SONHO DESEJADO

        Numa roda de conversa, um dos participantes, em tom triunfal, anunciou que teria realizado o sonho da maioria das pessoas: cantado num palco e jogado futebol, ambos profissionalmente. Pelo que sei, não teve sucesso em nenhum dos dois empreendimentos, mas, pelo que dizia, realmente, exerceu as duas atividades.    Apesar de não me incluir na maioria que possui esses desejos porque nunca pensei em ser cantor fora do chuveiro e jogar futebol, não foi uma das minhas prioridades, reconheço que o sucesso dessas duas profissões é o sonho de consumo de uma parcela significativa da população brasileira.   Contudo, existe uma diferença grande entre o sonho sonhado e o sonho desejado.   Sobre o primeiro, sou daqueles que, no outro dia, nunca se lembra o e se passou pela mente enquanto dormia. Só sei que tenho três pesadelos recorrentes: um deles que, estando em Friburgo e tendo que voltar para o Rio, não tinha onde morar, o que durante algum tempo foi mais ou menos verdade. O segundo foi que, inevitavelmente, iria chegar atrasado para trabalhar e não tinha o que dizer para o chefe repressor, o que ocorreu várias vezes. E o último, foi que estava acabando a faculdade e havia algumas disciplinas "penduradas", o que nunca aconteceu.    Quero me ater, então, sobre o sonho desejado. Aqueles cujos pensamentos povoam o nosso cérebro entre o intervalo em que colocamos a cabeça no travesseiro, até que, efetivamente, peguemos no sono. Nesses momentos, durante muito tempo, exerci, plenamente, vários dos meus desejos. Não me lembro de todos, até porque eram periódicos, iam e voltavam. Contudo, houve alguns que mantive acesos por bom tempo e que, com freqüência, voltavam ao topo da minha imaginação.     A seguir, meus "campeões de audiência":  *  É claro que fui prefeito de Friburgo, com 99% de aprovação! Mandava edesmandava. Prendia e soltava! *  Fui repórter internacional free-lance. Tinha uma equipe que trabalhava comigo. Vendíamos matérias para TV, jornais e revistas. Cobrimos qualquer evento, desde Olimpíadas até guerras. Tinha as portas abertas desde o Vaticano até a Casa Branca. Nunca vinha ao Brasil, mas minhas matérias eram apresentadas aqui.  *  Não fui um agente de Sua Majestade, como James Bond. Como não sei se o Brasil possui espiões, acho que fui apátrida. Solteirão inveterado, fiz muito sucesso com as mulheres, principalmente com as casadas. Fui a muitas festas espetaculares, me hospedava em hotéis cinco estrelas, dirigi carrões e pilotei jatos. Todavia, não me lembro de sequer ter dado um soco em ninguém.  *  O sonho mais duradouro foi o de ser xerife de uma daquelas cidades do faroeste norte-americano. Vindo de longe, possuía um rancho nos arredores da cidade, usava sempre charrete e era o noivo eterno da linda filha de um comerciante.   Com mãos de ferro e junto aos meus dois ajudantes, mantinha inalterável a ordem do condado, raramente tendo que recorrer ao meu inseparável revólver de cabo de madrepérola.    Não sei se por ter vivido mais de dois terços da minha expectativa de vida, ou pela proximidade do direito da aposentadoria, não tenho mais sonhado com os meus desejos. Atualmente, antes de dormir, penso, lá uma vez ou outra, no que aconteceu no dia e o que me espera no outro. Entretanto, na maioria das vezes, fecho os olhos, e sem tempo e/ou vontade para "vestir" os meus personagens, rapidamente, durmo.