A RESSACA E OS GARIMPEIROS DA PRAIA

    <!– /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";}@page Section1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;}div.Section1 {page:Section1;}–>Outro dia tivemos por aqui, como vocês devem ter sabido, uma ressaca domar das piores que já havíamos visto. Eu divulguei algumas fotos que mostravamo estrago que as ondas imensas acabaram causando a boa parte da nossa praia. Alguns me escreveram perguntando sobre a enchente, se tinha sido muitogrande. Na verdade por aqui não costumamos ter enchentes, como se vê em outrascidades. Com chuva muito forte ocorre é que uma ou outra rua costuma encher,ficando difícil transitar por elas, mas logo depois a água baixa e tudo voltaao normal. A rua em que moramos felizmente nunca encheu. Ela tem pequeno decliveque pode facilitar isso. No nosso bairro outras ruas enchem e a água chega aentrar em algumas casas. Enchentes do tipo de que vemos em outras cidadesfelizmente não costumamos ter não. Quando a ressaca é muito forte, e eu já presenciei pelo menos três aquiem Cabo Frio,o mar avança rápido, vem com ondas bem altas, cobre a areia das praias, especialmentea do Forte, algumas vezes chegando a subir um pouco nas dunas. Ao largo do Forte de São Mateus, numa pequena área ali embaixo, dá parase presenciar sem perigo àquele espetáculo de fúria da natureza. Ondas avançamcontra as encostas do Forte, cobrem a pequena ponte que faz parte do caminhopara a subida até ele, invadindo parte da área de estacionamento ali ao lado. Fotografado ou filmado lá de perto do Forte com a câmera voltada paraas praias e a cidade temos a impressão de que realmente o mar vai invadir tudo.Chega a ser um pouco assustador. Eu cheguei a filmar, há uns 10 anos atrás,outra ressaca parecida e coloquei as cenas num vídeo dos que eu produzi sobreCabo Frio.  Desta feita, mais uma vez, o estrago ficou por conta da destruição dascabines dos salva-vidas, além da derrubada das escadas que as pessoas usam paradescer para a praia ali bem em frente ao Hotel Malibu.  A força das ondas chegou a cavar por baixo da estrutura do deque em queas pessoas passeiam habitualmente. Foi um grande estrago mesmo. O que nos causou imensa surpresa foi o surgimento, já quando o marcomeçava a ficar mais fraco, do surgimento de algumas pessoas que foram para asareias, que ainda estavam muito molhadas, mesmo enfrentando algumas ondas, comoque catando mariscos. Esta foi nossa primeira impressão, mas a realidade era outra, bemoutra, por sinal. Eles mesmos, em entrevista à TV local, se intitularam de”garimpeiros da praia”. Realmente alguns dos rapazes mostravam para as câmerasobjetos que colhiam na areia encharcada. Sorriam e diziam ser “troféus”. Afinal o grande esforço deles, até por estarem a enfrentar um certorisco ainda latente ali, estava a ser compensado. Confesso que nós nuncavíramos algo assim nesta cidade em momento algum.  Expliquemos a razão do “garimpo. Alguém teve a idéia e logo ela seespalhou. Os rapazes estavam a fim de conseguir recolher objetos diversos queas pessoas perdem na praia e jamais recuperam. Mais, alguns eram objetos de bomvalor. Os rapazes estavam com correntes finas, outras bem grossas, pulseiras,brincos, anéis, alianças, a maioria de ouro, mesmo. Acreditem, eram de ouro.Tem gente que insiste em ir à praia como se fosse a um baile.  Nos movimentos em terra e dentro da água,acabam por perder adereços e nunca mais encontram. A idéia foi que com a forte ressaca de repente o mar tivesse trazido devolta o que estava, digamos, “depositado” no fundo do mar, levado pelas ondas. Enão é que os caras acertaram? Dois deles chegaram a mostrar o que haviam”garimpado”, dizendo para o repórter que ali havia, nas mãos deles, mais do queeles ganham normalmente em um ou dois meses.  A apresentadora do tele jornal da Globo, Sandra Anemberg chegou a fazereste comentário que eu, pelo menos, não julguei válido: “É verdade, eles estãofelizes, mas, e os donos das jóias perdidas? Não seria o caso de osprocurar?”… Desculpem, meus amigos, sabem o quanto pelejo por atitudes honestas,mas neste caso os perdedores deveriam muito mais ser de outras cidades, muitosde outros Estados, do que daqui mesmo. Afinal tivemos um verão, mais uma vez,em que a nossa população de cerca de uns 130 mil habitantes superou em muito ummilhão. Como comprovar quem seriam os donos? Já estávamos em abril.  Aquilo não foi roubo, apenas realmente achados de quem perdeu e deixoupra lá, certo? Deveria sim era servir de lição para quem vai à praia todoengalanado. Quem dera muitos pais tivessem com seus filhos pequenos, no imensomovimento do verão, o mesmo carinho ou zelo que parecem dedicar à suaaparência.  Enfeitam-se, exibem-se, e os guris ficam largados à sua sorte namultidão. Não fossem uns poucos que dedicam o melhor do seu tempo recolhendo ascrianças perdidas na praia, como fazia o saudoso Palhaço Chupeta, e as levandode volta aos braços dos irresponsáveis pais, a tragédia seria maior. Os “garimpeiros da praia” arriscaram e se arriscaram e tiveram sorte,pelo menos alguns. Isso ainda nos atos finais de uma ressaca gigantesca. Naminha opinião a apresentadora do jornal da Globo quis ser mais realista que aprópria realidade de nossas praias. Usou de uma retórica correta, porém aplicadaa um fato errado. 

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