BCs ensaiam mudanças

    Além da preocupação com desemprego, Fed pode seguir seus pares na Europa e dar mais atenção a crescimento

    Léa De Luca

    O Fed, banco central dos Estados Unidos, deveria seguir seus pares – o BC da Inglaterra e o BCE, da Zona do Euro – e abandonar um pouco a obsessão com o desemprego para guiar suas próximas decisões. Esta é a opinião do economista do Standard Bank, Steven Barrow, segundo relatório enviado ontem a clientes. 

    Fischer, do Fed: “Quando as economias voltarem a crescer, precisaremos começar a nos preocupar com inflação. Mas nós ainda não estamos lá. Desemprego ainda é o foco” Barrow defende que o Fed troque o foco no emprego pelo foco no “output gap” – a diferença entre o crescimento presente da economia e a seu crescimento potencial. “Esta é uma medida diferente e menos transparente do potencial de pressão da inflação, com vantagens e desvantagens sobre o foco no desemprego”, diz. 

    “Estariam os BCs da Inglaterra e Europa indicando como o Fed passará a pautar suas próximas decisões?”, pergunta Barrow, lembrando que ambos passaram a considerar o “output gap” em seus últimos pronunciamentos. Para o BC da Inglaterra, essa diferença está em 1,5%; no caso da Europa, em 2,5% – o que indica que a alta dos juros deve vir primeiro da Inglaterra do que na Zona do Euro. Barrow diz que o “output gap” seria um bom substituto para ajudar o Fed a indicar que a alta dos juros ainda leva tempo. 

    O economista do Standard Bank admite que o Fed costuma ser refratário a políticas que usam o “output gap” – mas defende a opção. “Seria positivo se os três BCs adotassem uma medida igual para pautar suas políticas monetárias”, diz o relatório. Para ele, se o Fed seguisse os passos dos seus pares seria um bom sinal – de que a alta dos juros ainda demoraria mais tempo do que o inicialmente suposto, permitindo uma transição mais suave. “Mas o Fed não faria isso apenas em nome de uma ação coordenada com os outros BCs”. 

    Ontem mesmo Stanley Fischer, novo vice-presidente do Fed, ao ser sabatinado no Congresso americano, reafirmou que o desemprego ainda preocupa. “O estágio atual em que estamos é aproximadamente apropriado, embora ainda persistam dúvidas sobre a velocidade do tapering”, disse Fischer. Enquanto o Fed conserva um olho na estabilidade financeira, “manter incentivos ao crescimento é recomendável neste momento”. Ao mesmo, Fischer avisa que na medida em que as economias desenvolvidas voltem a crescer, os banqueiros centrais precisam começar a conversar sobre as influências cruzadas entre inflação e emprego”. Mas advertiu: “Nós ainda não estamos lá. Precisamos manter o foco no desemprego”. 

    “A grande pergunta, agora que a taxa de desemprego nos EUA está próxima de 6,5% – o gatilho virtual para o aumento dos juros – e a economia do país cresce aquém do esperado é: o que o Fed vai fazer depois do tapering?”, diz Paulo Gala, estrategista-chefe do Banco Fator. 

    “Tapering” é o nome em inglês para a operação, deflagrada em janeiro, de desmonte do programa de estímulos dos EUA à economia, que injetou aproximadamente US$ 4 trilhões desde o começo, em 2008. “Otapering é página virada, já está em piloto automático, a não ser que venham dados muito extremados nada deve mudar”. O Fed cortou, nas suas das últimas reuniões, as compras de bônus e hipotecas a US$ 65 bilhões mensais – até dezembro, estavam em US$ 85 bilhões. O Fed vem indicando que os cortes nas compras se manterão em US$ 10 bilhões a cada reunião. 

    “Ainda restam umas cinco reuniões até o desmonte total do programa de estímulos. O Fed ainda tem tempo”, lembra Gala, do Fator. O estrategista acredita que Janet Yellen, presidente do Fed, e seu vice Fischer vão retirar a meta explícita do desemprego, e continuarão perseguindo inflação acima de 2%. “O mais importante é a discussão da taxa de juros, que é extremamente delicada. Na minha opinião, a alta dos juros não está nem tão perto nem tão longe – talvez no final de 2015”, diz. “A recuperação da americana ainda está muito fraca e modesta. Não vejo vigor; apesar do mercado de trabalho estar melhor, os pedidos de hipotecas e construção ainda estão baixos”, lembra. 

    Fischer, 70, tem dupla cidadania – israelense e americana – e mora em Nova York. Formado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), foi economista-chefe do Banco Mundial e também executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI).

     

    Fonte: Brasil Econômico

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