Edição 33 - 24/09/2010

BOCA LIVRE – Ideia, crítica & debate – nº 14, de 24.9.10: É do viver que falo!

 

BOCA LIVRE

Ideia, crítica & debate                 

São Paulo, 24 de setembro de 2010 – nº  14

EDITORIAL

O processo de existir; a vida – assim define o dicionário Houaiss a palavra "viver" enquanto substantivo masculino. É em torno dessa práxis que Idalvo Toscano, Conselheiro do Sinal-SP, tece suas considerações na crônica aqui publicada. 

Boa leitura!

É DO VIVER QUE FALO!

Idalvo Toscano

Observo meu filho, atento à explicação da mãe que lhe diz da profissão de psicóloga.

Acrescento que os psicólogos ajudam as pessoas.

Me pergunta se sou “sicogo”; corrijo: psicólogo, não!

E você é o quê?

(Lamento dizer…) Economista.

Que é “conomista”?

(Fico tentado a dizer que mentem com números, mas silencio sobre isto).

Prefiro: estuda como as pessoas produzem, compram e vivem com o que trabalham.

Trabalham? Onde você trabalha?

Olho para ele e vejo seus olhinhos (bonitos como o quê) aguardando; hesito dizer onde trabalho; finalmente: “Em um banco que toma conta dos outros bancos para eles não fazerem besteira.”

Como mamãe, você ajuda as pessoas? (Novo constrangedor silêncio…)

Bem, tento; o banco em que trabalho deve servir para isso: cuidar para que as pessoas não sejam prejudicadas pela ambição dos banqueiros. (Não disse que raramente, apesar das boas almas e intenções, conseguimos vencer os banqueiros, senão ele iria achar o pai um “bundão”, sabe como criança é, não?)

– E o que é ambição? e o que é banqueiro? E como é seu trabalho? etc. e tal.

Por fim – e eu temia que ele perguntasse isso; precisamente isso – você gosta desse trabalho?

Sim, quero dizer, mais ou menos, mas, sinceramente, não!

Então por que você trabalha?

Para trazer comida para casa, para passearmos, para pagar sua escola, comprar presente… um montão de coisas. É preciso ter dinheiro para isso.

Sei, eu trabalho na minha escola: recorto figurinha que tia Juju vende às outras crianças; meu salário é de $12, mas não é real de verdade, mas dinheiro de mentirinha!

Bem legal, digo.

Mas não disse que vendo pedaço importante de minha vida pelo vil metal; não falei que faço coisas, no mais das vezes, inúteis e que bem que gostaria de violar, violentar, trucidar e desfazer a aridez atacâmica dos pareceres do dia a dia.

Sim senhor, árida, insossa, insípida e incolor, mas venenosa, esta minha atividade. Nenhuma criatividade, apesar do proscênio cotidiano onde a representação não encobre o “sim, senhor” ao alto do poder (que nem é tão definitivo assim, mas que se pereniza pela omissão perpétua).

É um sim senhor, praqui, outro pralá e assim vamos vivendo.

(“Sim senhor”, para Baden Powell, era o traseiro das mulheres, daqueles arredondados e, não raro, bem fornidos. Há alguma semelhança entre esta acepção e aquela aquiescência indistinta, fecunda e habitual que cerca os nódulos de poder da burocracia? Há, sim senhor: ambas vêem por baixo, né?)

Tudo começa com um “Trata-se, trata-se, trata-se de, nestes termos, pedir deferimento atenciosamente à sua consideração” e por aí vai!

Produzem-se pareceres para gerar outros tantos adicionais pareceres, pois não há positividades conclusivas, mas um tal de s.m.j. para todo lado e que resulta em diversos “lasseamentos“, diversas obtusidades que são tão mais profícuas quanto são o risco de assunção de responsabilidades e assim caminha a humanidade!

Não há positividade? Há sim, mas não efetividade assertiva, pois ninguém quer por na reta, pode ser ou não ser, submeto à consideração de quem deve decidir para que este chute lá para cima para outros tantos.

Falamos de humanidade e penso no que se perde de humanidade no cotidiano; tantas coisas acontecem no mundo, tanto de beleza ao espírito, mas só sobra “a bolsa subiu”, “a bolsa caiu”, “foi Obama”, “foi o Eike” (que belo rapaz! cheio de “inside information” herdado de papai Eliezer); e o Fábio Barbosa? cara legal! heróis de nosso tempo pleno de vazio heróico…

(Ao lado uma voz aguda, matraqueante, alguns decibéis acima do suportável para adultos não tão jovens como eu, fala de “liquidações” e eu logo penso em crise bancária, assaltos etc. Nada disso, entretanto; somente a liquidação de um pagamento compromissado…).

(Um amigo diz de uma definição precisa do que seja “processo”; eu logo penso em outros processos: de aprendizagem, político, emancipatório, emocionais… nada! Processos burocráticos, sim senhor!).

Não disse ainda da vida, mas dá para entender o porque ela se esvai como fogo fátuo na lide cotidiana…

PALAVRAS FINAIS

Você tem algo a acrescentar ou uma opinião diferente sobre o(s) assunto(s)? Você gostaria de escrever sobre outro tema? Sua opinião é valiosa e poderá ser publicada em próximo boletim.

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