Análise: Ata mostra que BC mantém ênfase em reformas, mas se rende à queda da inflação

    Por Fabio Graner e Eduardo Campos | De Brasília

    Apesar de manter a ênfase no discurso sobre a necessidade de reformas estruturais para levar a taxa básica para níveis mais baixos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC está tendo de se render à realidade da brutal queda da inflação e vai continuar derrubando os Juros. Tratado como principal risco na ata da última reunião do Copom – quando a taxa básica foi cortada de 10,25% para 9,25% -, divulgada ontem, a situação política do processo de reformas pouco mudou e mesmo assim a marcha de 1 ponto de corte na Seliccontinua e deve seguir assim por pelo menos mais um encontro de política monetária.

    Na parte dedicada a avaliar os próximos passos da política monetária, o colegiado presidido por Ilan Goldfajndiz que debateu a conveniência de sinalizar flexibilização adicional da mesma magnitude da adotada na última reunião versus uma flexibilização mais moderada. A conclusão foi por sinalizar uma possível flexibilização de mesma magnitude, mas ressaltar que um novo corte de 1 ponto dependerá da permanência das condições do cenário básico e de estimativas da extensão do ciclo.

    Reforma trabalhista, como se antecipava largamente, foi aprovada, porém, a mais relevante, a da Previdência, ainda é uma enorme incógnita. Em tese, os riscos de não aprovação dessa medida com alto impacto fiscal de longo prazo aumentaram fortemente desde 17 de maio, quando estourou a gravação contra o presidente Michel Temer em conversa com o empresário Joesley Batista, da JBS. E mesmo assim, o Copom não teve como sustentar o discurso de que precisaria desacelerar seu ritmo de corte da Selic. Prevaleceu o mandato de atuar de acordo com o comportamento das projeções e expectativas de inflação, que estão na meta ou abaixo dela, recomendando continuidade dos cortes da Selic em ritmo condizente com o grau de ociosidade da economia.

    O BC tem uma missão e um instrumento, e o Copom não é analista político ou promotor de reformas. Por ora, a crise política não teve, na avaliação do colegiado, impacto inflacionário ou deflacionário. E os choques positivos de oferta, advindos de alimentos e preços industriais, parecem já extravasar para as expectativas e outros setores da economia, gerando os chamados efeitos secundários, que exigem resposta da política monetária.

    De qualquer forma, o BC repete os alertas sobre a importância das reformas em vários trechos da ata, destacando sua importância para a redução da teórica taxa “neutra” de Juros, para a qual a instituição não explicita qual seria sua estimativa em nenhum dos seus documentos e discursos oficiais.

    Possivelmente, o colegiado que define o preço mais importante da economia está hoje mais preocupado em evitar que a queda de Juros em curso seja rapidamente revertida no futuro próximo (leia-se 2018), como ocorreu em 2013 depois de a Selic atingir seu piso histórico de 7,25%, em 2012. O contexto naquele momento, contudo, era bem diferente, com o país vivendo uma situação de pleno emprego e forte pressão no setor de serviços. Hoje, o desemprego é alto e assim deve permanecer por um bom tempo, dado o cenário de recuperação gradual da economia.

    Assim, mesmo sem reformas, a inflação ainda poderá seguir comportada e sustentar o juro baixo por mais tempo. O risco seria uma forte reviravolta de expectativas de longo prazo com relação à consolidação fiscal, com impacto sobre a taxa de Câmbio e os Juros exigidos pelo mercado para financiar um Déficit primário persistentemente acima dos 2% do PIB.

    O Copom também enfatiza que a extensão do ciclo dependerá de fatores conjunturais, como evolução da atividade econômica, dos fatores de risco e das projeções e expectativas de inflação para 2018 e 2019, além das estimativas para o juro estrutural. O ritmo de flexibilização também depende do estágio do ciclo, ou seja, do que já foi feito pelo Copom em relação à sua estimativa de duração do processo.

    Fonte: VALOR ECONÔMICO

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