paradigma ocidental do primado do direito, do racionalismo crítico e científico, substituindo-o por uma espécie de novo pecado original.” Permito-me mergulhar ainda mais na mesma edição do jornal “Expresso”, acima referido, para extrair este segmento de outra matéria do noticiário internacional, com o título de “O Triunfo da Morte”: “É muito frágil, a nossa força. Perscrutamos as galáxias, mas continuamos a não enxergar dentro de nós. Podemos orgulhar-nos do esplendor e do milagre da técnica, que nos permitem passear na Lua e enviar sondas a Marte. Mas não podemos orgulhar-nos do facto de o nosso tempo, no plano ontológico, continuar a ser um tempo primitivo, habitado pelo espectro do mal. A técnica e a política, e a guerra como seu instrumento, não vão domar esse monstro. Ele só será vencido a partir do coração do homem. Mas, no tempo das viagens planetárias, o coração do homem continua a ser o lugar mais inacessível do universo.”   «Vale a pena reflectir sobre a forma como a violência e o horror tendem a invadir o nosso quotidiano, ao ponto de constituírem uma segunda natureza nas nossas vidas. Vivemos num tempo em que as conquistas da técnica atingiram níveis prodigiosos, mas em que o ser moral do homem dá sinais de querer afundar-se em patamares de bestialidade, intolerância e violência nunca vistos.»   Acrescento também o final da matéria assinada por Leonardo Boff, publicada no Jornal do Brasil de 13.09.2002, por se inserir perfeitamente no contexto desta minha reflexão e análise:   “Não sabemos quem é mais demente: se aqueles que jogaram aviões contra as torres ou aqueles que propõem usar “todas as armas”. Tal ato implicaria genocídio monstruoso de civis, um terrorismo pior do que aquele dos terroristas, além de contrariar os valores em nome dos quais movem guerra contra o terrorismo. Nem os talibãs nem os “talibushs hão de determinar os destinos da humanidade. Se nos faltarem outros meios, sempre nos restam os de Gandhi, inspirados no pregador ambulante, Jesus de Nazaré: a oração, o jejum e a penitência.”   E eu quebro o silêncio frio desta noite, diante de tudo que aqui registrei, para bradar-lhes a interrogação que tomei emprestada do artigo acima de Mário Tomé, do jornal Expresso, de Portugal: “Para onde vamos?”