A REVOLUÇÃO DOS BICHOS

    *Autor: Ronaldo Pinheiro Dias         *  É verdade que não é sempre, no entanto, por causa deste espaço aqui do SINAL, recebo de colegas críticas, sugestões, textos para “julgamento” e boas matérias prontas. Esta aí embaixo está classificada no último caso. Leia e comprove.Mario Marcio DamascoEm 1944 George Orwell, utilizando-se de magistral parábola sobre os mecanismos de degeneração do igualitarismo – A Revolução dos Bichos – disseca, a par das estruturas sociais, também a psique de seus personagens, revelando-nos muito sobre nossas próprias naturezas.Na fazenda, os animais domésticos insurgem-se contra seus donos que os dominam e instauram um sistema de produção baseado na igualdade e eqüidade. Mas em pouco tempo os porcos, mais inteligentes, assumem o poder, cuidando somente de obter e ampliar o próprio poder, culminando com a eliminação da oposição e elevando seu líder, Napoleão, a uma posição muito semelhante a dos repudiados humanos.Em muito bem articulado comentário, o editor analisa o enredo com as seguintes palavras:"Admiravelmente construído sobre o cômico e o grotesco, o romance é na realidade uma impiedosa análise das monstruosidades que pode produzir uma política entendida como puro e cínico exercício do poder, qualquer que seja a ideologia que a oriente. E constitui, também, definitivamente, uma amargurada observação sobre a inevitável necessidade de que os valores éticos continuem a triunfar sobre as razões diabólicas do predomínio social e da opressão econômica".Belo, porém inconcluso. Faltou, e aparentemente falta, não só ao comentário reproduzido, como também a grande maioria dos pensamentos humanitários universalmente aceitos, estabelecer como podem os valores éticos triunfar sobre as forças da opressão nas suas diversas formas.Utilizando-nos das mesmas imagens do livro em apreço, podemos encarar o comportamento da maioria dos demais bichos que compõem o elenco, como ético e politicamente correto, considerando que, em sua maioria, acreditaram no sonho e agiram coerentemente com ele.        Outra leitura, entretanto, poderia considerar que, pusilânimes, não obstante todos os sinais que os novos tiranos emitiam, permitiram que estes últimos solapassem os ideais da revolução e impusessem, a ferro e fogo, um regime autoritário que ao final subjugou a maioria aos seus pérfidos desígnios.Fascinados e entorpecidos com suas efêmeras realizações, não conseguiram enxergar em suas próprias naturezas frouxas a fonte última e primeira do poder dos tiranos. Alguns até mesmo recordavam com saudade do tempo em que os antigos senhores, seguros de seus direitos de dominadores, conseguiam ser mais benignos em seu domínio.A mensagem é cruel, mas reserva o melhor dos ensinamentos no que diz respeito à democracia e à humanidade – de que estas são o eterno exercício da vigilância, o aprimoramento constante das relações entre iguais e o supremo exercício do direito, baseado no conhecimento profundo de suas normas e do seu significado, e principalmente, do conhecimento doloroso de nossas próprias naturezas imperfeitas. 

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