BOCA PAULISTA ELETRÔNICO nº 42, de 22.9.11: Juros altos, inflação e poder de compra (parte 2)
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JUROS ALTOS, INFLAÇÃO E PODER DE COMPRA (parte 2) Vimos no artigo anterior (Boca Paulista Eletrônico nº 41, de 31/8/11) como a inclusão social pode ser benéfica para a construção de um desenvolvimento e uma democracia sustentáveis, por seus efeitos dinamizadores da economia. A ampliação da capacidade produtiva do país é parceira indissociável desse mesmo compasso. A política de juros altos, ao contrário, inibe o investimento e aumenta a dívida pública, cortando as pernas do crescimento. A alta dos juros também aprecia o Real, pela atração irresistível que causa nos capitais forâneos. No atual contexto de elevadíssima liquidez mundial, agravada pelo afrouxamento monetário americano e europeu, o Brasil fez o contrário ao aumentar fortemente seus juros reais. Isso aumenta a dívida pública, que também se amplia devido aos empréstimos externos de grandes empresas e de parte seleta da população. Por este canal ingressam Dólares que alimentam o consumo de uma camada privilegiada. No Brasil a “política monetária de uma nota só”, aquela que tem fixação no aumento dos juros (hawkish, como diz um conhecido termo em inglês), tem, na prática, pouco sucesso no combate ao consumo e à inflação, como demonstra Demian Fiocca (A Oferta de Moeda na Macroeconomia Keynesiana). O aumento de juros tem efeito muito baixo na redução do consumo, mas muito forte no endividamento (aumenta) e no investimento (reduz). Ademais, no Brasil, “cada alta dos juros em 1% expande a demanda agregada em 0,24% do PIB, pela maior injeção de dinheiro na economia, pago aos investidores de curto prazo”. Para que fique claro: o aumento dos juros, ao remunerar aplicações de curto prazo, gera (mais um) aumento de poder de consumo privilegiado. Ao final, a política dos juros altos faz um enorme confisco da renda, justamente daqueles mais desprovidos, em favor de uma minoria, os credores da enorme e altamente rentável dívida pública (rentistas). Observe-se que, não obstante todas as críticas contra o Programa Bolsa Família, há relativamente poucas críticas contra o pagamento dos juros da dívida pública, a qual, em 2011, consumirá recursos 18 vezes maiores do que o Bolsa Família. Os cerca de R$ 250 bilhões a serem pagos, a título apenas de juros da dívida interna, representam mais de 6 vezes o orçado para o PAC em 2011 (R$ 40,6 bilhões) e 5 vezes o extraordinário esforço de corte de R$ 50 bilhões do Orçamento Federal. Despesas em relação ao PIB Tema da mais alta relevância e que será aprofundado na REVISTA POR SINAL, a distribuição desigual da renda é fator gerador de crises. Embora dominante e adotada hodiernamente no mundo, a lógica de que os mercados devem ser desregulamentados define um modelo econômico que é o verdadeiro parteiro das crises. Isso ficou cabalmente demonstrado, mais uma vez, na atual crise dos EUA e da Europa. É o exemplo que não deve ser seguido pelo Brasil, mas que tem persistentes defensores no numeroso bloco dos juros altos. Em resumo, a política dos juros altos: (i) tem efeitos contraproducentes, pois aumenta o poder de consumo das camadas privilegiadas através de dois canais, ao passo que ataca o consumo popular e da classe média; (ii) prejudica a capacidade produtiva do país com o aumento do custo de capital e o barateamento do dólar; e (iii) prejudica o mercado interno, pela sua própria concepção de ataque ao consumo. Além disso, aumenta a dívida pública fragilizando o orçamento e aumenta os custos operacionais das empresas, o que também é contraproducente no que tange à inflação. É a política do sacrifício dos assalariados e do futuro do país. No próximo artigo veremos, com mais detalhes, o efeito dos juros sobre a vida dos cidadãos (em contrapartida ao alardeado efeito da inflação), bem como a eficiência dos atuais modelos monetários. |
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