BOCA PAULISTA ELETRÔNICO nº 43, de 17.10.11: Juros altos, inflação e poder de compra (final)
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JUROS ALTOS, INFLAÇÃO E PODER DE COMPRA (final) É inegável o sucesso da política econômica brasileira no século XXI. Os principais indicadores macroeconômicos e sociais mostram uma melhora considerável na última década, com absoluto controle da inflação. A economia brasileira, que ficou meio estagnada por quase três décadas, passa a dar sinais de melhora consistente. O Brasil desponta mundialmente, com uma economia forte, com uma política econômica que desperta o interesse, a curiosidade, o respeito e o respaldo mundial. Diferentemente dos demais BRICS, o Brasil foi o país que relativamente mais diminuiu a desigualdade social nos últimos anos. O BRASIL cresceu mais do que a China, quando tomadas as classes média e baixa (FGV).
Fonte: CPS/FGV com microdados da PNAD, e Censos /IBGE, cf. elaboração de Marcelo Néri, Centro de Políticas Sociais, www.fgv.br/cps Todavia, o enorme avanço das políticas econômicas e sociais, nos últimos anos, ainda carece de contrapartida adequada e respaldo da política monetária, que tem sido conduzida, até recentemente, de maneira desencontrada da política econômica. Da mesma forma que comemoramos a conquista da estabilização econômica, nossa sociedade passa a requisitar novo avanço, que vem sendo inicialmente vitorioso, de redução da desigualdade de renda e de geração de emprego formal, que são momentos do mesmo processo. A estabilização da moeda, que se deu através de engenhosa desindexação dos contratos, foi seguida da implantação do sistema de metas de inflação, em 1999, o qual se revelou um sistema bastante transparente de controle e acompanhamento da inflação, mas que teve sua aplicação deturpada pelo “lobby” do juro alto. A atuação deste grupo de interesse cobrou preço muito alto da economia e da sociedade e deixou o Brasil, por muitos anos, sem condições de acompanhar o crescimento mundial, trazendo ineficácia e reduzindo sobremaneira os ganhos da política econômica, agravada pelo fato de que o sistema de metas de inflação se tornou anacrônico, rígido e defasado face à atual situação de crise internacional e, assim, forçando uma taxa de juros muito alta. Porém, para comemoração de todos os brasileiros, esse tipo de política vem se esvanecendo. Os dados empíricos demonstram como a TAXA DE JUROS tem se reduzido de forma consistente, embora gradativa, e como essa redução possibilita o aumento das taxas de crescimento do PIB.
Essa extraordinária melhora foi acompanhada do controle da inflação, como citado, devido à recidiva da forte elevação dos preços das commodities (pós-crise de 2008). Todavia, essa longa construção pode ser interrompida em 2011 se a alta da Selic não for logo revertida para taxas menores que 8,75%, nível que vigorou até 28.4.2010. Portanto, um grande desafio próximo é a mudança de qualidade da política monetária brasileira, de modo que elevações temporárias da inflação não sirvam de pretexto para frear o desenvolvimento do país, ganhando eficiência sem comprometer a autonomia operacional do Banco Central. Após as graves crises EUA-2008 e Europa-2011, teremos de enfrentar as seguintes ameaças: · Retração mundial implicando redução do consumo de produtos brasileiros; · Dificuldade de pagamento de dívidas por parte dos países centrais, atingindo o sistema financeiro brasileiro e/ou as expectativas dos agentes de mercado; · Recrudescimento de barreiras ao comércio mundial com tentativa de liberalização do mercado financeiro. Não obstante, também oportunidades se apresentam ao Brasil: · Alteração do sistema de metas de inflação, posto que não reflete as preferências sociais: grau de aversão social à inflação e a compensação necessária entre inflação e desemprego; · Potencial do mercado interno, fortalecido pelas políticas de crescimento e distribuição de renda e pela recuperação das classes que não participavam da economia; · Acordos comerciais com países parceiros e potências emergentes (Mercosul, BRICS e outros). Faz-se oportuno o exemplo do Banco Central da Turquia que, na contramão da anacrônica cartilha econômica imposta aos países periféricos, derrubou os juros, mesmo com as expectativas de inflação superiores à meta. Para responder às medidas de afrouxamento quantitativo (recompra de títulos pelos BCs) dos países desenvolvidos (com moeda forte e plenamente conversível, como a dos EUA), que elevaram a liquidez global, o BC da Turquia derrubou a taxa de empréstimo em novembro, de 5,75% para 1,75% ao ano (Sérgio Lamucci, Valor Online, 07/10/2011). São exatamente políticas anticíclicas como essa que têm sido adotadas pelos países em desenvolvimento e, não coincidentemente, os têm deixado em situação relativa muito melhor do que os países “centrais”, donos e propagadores das tão conhecidas políticas econômicas ortodoxas. O Brasil precisa, urgentemente, avançar nessa “ousadia” anticíclica, pois este ano apresenta uma das mais fortes retrações do PIB entre os BRICS, perdendo apenas para a Índia. Isso significa que a queda de 0,5% da SELIC, decidida na última reunião do COPOM, foi acanhada demais perante essa grave conjuntura mundial. É imperiosa a redução dos juros em sintonia com a política econômica de estímulo ao mercado interno, sem traumas de inflação. É o que se impõe para a próxima reunião do COPOM, nos dias 18 e 19 de outubro, ratificando o indicativo já expresso pelo Presidente do BC. |
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