Edição 0 - 11/06/2003

O cavalo-de-pau ético do governo petista

Josias de Souza, diretor da sucursal de Bras¡lia

Folha de SÆo Paulo, 9/06/2003

Frase lida na traseira de um caminhÆo no Eixo Monumental, via
central de Bras¡lia: "O PT ‚ o socialismo que caiu na vida". Curioso nÆo ‚ o
fato de o partido de Lula ter virado piada
. Brasileiro ‚ assim mesmo. Faz
tro‡a at‚ da pr¢pria desventura. O que espanta ‚ a naturalidade com que o
Planalto fornece a mat‚ria-prima
.

No ¡ntimo, o p ra-choque do caminhÆo brasiliense ri do
excesso de liberalismo de Lula. Liberou o primeiro e o segundo escaläes da
administra‡Æo p£blica ao PTB, PL, PMDB e afins. Agora, sob emana‡äes da
impudˆncia dos neo-aliados, libera um sopÆo para sonegadores. Foi servido no
meio de uma lei sancionada pelo presidente h  oito dias.

A nova lei (n£mero 10.684) ‚ impertinente no conte£do e
in£til na forma. Impertinente porque, ao facultar novo parcelamento de d¡vidas
de sonegadores em at‚ 15 anos, ofende aos que suam para pagar os impostos
em dia
. In£til porque quem devia ao Fisco e quis redimir-se da falta
j  havia aderido ao Refis, mamata inaugurada em 99, sob FHC.

A sopa de Lula traz no seu artigo nono uma pitada de mel.
O texto acena com a suspensÆo da "pretensÆo punitiva do Estado"
em rela‡Æo
aos sonegadores que aderirem ao parcelamento. Em portuguˆs claro, quer dizer
o seguinte: foi ao lixo a legisla‡Æo dos crimes contra a ordem tribut ria
.

Qualquer pseudo-empres rio, ainda que seja r‚u em
inqu‚rito por fraudes fiscais, limpa o prontu rio abrindo um credi rio na
Receita.
Estando em cana – coisa rara, mas existente – o sonegador ganha a
rua se o juiz levar ao p‚ da letra a disposi‡Æo do Estado de pendurar a
"pretensÆo punitiva".

Embora generoso, o Refis de FHC nÆo chegara a tanto.
Admitiu a remissÆo de sonegadores. Mas s¢ nos casos em que o arrependimento
chegou na frente da den£ncia
. Confessando o pecado antes de ser pilhado em
flagrante, o penitente tirou proveito de um princ¡pio que os t‚cnicos chamam de
"benef¡cio da espontaneidade". Deu-se de barato que sonegara sem inten‡Æo de
dolo.

Em 99, serviram-se das facilidades do Refis de FHC 128 mil
sonegadores. Um ano depois, 40 mil j  haviam sido expulsos do programa. NÆo
haviam recolhido um m¡sero centavo ao Fisco
. Em 2001, a faca da Receita
contabilizava outros 50 mil escalpos. Gente que, tendo atrasado parcelas da
d¡vida velha, tampouco pagou os d‚bitos correntes.

Os sonegadores levados … faca dividiam-se em duas categorias:
as empresas muito mortas e as muito vivas. As muito mortas nÆo pagam imposto
porque uma das del¡cias da morte ‚ a possibilidade de transferir para o credor a
dor de cabe‡a causada pelo ac£mulo de d¡vidas. As muito vivas nÆo pagam
porque nÆo vieram ao mundo para isso.

Entre os muito vivos exclu¡dos do Refis estava, por exemplo,
o complexo empresarial de Jos‚ Osmar Borges. Nasceu para beliscar incentivos
fiscais da Sudam, nÆo para recolher tributos. Desviou mais de R$ 100 milhäes em
verbas p£blicas. Queria da Receita apenas uma certidÆo negativa. Por isso
simulou interesse pelo parcelamento.

Os 38 mil sobreviventes do Refis acumulam hoje uma d¡vida de
R$ 124,9 bilhäes.  mais da metade de toda a arrecada‡Æo tribut ria estimada
pela Receita para 2003 – R$ 247 bilhäes
.

Esp‚cie de Fome Zero do sonegador, o sopÆo de Lula
‚ uma lei com dono. Pertence aos muito vivos. Escondem-se atr s de integrantes
das legendas que compäem a base congressual do governo. Pessoas que
Lula decidiu agradar
.
Em nome da aprova‡Æo das reformas
.

Quem desperdi‡ou parte do domingo lendo esse texto at‚ aqui
decerto tem est“mago para outra informa‡Æo indigesta: encontra-se em avan‡ado
est gio de negocia‡Æo no Congresso uma outra mamata.
Trata-se do
parcelamento de d‚bitos de ruralistas
. Mais um.

(E pros servidores, tome reforma que eles merecem …)

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