A VERSÃO E O FATO (ou aversão ao fato?)

    Curto observar o meu secretário "faz-tudo" assistir aos telejornais: sempre desconsidera o fato e acredita na versão apresentada. Vibra com quem acusa e desdenha de quem se defende. O defeito faz parte da cultura nacional: para que saber do fato se existe a versão? Entre a eleição e a posse na Presidência da República, Tancredo Neves ficou gravemente enfermo. Nesse intervalo, a jornalista Glória Maria Glória, que reportava para a TV Globo a agonia do político, adoeceu e foi obrigada a se afastar da cobertura. A licença médica transformou-se em uma fantasiosa história com juras de verdadeira: a de que Glória Maria descobrira que Tancredo tinha sido envenenado pelo militares para não tomar posse e que, por essa razão, fora obrigada a sair do país. Cansada de desmentir a versão, a repórter passou a ignorar a denúncia, a única maneira do assunto ser esquecido.E por aqui, até os ditados populares ganham roupagem que lhes deturpam o sentido.Até a alguns anos eu achava que era cuspido e escarrado a cara do meu pai. Tempos atrás é que fui saber que possuo “esculpido em carrara” o rosto do meu velho. E o desvirtuamento começa cedo – pelas crianças – que, até nas próprias escolas aprendem a declamar que "Batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”. É mais cômodo e dá pouco trabalho deixar como está, do que tentar ensinar a recitação correta de que “Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão". No Brasil as crendices populares se sobrepõem aos descobrimentos científicos. Como bem lembrou o Xico Graziano no Globo, por mais que a ciência moderna comprove que o eucalipto é uma árvore generosa, sua má fama continua assombrando por aí. Dizem que espanta chuva, seca ao solo, que nada nasce ao seu redor, nada vinga na terra com ela outrora ocupada. Nada disso é verdade, mas continua a conversa fiada. Até pouco tempo era a Lua quem definia períodos de plantio e colheita. E ainda hoje indica ocasião para dietas para emagrecer e para se cortar o cabelo.Mesmo assim, o país, nesses últimos anos, evoluiu muito nesse ponto. Ao contrário da final de 1998, por exemplo, quando muita gente jurou "pela mãe mortinha" que a Nike, por motivos comercias, havia imposto a vitória da França. Nessa Copa, tanto o meu "faz-tudo", como a maioria das pessoas admitiu que o time do brasileiro demonstrou um enorme tédio em estar na Alemanha e que, contra o Brasil, o Zidane só não fazia chover. Mas erradicar o mal é tarefa quase impossível. Outro dia, para provocar, disse ao meu “faz-tudo” que, segundo os historiadores, a lenda de que manga misturada com leite faz mal, foi espalhada pelo patrão para impedir o consumo do líquido pelos escravos. Imediatamente ele retrucou: – "Mentira! Que não faz mal o quê! Vai dizer que sabem mais do que a minha mãe…?”.

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