Brasil exposto ao capital especulativo

    Aumento do rombo nas contas externas deixa o país vulnerável a turbulências internacionais e obriga o BC a manter juros elevados

    DECO BANCILLON» VICTOR MARTINS

    Diante do enfraquecimento do setor produtivo nacional, que está sem forças para atender o consumo doméstico, o rombo nas contas externas disparou. Para cobrir o buraco, o Brasil passou a apelar ao hot money, dinheiro de especuladores que corre o mundo em busca de juros atrativos. Até o fim do ano, serão necessários pelo menos US$ 17 bilhões desse tipo de capital para financiar o deficit. No cenário mais pessimista, que leva em conta um quadro de estresse financeiro global, essa dependência chegaria a US$ 51 bilhões, conforme estimativas do mercado financeiro coletadas pelo Banco Central. 

    De início, o governo Dilma Rousseff levantou uma série de barreiras para conter a entrada desse dinheiro, considerado “arisco” pelo governo, que a qualquer sinal de problemas, ou de oportunidade financeira mais vantajosa, pode deixar o país. Na época, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi o responsável por colocar travas contra esses recursos, aumentando, por exemplo, o Imposto sobre Financeiras (IOF) sobre a entrada do dinheiro. Foi, segundo ele, uma reação ao “tsunami monetário” vindo dos Estados Unidos, que passaram a injetar bilhões de dólares no mercado para reanimar a economia do país, no chão após o estouro da crise de 2008/2009. 

    “De um jeito ou de outro, o capital de fora tem que vir, porque o Brasil não tem dinheiro suficiente para fazer tudo o que precisa” 
    Monica Baumgarten de Bolle, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) 

    A realidade, porém, se impôs e todas as barreiras foram retiradas. Para evitar consequências mais graves nas contas externas, o país precisou se mostrar atraente ao capital especulativo. A fraqueza brasileira está no balanço de pagamentos que, no ano passado, sofreu com um deficit de US$ 81,3 bilhões, um recorde. Só não houve problemas porque o buraco foi coberto por US$ 64,7 bilhões de investimentos estrangeiros diretos (IED, recursos aplicados no setor produtivo) e US$ 34,7 bilhões de hot money. No entanto, foi a primeira vez, desde 2001, que o Brasil não conseguiu equilibrar as contas usando IED, considerado um “dinheiro de qualidade”, de longo prazo e estável. A contabilidade só foi fechada com a ajuda do capital especulativo. 

    Ímã 

    Neste ano a situação deve se repetir. O pior cenário projeta um rombo nas contas externas de US$ 101 bilhões, a mediana do mercado está em US$ 75 bilhões, e a previsão do Banco Central é de US$ 78 bilhões. Em nenhuma dessas situações, o IED, cujas expectativas giram ao redor de US$ 63 bilhões, será suficiente. “Não quer dizer que a gente vá ter uma crise externa amanhã. Mas a tendência, realmente, é de piora da qualidade do financiamento externo”, ponderou José Luis Oreiro, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

    “Os próximos anos serão de arrefecimento gradual na entrada de investimentos estrangeiros diretos. Esses influxos de capitais permanecerão financiando boa parte do deficit em conta-corrente brasileiro, porém em volume menor do que nos anos anteriores”, observou Gabriela Fernandes, economista do Itaú Unibanco. “As concessões de infraestrutura são uma grande oportunidade para a entrada de mais IED, e as novas regras que estão atraindo mais consórcios interessados podem fazer com que a redução no investimento direto seja mais gradual ao longo dos próximos anos”, disse. As projeções da instituição são de que o volume recue de 2,9% do Produto Interno Bruto (IED) em 2013 para 2,2% em 2015. 

