Natal sem ter o que comemorar

    Juros devem encerrar o ano em 11%, mais do que no início do governo Dilma. Observado com desconfiança, o Brasil tende a perder grau de investimento

    DIEGO AMORIM

    De ressaca, a equipe econômica do governo chegará ao Natal de 2013 esperando, como nunca, dias melhores. Enquanto os brasileiros se sentarão à mesa para a ceia mais cara dos últimos anos, os responsáveis por conduzir os rumos do país terão muito mais do que a inflação para se preocupar. Apesar da insistente vista grossa das autoridades de gabinete, os indicadores não deixam dúvidas: as trevas do crescimento baixo, da gastança pública sem controle e da descrença com o país abalam a fé de qualquer otimista.

    Para quem cuida da economia brasileira, as luzes do Natal serão ofuscadas pela maior onda de desconfiança desde a crise internacional de 2008. Não há clima para estouro de champanhe. A lista dos indesejados presentes deste ano é extensa: inclui os juros de volta à casa dos dois dígitos — e com mais perspectiva de aumento a partir de janeiro — e a tensão em torno do câmbio a partir da redução dos estímulos nos Estados Unidos, esperada para 2014.

    Se pararem para fazer o balanço do ano, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sentirão o desconforto de não terem alcançado importantes metas, a começar com a da inflação. Em dois meses, a alta acumulada de preços rompeu o limite estipulado pelo governo, de 6,5%. Isso ocorreu em março (6,59%) e, mais ainda, em junho (6,70%), quando os brasileiros ocuparam as ruas para, entre tantas outras coisas, chiarem da carestia.

    O zunido do povo e de boa parte do mercado com a dinâmica econômica do país só aumentou ao longo de 2013 e, às vésperas de ano eleitoral, assombra os planos de reeleição da presidente Dilma Rousseff, líder nas pesquisas de intenção de voto. “Por dever de ofício, ninguém vai manifestar algo parecido, mas a situação não é nada confortável. Eles sabem disso”, comenta o pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV) Regis Bonelli.

    Até março, Dilma celebrava como feito histórico a taxa básica de juros (Selic) no menor patamar da história, 7,5%. A festa oficial, no entanto, não se sustentou e a presidente não tem mais esse troféu para exibir na campanha. Pelo contrário. Com a inflação persistente, o Banco Central (BC) teve de engatar um novo ciclo de alta da Selic, que atingiu os 10% ao ano. Já no mês que vem, os juros poderão subir a 11%, ultrapassando os 10,75% deixados por Luiz Inácio Lula da Silva.

    O temor da inflação deve rondar os pensamentos de Dilma neste Natal. “Ela vai estar de olho na eleição, mas bastante concentrada em como conter novos picos de aumento de preços”, diz a economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour. Reajustes represados e expectativa de nova alta de combustível fazem analistas preverem o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encostado no teto da meta em julho, em pleno auge da campanha.

    As preocupações da presidente esbarram nas de Tombini. A imagem arranhada por não ter conseguido manter a inflação em níveis confortáveis levou o BC a voltar a subir a taxa de juros justamente num momento em que o crescimento econômico do país definhava. O mercado entrará em 2014 ansioso em saber se, passadas as festas de fim de ano, o presidente da autoridade monetária estará disposto a bancar mais doses de alta da Selic.

    Conter eventuais repiques de preços não será a única promessa de ano-novo de Tombini. A contagem regressiva dele tem a ver com as mudanças na política monetária norte-americana. Na semana passada, o presidente do BC disse esperar que a retirada ou não dos estímulos por lá se concretize logo, para que seja possível avaliar os impactos por aqui o quanto antes. Analistas indicam que o dólar, hoje na casa dos R$ 2,30, poderá passar dos R$ 2,50 no ano que vem.

    Leilões de dólares
    Na tentativa de acalmar o humor dos investidores e diminuir as chances de variações muito bruscas no câmbio, as intervenções diárias do BC — com leilões equivalentes à venda de dólares no mercado futuro — deverão ser mantidas em 2014, mais um ano em que o mercado levantará dúvidas sobre os fundamentos da economia brasileira. A decisão está tomada, mas a desvalorização do real ainda tirará o sono de Tombini na virada do ano.

    O que mais estraga o espírito festivo da equipe econômica do governo neste fim de 2013 não está em fatores externos. O ano, aliás, não foi dos piores para a conjuntura mundial. A desconfiança interna — essa, sim —, bastante estimulada por artimanhas fiscais, só piorou. “O ânimo do empresariado está lá embaixo. Há muita incerteza no ar e muito incômodo com o excesso de intervenções”, afirma o economista da consultoria Macroplan Claudio Porto.

    A ser entregue com atraso, ainda no primeiro semestre de 2014, o rebaixamento da nota do Brasil por agências de classificação de risco poderá ser o presente mais amargo deste Natal. Uma recompensa ao baixo crescimento e à deterioração das contas públicas. E um duro golpe em Mantega, que passará o ano-novo com a expectativa de, em março, se tornar o ministro da
    Fazenda mais longevo no cargo, superando os oito anos ocupados por Pedro Malan, entre 1995 e 2002.

    O recorde de Mantega à frente da pasta não bastou para aproximá-lo do mercado, com quem a queda de braço se intensificou este ano. Em 2014, com a imagem desgastada, o ministro terá de resolver com o seu protegido secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, como sustentar o superavit primário — a economia para pagamento de juros da dívida pública —, que só ganhou fôlego por conta dos R$ 15 bilhões do leilão do Campo de Libra e dos R$ 20 bilhões recolhidos pelo Refis.

    A dívida pública bruta do Brasil se aproxima da barreira dos 60% do Produto Interno Bruto (PIB) e é mais um perrengue no fim de ano de Mantega, que também precisará lidar com as projeções negativas acerca do crescimento do país em 2013, cujo resultado será divulgado apenas em março. As medidas de incentivo ao consumo, capitaneadas por ele, se esgotaram e demonstram não ter mais força para garantir o bom desempenho da atividade.

    Embora seja uma época de renovar as esperanças e se preparar para mudanças de rumo, o cenário da economia brasileira não parece muito promissor. “Eles vão empurrar com a barriga e nós teremos um pouco mais do mesmo”, acredita o pesquisador Regis Bonelli, referindo-se ao trio Dilma, Mantega e Tombini. “A situação atual é de desânimo e apreensão. A sensação é que eles vão se preocupar somente em não fazer as coisas piorarem até as eleições”, emenda o economista Cláudio Porto.

    » De olho no FED

    Os último dados de emprego nos Estados Unidos, divulgados este mês, mostram que o país alcançou a menor taxa de desocupados em mais de cinco anos: 7%. O resultado reforça a percepção de que a economia está em recuperação, o que aumenta a expectativa de que o FED (o banco central americano) dará início à retirada de estímulos. Oficialmente, porém, tanto o atual presidente, Ben Bernanke, como a futura chefe do FED, Janet Yellen, dizem que o país ainda está longe de onde gostaria e que ainda levará algum tempo até a política monetária voltar ao normal.

     

    Fonte: Correio Braziliense

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