ACABOU A SURPRESA

    Estou achando a vida no Brasil igual à F-1, uma chatice! Quem consegue a dianteira, como o Roberto Jefferson, ganha a corrida. Tudo está banalizado, seja corrupção, informalidade ou violência.  Até os escândalos políticos com os seus “mensalões”, “malas voadoras”, traições e golpes protagonizados por partidos, igrejas, estatais e federações não oferecem surpresas. Como nas corridas das “baratinhas”, faz tempo que – sob as ordens dos chefes de equipe – existem pilotos ultrapassando ilegalmente, derrapando nas curvas  e realizando “fechadas” proibidas.  O país anda tão sem graça que até as polêmicas estão na “muda”. Já vivemos períodos férteis em que, geralmente começando nos domingos, apaixonadas discussões rendiam pela semana inteira. Iam dos excessos do Senna até as polegadas da Marta Rocha, passando por “aquele” gol anulado. Como fontes, o esporte de dia, o Fantástico e o Flávio Cavalcanti à noite e a Gabi, no Canal Livre, entrando pela madrugada. Para ilustrar a “tese”, vou relembrar uma historinha que, se não tem a ver, chega perto:Anos 70, imaginemos Flamengo e Vasco jogado no Maracanã para 150 mil pessoas que torcem pelo resultado que seria a controvérsia da semana. O tremular de um “mar” de bandeiras dos dois clubes mantém flutuando no ar uma quantidade inacreditável de confetes, papel picado e serpentinas. O barulho do foguetório, das bandas e das cantorias é ensurdecedor. A vinheta de rádio anunciando o famoso locutor ecoa soberana: “Vaaaldiiir Aaamaralll!” Das gerais pipas coloridas alcançam vôos; de um lado urubus no colo são acariciados pelos donos e de outro lado “salgados” pedaços de bacalhaus de isopor são transformados em alegorias de mão. Só depois que o balão do time ultrapassa a marquise é que os dedos se descruzam, na certeza iminente da vitória. Os times entram em campo. A sensação é de que o mundo vai acabar. Os repórteres buscam a melhor entrevista. Os alvos são Roberto Dinamite pelo Vasco e, Zico pelo Flamengo. Washington Rodrigues, da Rádio Globo, emissora então ouvida por sete entre dez portadores de radinho de pilha, deixa que todos realizem os seus trabalhos, para finalmente perguntar:-  E aí, Zico? Você… – O repórter faz uma pausa estratégica para proporcionar ao jogador a preparação da indefectível resposta de que “o grupo está unido”, e, a seguir, dispara a insólita pergunta – "Prefere Marlene ou Emilinha?…" Dá, até hoje, para ouvir o tamanho da gargalhada. A questão originou-se em 1949, quando a Rádio Nacional promoveu, sob o comando de César de Alencar, a eleição da Rainha do Rádio. A disputa foi entre Emilinha Borba, a “preferida da Marinha” e Marlene, “a favorita da Aeronáutica”. Marlene não só foi eleita, como bisou o feito em 50. A disputa sem fronteiras entre os respectivos fãs-clubes, em que não faltaram puxões de cabelos, difamações e trocas de injúrias, ganhou proporções continentais e durou por muitos anos. Em 1966, o Festival de Música Popular Brasileira da Record, conseguiu colocar o país em polvorosa por uma semana, ao oferecer para discussão, a preferência entre o lirismo de “A Banda” de Chico Buarque e a impactante “Disparada” de Geraldo Vandré e Theo de Barros. Sabiamente, a direção da TV optou pelo empate e proporcionou ao Brasil o sono dos justos.  Gostávamos e éramos pródigos em debates: Ioná Magalhãs e Carlos Alberto ou Tarcísio Meira e Glória Menezes? Clarice Lispector ou Rachel de Queiroz? Lee ou Lewis? Brahma ou Antarctica? Getúlio ou Lacerda? JB ou O Globo? Coca ou Pepsi? Tom ou Vinicius? Gal ou Bethânia? Pelé ou Garrincha? Drumond ou Fernando Pessoa? Vivi Nabuco ou Carmem Mayrink Veiga? Catolicismo ou Espiritismo? Jânio ou Juscelino? Hi-Fi ou Cuba Libre? URSS ou EUA? Assim como a Fórmula I está necessitando das ultrapassagens sensacionais, da falta de gasolina a dois metros do final e dos acidentes espetaculares, o nosso cotidiano – do lado pragmático – carece de transparência, medidas fortes, exemplos, investigações e punições. E, o lado sentimental, clama pelos amores clandestinos, pelas paixões selvagens, pelas emoções desenfreadas e por polêmicas capazes de varar noites, sem intervalo nem para se ir ao banheiro.  O único consolo foi que li na coluna da Miriam Leitão no Globo que o marasmo já vem de algum tempo. Contou ela: certa vez, vi um momento de pura genialidade do Zózimo Amaral Barroso. O tempo de fechamento estava se esgotando e faltava uma nota para concluir a edição daquele dia. Ele foi para o computador e escreveu: “não será surpresa para esta coluna.” Parou. Fiquei imaginando que novidade ele ainda teria àquela hora da noite. Ele pensou um pouco e escreveu: “Aliás, nada é mais surpresa para esta coluna.’ Com essa nota genial, fechou a coluna  ” -Ta” igualzinho, não? 

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