A.P. SHOW

    Que tal fazermos juntos uma viagem pelo túnel do tempo? Se concordar, feche os olhos e concentre-se, porque iremos aterrissar no auditório da finada TV Tupi, num sábado qualquer de janeiro dos anos 70. Desconfortáveis, em velhas e mofadas cadeiras, iremos assistir ao “AP SHOW”. No comando o possante Aérton Perlingeiro, uma figura inacreditável, geralmente encontrado nos piores momentos da tv no Brasil, como esse aí embaixo, absolutamente verdadeiro do começo ao fim:Para quem não conheceu, Aérton foi o protótipo do Fausto Silva, porém, mais bronco e tão insuportável e inconveniente quanto o global. De altura média, combinava incríveis calças vermelho-sangue com camisas floridas e completava o layout com uma peruca de cabelos lisos, repartidos do lado.         O programa começava com o “Almoço com as Estrelas”, quadro em que, entre uma garfada e outra, artistas de teatro e cantores, promoviam seus “espetáculos”.  Intermediando, música ao vivo, sorteios e… Concursos.         Nesse nosso sábado, haveria um “torneio” de cuscuz! Nos bastidores, cerca de trinta mulheres vestidas de baiana, portavam tabuleiros com a iguaria. Cada concorrente ganhou um número de inscrição, e, um júri composto pelo cantor Carlos Galhardo e as atrizes Maria de La Costa e Etty Frazer, decidiriam a questão.        Iniciado o concurso, a primeira baiana ofereceu um “exemplar” do cuscuz aos jurados. Cada um provou e deu sua nota. E veio a segunda… A terceira baiana…        Lá pela sexta concorrente, Maria de La Costa alegou que estava de regime e abandonou júri. E, no oitavo cuscuz, quem disse adeus foi Carlos Galhardo.         Transformada em Juíza Suprema, a gordinha Etty Frazer “traçaca” todos os cuscuzes que apareciam à sua frente. No décimo quinto, foi para o banheiro e não voltou mais.        Sem júri, Aérton anunciou, então, que suspenderia a disputa. Ah, para quê! As baianas quase o lincharam! Alegaram falta de respeito, desumanidade e impuseram o resultado e o recebimento do prêmio para àquele sábado.        Acuado, Aérton andava de um lado para o outro do palco sem saber o fazer e, muito menos, o que dizer.         De repente, a impressão que deu foi que desceu um facho de luz sobre o apresentador que iluminou estremeceu todo o seu corpo: – “Já tenho a solução! Não se preocupem, já tenho a solução!” Gritava histericamente.        Fez-se então aquele tipo de silêncio que é um misto de alivio e ao mesmo tempo de profunda ansiedade para o que pode vir a seguir: “O auditório decide!” Anunciou. “O auditório decide!” Repetiu. E, com aquela inteligência que lhe era peculiar, chamou todas as baianas ao palco e iniciou o julgamento:        – AUDITÓRIO ATENÇÃO! Palmas para “a” número um! … AUDITÓRIO: Palmas para “a” número dois! … AUDITÓRIO: Palmas…