Denise Silva

Uma trajetória que cresce junto com o BC

Há quase 26 anos, ela constrói sua história no Banco Central do Brasil. Dando início à série “Elas constroem o BC”, em homenagem ao Mês da Mulher, trazemos a trajetória da filiada Denise Silva.

Entre mudanças de cidade, novos desafios, estudos, projetos e diferentes áreas de atuação, a jornada da Auditora se mostra plural: aprender sempre, se reinventar e acompanhar as transformações da Instituição.

Neste bate-papo, Denise fala de fatos marcantes, desafios enfrentados e de mulheres que a inspiram. Confira os principais trechos a seguir.

Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória até a chegada ao BC?

Me formei em 1995 em Engenharia Química, na UFRJ, mas estava extremamente difícil encontrar emprego na área, devido à quebradeira das empresas da indústria química no RJ, durante o Governo Collor.

Logo eu soube que algumas pessoas recém-formadas na Escola de Engenharia tinham conseguido bons empregos na Administração Pública, via concursos. Era uma solução “definitiva” (com estabilidade), com vários direitos assegurados e bem remunerada.

Comecei a estudar para concursos sem nenhuma dica, sem conhecer ninguém que pudesse me ensinar o caminho das pedras. Com isso, acabei fazendo vários cursos e comprando material de má qualidade. Comecei a estudar em 1996. Em 1998, comecei a ganhar bolsas de estudo nos cursinhos.

Em 1999, Fernando Henrique Cardoso suspendeu todos os concursos federais por tempo indeterminado. Não desisti. Passei a dar algumas aulas particulares de química, física e matemática. Enquanto isso, continuei estudando. Nessa época, fiz vários simulados, inclusive com as bolsas que consegui.

Em 2000, os concursos públicos foram reabertos. Nesse mesmo ano, em abril, surgiu o concurso para o BC. Eu decidi focar nele; fiz todas as matérias e simulados especificamente para o BC, e passei. Trabalho no Banco desde julho de 2000.

O que mais te motivou a seguir carreira na Instituição?

O que mais me motivou a seguir foi que o Banco Central tinha fama de ser uma instituição honesta, sem corrupção, e a possibilidade de trabalhar no Rio de Janeiro e ficar junto de meus pais e irmã.

Que fatos de sua vivência no BC ficaram na memória? O que você sente quando olha para a sua jornada até aqui?

Eu comecei na área meio, com 27 anos, no então recém-criado, mas hoje extinto, Departamento de Combate a Ilícitos Cambiais e Financeiros (DECIF).

Fiquei em São Paulo até março de 2003. Conheci muita gente por lá. Praticamente todo mundo do próprio Banco. Saíamos muito juntos. Foi muita gente que entrou comigo e fizemos amizade até com os veteranos, que nos acolheram super bem. Até me surpreendi pela quantidade de pessoas que eu conheci por lá, porque quando eu voltei para o Rio, para me despedir de todos, eu tive que passar em quase todos os andares do prédio do BC em São Paulo.

Voltei para o Rio em uma concorrência para o cargo de coordenadora no Gabinete da Diretoria. Foi no início do primeiro governo do Presidente Lula e da gestão do Henrique Meirelles. Eu não fui selecionada para coordenadora. Além de não ter nenhuma experiência administrativa na época, eu disse na entrevista que tinha a intenção de fazer um mestrado em administração, assim que possível. Fiquei na Diretoria durante dois anos, como assessora júnior e substituta eventual da coordenadora. Eu gostei muito desse tempo! Era bom ver os bastidores; as atividades eram diversificadas; não havia rotina.

Eu saí do gabinete para fazer o mestrado em administração, na área de negócios internacionais, no Instituto COPPEAD/UFRJ, pelo Programa de Pós-graduação Stricto Sensu do Banco (PPG). Foi uma experiência maravilhosa. Aprendi muito. Realizei um sonho. E ainda pude voltar à França, onde havia vivido durante parte da  infância e da adolescência, tendo ficado quatro meses em Paris para fazer o intercâmbio do mestrado.

