Dados indicam crescimento fraco, mas não uma recessão

    A leve expansão de 0,12% da economia brasileira em abril, de acordo o Índice de Atividade Econômica do Banco CENTRAL (IBC-Br), reforça a percepção de que o país está em uma trajetória de desaceleração, cuja intensidade ainda não é possível aquilatar. Em certa medida, esse arrefecimento da atividade não pode ser visto com surpresa, em virtude da elevação da taxa básica de juros (Selic) pelo BC em 3,75 pontos percentuais desde abril do ano passado. Some-se a isso a deterioração do nível de confiança de empresários e consumidores nos últimos meses e a recuperação ainda cambaleante da economia internacional.

    A existência de um processo de desaquecimento da economia foi admitida pelo Comitê de política monetária (Copom), conforme consta da ata de sua última reunião. Os diretores do BC disseram acreditar que o ritmo de expansão da atividade doméstica tende a ser menos intenso neste ano, em comparação com o de 2013. Esta parece ter sido a principal razão para o Copom ter interrompido a elevação da Selic, mesmo porque o Comitê avalia que os efeitos da alta de juros sobre a inflação, em parte, ainda estão por se materializar.

    O primeiro sinal claro do desaquecimento foi captado pelo IBGE, quando apurou um crescimento de apenas 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o último trimestre do ano passado, com uma queda de 0,8% da indústria e redução de 0,1% no consumo das famílias. Esse fraco desempenho levou muitos economistas a acreditar que o Brasil está caminhando para uma recessão ou que já esteja, tecnicamente, nela. Isto porque uma contração igual ou superior a 0,2% do PIB no segundo trimestre provocará um ajuste pelo IBGE nos dados do primeiro trimestre, que passaria a registrar contração e não crescimento de 0,2%.

    Há dados, no entanto, que parecem sustentar outro tipo de avaliação. O mercado de trabalho, por exemplo, continua aquecido e não há sinais de aumento do desemprego no curto prazo. O que se tem, no momento, é anúncio de férias coletivas por parte de algumas montadoras, em virtude da elevação dos estoques. A situação poderá ser amenizada com a assinatura do novo acordo automotivo Brasil-Argentina, que dá mais previsibilidade às montadoras dos dois lados da fronteira e, portanto, poderá aquecer as vendas.

    O rendimento das pessoas ocupadas continua crescendo, o que dá fôlego ao consumo, que tende a aumentar também em decorrência da redução da inflação verificada nos últimos meses. A demanda doméstica está sendo sustentada também pelo aumento do crédito. O Banco CENTRAL estima uma expansão de 13% do crédito neste ano, que é uma taxa mais moderada do que em anos anteriores, mas uma variação acima da inflação prevista para 2013, o que significa um expressivo crescimento real.

    Outro dado alentador está vindo do comércio externo. Embora esteja ocorrendo uma redução no valor exportado, em relação a 2013, por causa de ajustes nos preços internacionais de vários produtos, há um aumento da quantidade vendida pelo Brasil. Se essa tendência se mantiver, o comércio exterior poderá ter um efeito benéfico sobre a produção interna.

    Os indicadores disponíveis ainda não mostram que esteja em curso um processo recessivo no Brasil. Apontam, por enquanto, para um crescimento anêmico nos próximos trimestres, mas ainda no campo positivo. O que joga contra um ritmo mais rápido da atividade econômica é o clima de desconfiança que ainda reina entre os empresários e os consumidores. As pesquisas indicam que estes últimos passaram a ter maior receio com a possibilidade de demissão, o que pode explicar a cautela com a tomada de novas dívidas.

    Duas coisas preocupam no atual cenário brasileiro. A primeira é que a inflação está acima de 6%, em um ambiente de fraca expansão econômica. Há também uma inflação “escondida”, representada por preços represados na área de energia e de combustíveis, que em algum momento do futuro terão que ser corrigidos. Depois, inexistem fatores que possam sustentar uma retomada da economia. Para isso, como já alertaram economistas de diversas tendências, o Brasil não poderá contar com grande ajuda externa. Assim, criar as condições para debelar a inflação e retomar o crescimento será o principal desafio da nova administração.

     

    Fonte: Valor Econômico