O POMAR

    (A um bom amigo)Se nós não tivemos oportunidade de ajudar a plantar aquela árvore, o fato é que participamos de sua irrigação, colaboramos para que ela crescesse bonita, exibindo bons frutos, frondosa, espargindo esperança de ótimas safras, com o decorrer dos anos, estou certo? Portanto, amigo, não me diga agora que você, assim como eu, e tanta gente, não nos envaidecemos ao vê-la crescer e crescer cada vez mais. Elogiamos, sim, muitos dos seus frutos, e o fazíamos como um dever de justiça pois eles bem que fizeram por merecer. Sei que você se lembra. Ficamos, muitas vezes, ainda mais orgulhosos, ao vermos, com o tempo, que outras árvores daquele imenso pomar não podiam chegar aos pés dela, ou às raízes dela, certo? Seus frutos chamavam mais a atenção especialmente quando comparados com muitos daqueles que pertenciam às demais árvores. Você sabe disso.É verdade que alguns ainda alimentavam aquele receio pelo novo e não ousavam provar dos seus frutos. Os olhavam com certo desprezo, subestimavam seu valor, embora com o tempo eles tenham se aproximado discretamente da árvore e até passaram a provar, um tanto constrangidos, dos seus frutos. É mentira?Ela foi fincando suas raízes, cada vez mais, granjeando a admiração e o respeito de muita gente. Seus galhos se espalhavam fortes e promissores. Passaram a alcançar onde antes nunca haviam chegado. A árvore crescia mais e mais.No pomar ouviam-se rumores de que outras árvores estavam exibindo frutos podres, porém tudo acabava por ser abafado já que há muitos não interessava deixar que valorizassem ainda mais o que poderíamos então considerar… a nossa árvore. Achávamos que a nossa só dava frutos bons, puros, não contaminados de alguma forma, enquanto que as demais, pelo menos algumas, já nem podiam esconder a triste verdade. Alguns dos frutos delas foram caindo pelo chão, mas não de maduros, não, e sim por se encontrarem em fase de putrefação. Caíram vários, outros se sustentaram.Animávamo-nos com a aproximação de novo concurso para eleger a melhor das árvores e o melhor dos frutos. O pomar se agitava. O quadro geral nos dava quase a certeza de que a nossa árvore venceria. Ela já possuía uma linhagem, uma estirpe natural que a cada dia mais encantava aos desencantados. Passou a ser considerada a árvore da esperança. Sei que você não se esqueceu. Não deu outra: nossa árvore venceu, finalmente, e nós comemoramos juntos. Confiávamos em que seus frutos não nos decepcionariam. Afinal eram mesmo, pelo menos assim sempre achamos, os melhores do pomar. Outras árvores, se podemos assim dizer, figurativamente, como que a olhavam com inveja e insistindo num desdém quase preconceituoso. Mas, vencemos, e isso era difícil para elas aceitarem.Para dizer a verdade, se você se recorda, muitos jamais se conformaram com o destaque dado aos frutos da nossa árvore. Teriam “recolhido suas armas”, seu despeito, mas não desistiriam de ficar atentos e, na primeira oportunidade, como diz outro amigo meu, pular na jugular da nossa vitória. Infelizmente com o decorrer do tempo, e quando parecia que ela estaria se consagrando, não obstante as opiniões em contrário, eis que descobrimos que também tínhamos “telhado de vidro”. Quer dizer, descobrimos não, foi um cidadão que também freqüentava o pomar e não tinha lá muita simpatia pelos nossos êxitos que, ao ser flagrado em determinado ato ilícito, encheu as mãos de pedras e saiu a jogá-las em frutos das várias árvores, mas especialmente nos da nossa. Nem concederam tempo para uma eventual defesa da postura de nossa árvore e da qualidade, boa ou má, de seus frutos. Triste, amigo, foi termos que admitir, com o tempo, que realmente alguns dos frutos que tanto admirávamos, escondiam em suas entranhas matéria purulenta, digamos assim, embora externamente continuassem a provocar admiração e respeito. Foi difícil, eu sei, muito difícil, uma decepção quase insuperável por nos sentirmos traídos pelos responsáveis pela manutenção da árvore.E as pedras não paravam de ser atiradas pelo tal cidadão no afã de provocar um eventual esquecimento de sua sânie pessoal. O pomar estava a ser desmascarado, desmistificava-se muito da pureza, da grandeza da árvore mais bonita do mesmo, e também de outras que já não inspiravam muita confiança quanto à qualidade de alguns de seus frutos. Pior, um véu levantado por quem antes já se escondera nele e assim escapara de um banimento, de um desterro então merecido.O que mais me entristeceu foi ver o amigo aderir à “tzunami”, às “ondas sísmicas” que passaram a querer devorar o passado, liquidar o presente, e evitar qualquer futuro para nossa árvore. Ora, enfim sabemos que temos que eliminar alguns de nossos frutos podres, perdemos a auréola de puros, tudo bem, então que os atiremos ao lixo, mas preservemos a árvore, ou as árvores. Do contrário correremos o risco de  ver acabar o pomar, e isso não interessa a ninguém. Talvez a uns poucos, pode ser.Por favor, bom amigo, largue este machado que vem empunhando ultimamente com uma fúria que me assusta e me decepciona. Você é inteligente, justo, o mundo não é perfeito, sabemos, muito menos o nosso pomar, mas não se junte à malta que deseja muito mais derrotar outros ideais do que apenas defender os seus. Se é que os têm.O momento é deles, tenhamos humildade para admitir, todavia derrubar nossa árvore seria cometer profunda injustiça com os frutos bons, não apenas de nossa árvore, tenha certeza. Seria sepultar sonhos, ainda viáveis, e que são de todos, seria desistir da esperança de que o pomar possa conhecer um amanhã livre de podridão. Alguns não se satisfarão em pôr ao chão apenas a nossa, logo investirão contra outras árvores. Não esqueça que já fecharam o pomar antes. Poderão tentar de novo.