Quando voltei, fui alocada no Departamento de Organização do Sistema Financeiro (Deorf), por um ano apenas. Logo saí, para fazer o doutorado, no mesmo instituto, mas desta vez na área em que eu havia mais me destacado no mestrado: Estratégia e Mudança Organizacional. Foi uma experiência incrível. Um período de muito crescimento. Retornando ao Banco, fui para a ADRJA, no setor de Gestão de pessoas, que era bem dinâmico.

Tinha uma parte de Treinamento, com organização de salas e auditórios; havia participação na organização de eventos, já que a Secre havia sido extinta no Rio; fui mestre de cerimônia em homenagens por tempo de casa; havia projetos sociais, como o “De Volta à Escola”, para mensageiros, no qual alguns servidores eram facilitadores voluntários; houve a necessidade de organização das operações de uma junta médica; além das atividades de atendimento ao público e das atividades mais burocráticas de gestão de pessoas (ex.: elaboração de processos).

Durante um bom tempo, ainda nesse setor, eu pude atuar como membro da Rede de Educação Financeira, indo dar palestras de Gestão de Finanças Pessoais, pelo Banco, em faculdades e empresas solicitantes. Esta é outra atividade de que gosto muito. Vez ou outra, quando o Depef solicita, eu ainda participo.

Desde o segundo semestre de 2025, eu estou trabalhando, ainda na ADRJA, na Coordenação de Manutenção Predial. Estou gostando! Aqui também não há rotina: cada dia há algo diferente a se fazer: organização de mobiliário, com deslocamento para várias dependências do BC; criação de uma cantina no prédio; manutenção de elevadores; elaboração de processos, etc. Agora, também estou participando do Projeto Start, relacionado à implantação da inteligência artificial para tarefas mais específicas do BC. É algo meio futurista. Legal terem me envolvido nisso, eu já tendo quase 26 anos de Banco. Assim, a gente não se sente ficando para trás.

Quando eu olho minha trajetória, fico bastante satisfeita. O Banco Central é um lugar de muito crescimento para mim. Quando eu entrei, inclusive era bem tímida. Hoje, sou bem mais desembaraçada. Me tornei outra pessoa. Fiz muitos cursos desde que entrei no BC, de áreas variadas. Desde 2003, nunca deixei de estar participando de alguma atividade de aprendizagem formal. Fiz cursos com patrocínio do Banco, gratuitos e cursos de curta e longa duração, custeados por mim mesma (em comunicação e de idiomas). Procuro usar o que aprendo em minhas atividades do Banco, sempre que possível.

O futuro está aí. O Banco vai avançando, e eu vou avançando com ele…

Quais foram as dificuldades enfrentadas? Você acha que o fato de ser mulher trouxe desafios adicionais?

O que eu vejo em relação ao fato de ser mulher é que me parece ainda haver poucas mulheres em cargos de chefia no Banco. Quando há muitos homens reunidos, vez ou outra, surge algum comentário machista, piadas, o que às vezes pode tornar o ambiente meio cansativo. Me parece também que, ainda hoje, certos serviços são mais atribuídos a mulheres.

O que você gostaria que as próximas gerações de mulheres, e mesmo as que hoje fazem parte, encontrassem na Instituição?

Eu gostaria que as piadas machistas fossem menos banalizadas. Alguns homens são conscientes, outros não. Mas é difícil controlar isso. Vivemos numa sociedade em que o número de feminicídios cresce a cada dia.

Quem são as mulheres que te inspiram?

Eu admiro mulheres batalhadoras, que se dedicam a fazer o melhor que podem em todas as áreas, de qualquer lugar do mundo: Fernanda Montenegro; Michelle Obama; minha orientadora do doutorado – Denise Fleck; e esses milhões de mães do povo que se esforçam para criar, alimentar e educar seus filhos, sem apoio de ninguém, contando muitas vezes apenas com sua capacidade de trabalho.