    “Não quer dizer que a gente vá ter uma crise externa amanhã. Mas a tendência, realmente, é de piora da qualidade do financiamento externo” 
    José Luis Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

    Com o ingresso menor desses recursos de longo prazo, o país precisa atrair outros capitais para fechar as contas e o aumento dos juros cumpre a função de ímã. Hoje, a maior taxa básica real do planeta é a brasileira, 4,48% ao ano. Diante do valor tão elevado no Brasil frente a juros baixos e muitas vezes negativo no restante do mundo, os investidores estrangeiros captam recursos em seus países de origem ou em outras nações e, depois, remetem esse capital para cá. Aqui, aplicam em títulos públicos ou ativos que ofereçam retorno próximos da Selic, que atualmente está em 10,75% ao ano. Com essa operação, eles quitam o empréstimo obtido no exterior e embolsam a diferença. Essa estratégia é chamada de arbitragem. 

    Perigo 

    “Ficar muito dependente de capitais de curto prazo deixa o país muito exposto”, avaliou Monica Baumgarten de Bolle, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). “A gente não tem poupança interna para financiar o investimento. E aí não tem jeito, tem que ser com poupança externa. De um modo ou de outro, o capital de fora tem que vir, porque o Brasil não tem dinheiro suficiente para fazer tudo o que precisa”, explicou. Para Armando Castelar, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), a deterioração das contas externas se mostra como uma tendência, mas o país ainda está no início do processo. “Pode se tornar perigoso algum dia”, disse. 

    Desde o ano passado, não fosse esse dinheiro, o país poderia enfrentar problemas em função do desequilíbrio nas contas externas que, na prática, podem ser vistas como um indicador do grau de fragilidade de uma economia em relação ao mundo. Três itens fazem parte delas: o balanço de pagamentos, que mede todas as transações financeiras, de bens e de serviços do Brasil com o planeta; reservas internacionais, poupança que funciona como um seguro contra crises; e dívida externa.

    Comércio desidratado

    Boa parte do agravemento das contas do país com o exterior tem origem na balança comercial. Depois da crise internacional, tradicionais mercados de produtos brasileiros, principalmente manufaturados, diminuíram o ritmo das compras. Ao mesmo tempo, a competição se tornou mais dura e empresas asiáticas e norte-americanas ganharam espaço. A produção nacional enfrenta dificuldades até mesmo para disputar em casa com fabricantes estrangeiros, e a forte expansão do consumo das famílias teve de ser atendida parcialmente com importados. 

    O quadro se deteriorou de tal maneira que muitos analistas projetam que a balança pode amargar deficit em 2014, o primeiro desde 2000, caso a previsão se confirme. Até fevereiro, houve um rombo de US$ 6,2 bilhões. 
    Para analistas, o Brasil desperdiçou o último ciclo de crescimento das commodities, entre 2002 e 2008, quando a demanda por produtos básicos, sobretudo alimentos e combustíveis, subiu fortemente e elevou os preços desses itens. Naquele período, o saldo comercial do país bateu recordes e colaborou fortemente para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB). Depois do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos (EUA), que teve como gatilho a quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, o cenário mudou. 

    Restrições 

    Neste ano, parceiros importantes se transformaram em parte do problema. Com a crise política e econômica da Argentina e da Venezuela, países que compram boa parte do que o Brasil exporta de manufaturados, a indústria pode deixar de vender pelo menos US$ 5 bilhões para esses mercados. 

    “Os automóveis de passageiros vêm sofrendo quedas relevantes na exportação devido ao momento econômico ruim que a Argentina enfrenta e às restrições aduaneiras aplicadas pelo governo de Cristina Kirchner. Nos últimos dois meses, o embarque desses produtos recuou 43% em relação ao bimestre anterior”, relatou Gabriela Fernandes, do Itaú Unibanco. 

    Sidnei Nehme, economista da NGO Corretora, alerta que o desequilíbrio nas contas externas e a alta do dólar frente ao real tornaram-se problemas para o Banco Central. “Serão oponentes maiores para a política monetária do governo, pois provocarão impactos inflacionários”, explicou. (DB e VM)

     

    Fonte: Correio Braziliense

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