AH, TEREZA!

    O Carlos Heitor Cony escreveu que andar de avião não é perigoso: o perigo está no sujeito que senta ao seu lado. E contou que numa viagem, seu vizinho de banco o cumprimentava entusiasmado com o livro “Não Verás País Nenhum”, dizendo que a leitura da obra mudara sua visão de mundo. Como o companheiro não lhe deu chance de esclarecer que a publicação não era de sua autoria e sim de Ignácio Loyola Brandão, só restou ao cronista permanecer calado.  Durante um bom tempo realizei duas viagens semanais: Rio/Friburgo/Rio e Rio/São Paulo/Rio. Como as viagens da linha de Friburgo geralmente eram realizadas à tarde, aplicava uma vitoriosa estratégia contra vizinhos perigosos: levava sempre alguma revista ou jornal de sobra. Quando sentia que seria abordado, oferecia a minha arma secreta ao companheiro de viagem e, a partir daí, ficava em paz. Conseguia até dormir. Contudo, numa vinda de São Paulo, à noite, sentou-se ao meu lado um jovem com pinta de ator global. Passadas umas duas horas de viagem, sua mão escorregou para a minha coxa. Com educação, repus a mão no seu lugar. O ônibus andou mais um pouco e a mão estava de volta. Repus novamente no seu lugar. E ficou nisso: a mão escorregava e eu repunha de volta. A sorte é que alguém saltou no meio do caminho e rapidamente mudei de cadeira.Mas, o ápice aconteceu num frescão que, trafegando pela via expressa em direção ao subúrbio só fez sua primeira parada cerca de meia hora depois de pegar a Avenida Brasil. Entrei no veículo e vislumbrei um lugar do lado esquerdo que, ao contrário do direito, estava com a maioria dos bancos desocupados. Só depois que me acomodei é que percebi que, ao meu lado, junto à janela, havia um senhor, já bem entrado na idade, tão magrinho e pequenininho que desaparecia na poltrona.Dez minutos depois o velhinho sacou seu celular e fez uma ligação em alto e bom som: “Tereza! Esta é a ÚLTIMA VEZ que falo com você! Vou lhe avisar! Eu já contei tudo para os desembargadores e para o juiz. Se alguma coisa me acontecer, você e aquele seu amante vão ser responsabilizados. Como é que você pode me castigar dessa forma, Tereza?”.Algumas pessoas esticaram o pescoço e cruzaram os seus olhares com o meu. Mais um tempinho e novamente o velhinho no celular: “Tereza! Olha só! É A ÚLTIMA VEZ QUE FALO COM VOCÊ! Não sei como você pode ter feito isso comigo, Tereza!? Como é que você me castigou assim?  Mas, você e o seu amante vão pagar por isso! Você vai ver!A essa altura mais passageiros se voltaram para mim com ar desaprovação, certamente me identificando como o marido traído. E até a primeira parada foram várias as “últimas vezes” que o velhinho falou com a mulher que, pelo jeito, sempre tentava algum argumento conciliatório. Chegando ao destino, apressei a descida do ônibus na esperança de que os passageiros, finalmente, percebessem que não era eu quem estava brigando com a Tereza. Mas, quando já estava descendo a escada não escapei de um vaticínio que é um fantasma que até hoje não consigo exorcizar: todo castigo para corno é pouco!