Lígia Benevides
Uma história marcada pelo pioneirismo
Lígia Benevides acompanhou como poucos as transformações importantes na história do Banco Central e da economia do país. Nesta entrevista, a filiada compartilha memórias, desafios e reflexões de sua trajetória.
Leia a seguir os principais trechos.
Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória até a chegada ao BC?
Nasci no Rio de Janeiro, para onde meus pais, mineiros, se mudaram em 1946, quando se casaram. Em janeiro de 1961 – eu com nove anos -, mudamo-nos para Brasília, com a transferência de ambos para a nova capital.
Em Brasília, no Colégio Maria Auxiliadora, fiz a quarta e a quinta séries do Curso Primário e as quatro do Curso Ginasial, após o que, aprovada em um certame concorrencial, ingressei no Curso Científico do CIEM (Centro Integrado de Ensino Médio), uma experiência pedagógica revolucionária posta em prática pela UnB, em que muitos de seus destacados estudantes eram professores. “Liberdade com responsabilidade” era o lema maior do CIEM. Absorvi-o bem: olhando para trás, percebo que já soava aos meus ouvidos bem antes de eu ser a ele “apresentada oficialmente”.
Depois do CIEM, veio a UnB: três anos de Matemática e, por aprovação em novo vestibular, mais quatro e meio no recém-criado curso de Estatística, em que me formei na primeira turma.
O que mais te motivou a seguir carreira na Instituição?
O Banco Central “aconteceu” na minha vida. Não houve nenhum planejamento, nenhum desejo específico de ingressar na Instituição, até porque, aos 21 anos e em razão de um protagonismo bem mais modesto do órgão – até pela incipiência do mercado à época -, eu não alcançava claramente os seus desígnios.
Estávamos vivenciando o pleno emprego, em que ofertas de trabalho e concursos surgiam aos montes, e foi por intermédio de um vizinho que trabalhava no BC que fiquei sabendo tratar-se de um ótimo emprego. Fiz o concurso de 1972/73 (o segundo do Banco) e, aprovada em 32º lugar na classificação geral e 8º na de Brasília, fui uma das primeiras a aqui assumir (09.07.1973), na Divisão de Processos da Gerência de Mercado de Capitais – GEMEC. Muito bons tempos!
Que fatos de sua vivência no BC ficaram na memória? O que você sente quando olha para a sua jornada até aqui?
Como também houvera sido anos antes, quando trabalhei na Consultoria Jurídica da COBAL (Cia. Brasileira de Abastecimento) por curtos quatro meses, a acolhida no Banco foi ótima: muito bem recebida pelos colegas que lá já estavam, alguns oriundos da extinta SUMOC, outros do Banco do Brasil e os demais do primeiro concurso do órgão, todos recém-transferidos do Rio.
Outros aprovados foram, em levas, como igualmente feito com as demais unidades do Banco, designados para as divisões da GEMEC, e a energia de jovens e empolgados principiantes associada à experiência da geração anterior teve como resultado a formação de um apreciável contingente funcional, do qual emergiram vários expoentes que, mais tarde, também ocupariam posições de destaque no Banco Central.
Segui a carreira tradicional completa no Banco: ocupei os cargos de Auxiliar Técnico, Assistente Técnico, Coordenador, Chefe de Divisão, Chefe Adjunto de Departamento e Chefe de Departamento – então o Departamento de Normas do Sistema Financeiro (DENOR), substituindo o então chefe Sérgio Darcy da Silva Alves, indicado para o cargo de Diretor da DIMEC, pessoa que acompanhei durante todos os meus anos de Banco Central e de que guardo grata lembrança e grande admiração. Antecedendo o Sérgio na chefia do DENOR, tivemos o Gustavo Loyola, oriundo da Área Externa, posteriormente alçado à Diretoria e, mais adiante, à Presidência do Banco.
Quais foram as dificuldades enfrentadas? Você acha que o fato de ser mulher trouxe desafios adicionais?
Mais do que dificuldades, experimentamos os enormes desafios consequentes à edição dos sucessivos planos econômicos por que o País passou: Plano Cruzado (1986), Plano Bresser (1987), Plano Verão (1989), Planos Collor I e II (1990-1991) e, por fim, Plano Real (1994). A equipe técnica, nela incluída a Chefia do DENOR, não tinha a menor ideia do que se tratava: tomava conhecimento do teor do Plano por intermédio do Jornal Nacional, por volta das 20h, assistido na avantajada TV de tubo que havia no Gabinete. Mal acabava a transmissão do Jornal – surpresa algumas vezes, perplexidade em outras, nada ainda assimilado e muito menos “digerido” –, iniciava-se uma avalanche de ligações telefônicas provenientes do mercado em busca de informações: pânico total!
Presidente do Banco, Diretor da DINOR, Chefe do DENOR, staff das Divisões e, também, secretárias dos Gabinetes viravam a primeira noite no Banco trabalhando incessantemente na elaboração de normas, antecipando-se à invariável presença das grandes associações de mercado logo na manhã seguinte para discutir a operacionalização, por parte das instituições, das mudanças necessárias à implementação do Plano.
Muitas viradas de noite sucederam-se em cada um desses planos. Muita criatividade, muito bate-cabeça, muita elucubração, muito aprendizado: uma experiência que, ainda que tensa e desgastante, poucos tiveram a gratificante e para sempre lembrada oportunidade de vivenciar.
O fato de ser mulher nunca foi por mim percebido ou sentido como um ponto a menos ou objeto de qualquer discriminação. Pelo contrário, sempre tive meu trabalho reconhecido pelos meus colegas, meus superiores e pessoas de fora do Banco com as quais tive contato mais próximo ao participar de grupos de trabalho multidisciplinares contando com a participação de reguladores – BC, CVM, Receita Federal – e regulados, por meio de suas representações – Febraban, ABBC, Anbid, Andima, Adeval, Ancor, Bolsas de Valores, Bolsa de Mercadorias e Futuros, CETIP etc.
O que você gostaria que as próximas gerações de mulheres, e mesmo as que hoje fazem parte, encontrassem na Instituição?
Assim como eu e outras mulheres que foram destaque na Instituição, um ambiente em que a diferença seja ditada exclusivamente pela competência e pela dedicação emprestada ao trabalho, e em que se observe o pleno exercício da liberdade de exposição de ideias. Vejo no Banco Central uma instituição de excelência também nesse campo das relações funcionais, em que essas condições já se encontram consolidadas.
Gostaria de deixar algum recado para as colegas que hoje estão no órgão?
Continuem dando o seu melhor na execução de seu trabalho, contribuindo para que o Banco Central continue sendo um dos institutos de governo mais apreciados do país.
Quem são as mulheres que te inspiram?
Em primeiro lugar, Zuleika Rocha, minha mãe, exemplo de correção e competência que, já em 1942, prestou concurso público para o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários – IAPI (sucedido pelo INPS e atual INSS), na época o maior fundo previdenciário do país, onde tornou-se executiva de carreira apreciável por quase cinquenta anos.
Em segundo lugar, as artistas brasileiras do Modernismo Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, bem como as minhas xarás Lygia Clark e Lygia Pape, do Neoconcretismo, expoentes de vanguarda e de atitude que ousaram revolucionar os padrões artísticos de suas épocas, concebendo obras-primas mundialmente reconhecidas.
Por último, Margareth Thatcher – a “Dama de Ferro” -, Primeira-Ministra do Reino Unido por mais de uma década, por seu pulso forte na condução da economia e das questões diplomáticas britânicas e por seu reconhecimento como uma das maiores influências políticas do século passado.
