POR MUITO POUCO MESMO

    Naquela noite havia luar e uma brisa fresca muito agradável aqui em Cabo Frio. A amiga Marlene providenciava o meu jantar enquanto sua filha Grasiele assistia à novela na parte de cima da casa, no meu escritório.Pela rua privativa, onde está localizada minha casa, parecia que apenas passeava o silêncio, sempre presente durante esta parte do ano por toda a noite. É a grande compensação dos meses de verão nos quais prevalecem sons de toda ordem e em muita desordem. Dizem que no verão o silêncio passa férias bem longe daqui.Os relógios marcavam, todos, pouco mais de 21 horas naquela noite tranqüila. Digo, todos, porque temos 6 relógios por toda a casa, além do pequeno que reina sobre a mesa do computador. Eu descera com a intenção de colocar na garagem o meu carro que, ao final da tarde, deixara estacionado em frente à casa. Não gosto que ele “durma” na rua, mesmo sendo esta privativa. O condomínio possui 2 vigias em cada turno de 8 horas, 24 horas por dia. Eles procuram estar sempre atentos, mas não têm treinamento de polícia e nem arma podem, nem devem usar, claro. A certa altura, Grasiele, filha de Marlene, julgou ter ouvido um barulho seguido de um gemido. O som parecia vir justamente da rua. Marlene, estando na cozinha, com a TV ligada na copa, nada ouviu. Em princípio Grasiele julgou tratar-se dos gatos da vizinha em frente que, algumas vezes se desentendem e esquecem que são amigos. Continuou a ver a novela. Logo depois outro ruído estranho e um gemido mais forte. O som entrara no ambiente pela janela da frente do meu escritório. Grasiele não entendeu nada mas decidiu conferir olhando para a rua.Naquele exato momento ela percebeu que havia um homem dentro do carro, armado, e que eu saía pela porta do motorista com as mãos na cabeça. Observou também que outros dois sujeitos ajudavam a me render. Pensou: é um assalto.Grasiele desceu correndo até à sala e deu uma volta na chave que estava na fechadura, por dentro. De imediato contou à mãe o que presenciara. Ambas ficaram muito nervosas por saberem que eu estaria correndo um sério perigo. Marlene pegou o telefone da sala, levou-o para a copa e de lá, com as mãos trêmulas, ligou para a delegacia. Esta fica a cerca de 5 minutos de nosso condomínio. Pediu socorro imediato, enquanto Grasiele fechava a porta blindada que dá acesso à garagem pela cozinha. Grasiele voltou ao andar de cima e, olhando para baixo, viu dois homens me revistando. O terceiro tentava abrir a porta da sala mas não conseguia. É bem protegida. Teriam tentado entrar pela garagem mas a porta blindada, igual a que tenho no andar de cima e que dá acesso ao pátio, barrou a intenção deles. Chegaram a gritar ameaçadoramente, mas Marlene e sua filha não se intimidaram, não obstante estarem apavoradas.Ambas buscavam ganhar tempo para que a polícia chegasse. Os vigias não apareceram. De repente ouviram uma sirene e enquanto uns policiais entravam pelo portão principal da rua privativa, outros dois cruzavam a praça interna que fica mesmo ao lado da minha casa. Ali há um acesso lateral.Grasiele percebeu que os meliantes, tentando a fuga, começaram a dar tiros para todo lado. Nesse instante ela me viu caindo e imaginou que eu tivesse sido atingido por alguma das balas cruzadas entre policiais e ladrões. Segundo Grasiele, Marlene, sua mãe, chegou a gritar o meu nome. Naquele exato momento, entretanto, a amiga Grasiele…  acordou de seu longo pesadelo! Disse que sua pulsação estava acelerada e ela muito nervosa como se tivesse acabado de sair de uma cena real, mesmo.Desculpem, mas este sonho terrível me foi narrado com tanta riqueza de detalhes pela filha da boa amiga Marlene que não resisti à tentação de o compartilhar com vocês. Aliás, Grasiele costuma ter sonhos que são verdadeiras novelas, pela grande seqüência de imagens. Geralmente ela os recorda direitinho e nos conta depois. No que me concerne, achei ótimo que Grasiele tivesse despertado naquele instante tão dramático, especialmente para mim, logo eu que já fui assaltado, de verdade, dentro do meu carro, há alguns anos, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Fiquei uns 15 minutos com o cano de um revólver encostado em minha cabeça naquela oportunidade. Não desejo isto a ninguém, a sensação de impotência é terrível, nos humilha e degrada.Desta feita, ainda que sendo eu personagem de um sonho de Grasiele, me veio à cabeça a cena real anterior e, sendo assim, como um “gato escaldado”, senti, ao término de sua narrativa, um grande alívio, pois, afinal… foi por muito pouco mesmo!!