RETRATO EM BRANCO E PRETO

    No final dos anos 60, a “turma” da minha rua resolveu passar o carnaval num sítio. As condições impostas pelos pais foram de que as despesas fossem “rachadas” e que houvesse, obrigatoriamente, a participação de todos na cozinha e na limpeza. Houve uma cláusula especial: o quarto das meninas deveria ficar a “quilômetros” dos rapazes. A maioria dos integrantes da “patota” já estava alojada no sítio, quando um dos nossos chegou com a nova namorada, Ângela, uma morena de cabelos escorridos, lábios vermelhos e sorriso de garota de comercial de creme dental.  Me apaixonei por ela, de imediato. Quando a vi de maiô, a minha paixão se transformou em fascinação. A visão do seu corpo perfeito nas suas saídas da piscina com o maiô branco transparente, por estar molhado, era um espetáculo indescritível, porque deixava transparecer as formas por onde o meu pensamento viajava. Numa tarde fui até a sede do sítio e vi que a porta do quarto das meninas estava aberta. Entrei e encontrei, em cima de uma mesa de cabeceira, um retrato em branco e preto de Ângela, de maiô, em Paquetá, conforme a anotação que havia no verso. Semanas depois, num sábado, houve um “arrasta-pé” na casa de um dos nossos e tanto Ângela quanto o namorado compareceram, mas estavam brigados. Naquele dia, eu e os demais rapazes da turma fomos à forra do tempo em que não pudemos dançar com ela devido ao comprometimento com um dos nossos amigos. O calor do seu corpo junto ao meu  e o perfume do seu cabelo inebriando o meu nariz me deram a sensação de que, como diria Chico Buarque, “a felicidade morava tão vizinha, que de tolo até pensei que fosse minha”. Decorrido mais um tempo, eu já curado da “paixonite”, e, um dia, minha mãe, arrumando a gaveta do meu armário, achou o retrato.  A pergunta veio à queima-roupa: “como você arranjou esta foto?”. Respondi mentindo: “foi ela quem me deu”. A resposta convenceu. Ângela casou com aquele mesmo namorado, tiveram filhos, se separaram e esporadicamente sabia deles. Os anos foram passando… Outro dia andava sozinho pelo centro de Friburgo quando passou alguém por mim e me chamou: “Oi, Mário!”. Dei meia volta e encarei a pessoa. Como a passagem do tempo é inexorável não a reconheci prontamente. Mas, logo lembrei que só uma pessoa na “terrrinha” não me trata de Marinho. Ela confirmou minha suspeita: “Sou a Ângela…”. Conversamos um pouco e nos despedimos. Quando dei o primeiro passo, ouvi a pergunta para a qual, como não tinha resposta, fingi não ter ouvido e segui em frente: “Você ainda guarda o meu retrato?”