RECORDAR SEM BIOGRAFAR

    Em minha infância e juventude eu vivi com meus pais e irmãos na casa de meus avós maternos, em Belém, no bairro do Marco. Aliás, aquilo era um casarão gigantesco como nunca mais vi outro igual. Ainda tínhamos 3 imensos quintais cheios de árvores frutíferas variadas, além de um chiqueiro, um galinheiro, horta, garagem para dois carros, etc e tudo o mais. Estudei no melhor Colégio da cidade, o Nazaré, de Irmãos Maristas. Um mérito eu tive: jamais perdi um ano. Nossa família desfrutava de uma destacada posição social. Por outro lado, nunca fui de me impressionar com isso, tanto que aos 17 anos já procurei trabalhar e acabei sendo radialista por concurso público, inicialmente contra a vontade de meus pais e avós. O sonho maior de meu avô eu não pude ajudar a concretizá-lo. Ele pretendia me ver também químico industrial e sucessor dele. Tentei, mas fracassei. Eu me voltava mesmo era para as letras, a escrita, o que, aliás, herdei de meu pai, também português. Com a morte de meu avô foram sepultados seus sonhos da continuidade daquela indústria que ele fundara havia muitos anos. Uma perda lamentável. Também decepcionei meu pai ao não atender a um de seus anseios. Ele tocava violino, meu avô paterno, também. Eu seria o próximo na relação dos violinistas da família, claro. Sim, claro, mas não evidente. Até tentei, juro, pois estudei e logrei alcançar o sexto ano, mas só Deus sabe como. Fazer as lições ficava cada vez mais complicado.Um dia reuni tudo que de coragem consegui e declarei: “Não quero mais estudar violino, vou parar.” Parei mesmo, acreditam? Meu pai mergulhou na tristeza. Ele não merecia aquilo, mas eu não conseguia mesmo. Ultrapassar o quinto ano já fora um autêntico milagre. Mas, melhor assim do que vir a ser um violinista sem futuro.A verdade é que meu desejo era ser pianista, porém, naquele tempo, piano era mais … “coisa de mulher”. Minha mãe tocava piano, uma de minhas irmãs, também. Eu, no começo meio escondido e depois mais declaradamente, vivia correndo para um encontro com as teclas do nosso Schwartzman. Tive que me contentar em ser um pianista … “de ouvido”. Sempre que podia eu me exercitava.Aprendi sozinho a tocar também gaita de boca. Junto com outros amigos cheguei a me exibir com este instrumento em algumas apresentações no nosso bairro. No período em que trabalhei em rádio, certa vez fui o “entrevistado da semana”. Isto, no auditório e ao vivo. Eu era, além de locutor, produtor de programa humorístico, escritor de crônicas diárias e tive uma rápida experiência como rádio ator.Naquela noite de gala, no auditório da Rádio Marajoara, quem me entrevistava era meu bom amigo, ex colega do Nazaré, ator dos melhores, locutor, professor e depois Diretor e proprietário do Colégio Moderno, em Belém,  o Clodomir Colino, falecido tão prematuramente. Ele fez as perguntas de praxe e mais ao final explorou o meu “lado musical”. Clodomir era também um exímio pianista, e um gozador emérito.Aproveitando os cinco anos de curso de violino, fiz umas gracinhas em público, inclusive o ir retirando uma corda por vez até tocar uma música com apenas uma corda no instrumento. O público vibrou, claro. Se eu fosse tocar com todas as cordas não teria o mesmo sucesso, com certeza… Toquei também um pouco de gaita de boca e, finalizando, Clodomir sugeriu que eu sentasse com ele ao piano. Era uma imensa responsabilidade, mas topei. Tocamos a quatro mãos: eu basicamente solava e o amigo fazia o acompanhamento. Lembro-me que até andamos solando, também a quatro mãos! Acreditem. E fomos aplaudidos… Na relação de decepções que causei, um dia deixei minha madrinha Carmita, minha segunda mãe, muito decepcionada comigo. Sempre fui um bom aluno, não brilhante, mas jamais decepcionante. De repente alguém lhe telefona e “me entrega”. Ela tomou um ônibus e foi até o Largo de Nazaré, a poucos metros do Colégio, para conferir.Nunca me esquecerei do olhar dela, mais de desapontamento do que de repreensão. Fiquei pálido, apanhado no maior flagrante: eu estava gazeteando aula… Juro para vocês, e ela sabia ser verdade: aquela era a primeira e foi a única vez que “matei” o Colégio. O castigo maior foi enfrentar o olhar de meu pai que falava mais do que qualquer surra, método que ele sempre abominou.Na relação de decepções consta que, certa vez, nos meus 14 anos, eu estava experimentando um dos vícios que não seguiu comigo a vida inteira, graças a Deus. Escondido no galinheiro, localizado entre o segundo e o terceiro quintal, tentava dar umas tragadas num cigarro comum, muito sem jeito e sem sentir nenhum prazer. De longe, com seu olhar de lince, minha avó materna me observava escondida. Quando voltei para dentro de casa ela me cercou na subida para a copa e ordenou: “Abre essa boca, Titó…” É verdade, Titó era meu apelido na infância, mas isto é outra história. Bem, boca aberta, e minha avó Isaura enfiou lá dentro suas narinas. Eu estava perdido e mal fumado. A notícia correu logo pelas bocas e ouvidos da família. À noite fui convocado para uma conversa com meu pai. Sem comentários. Bem, acredito que todas essas pequenas decepções foram mais tarde superadas e compensadas com minha atuação no rádio paraense, especialmente no que se refere às minhas crônicas diárias e produção de programas. Meus pais, de preocupados, acabaram por me aplaudir e incentivar. Comecei no rádio em 1953.Em 1957 acredito ter-lhes dado outra compensação quando consegui aprovação, em quarto lugar, num concurso público para o Banco do Brasil. Este, por sinal, era um dos desejos do meu pai e de tantos outros pelo Brasil afora: ver seu filho pertencendo aos quadros do BB. Acabei, depois, tendo que sacrificar o rádio quando a incompatibilidade de horários foi se agravando. Sinto falta do “ser radialista”, mas creio que nos tempos de hoje não me sentiria tão à vontade no rádio como antes.

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