AMIGO OCULTO

    Semana passado fui ao BC e numa roda de conversa, alguém sugeriu que abordasse a chatice que são as festas de “amigo oculto. Como os demais integrantes apoiaram a idéia, aí vai uma “revisita” a um texto de dezembro de 2006:”No metrô, não pude deixar de ouvir sobre uma adivinhação de “quem tinha tirado quem” numa festa de empresa. A conversa me fez lembrar que já li um texto que fala sobre o sofrimento dos que odeiam a brincadeira de troca-troca de presentes.  O autor, afirmou que existem pessoas que participam da confraternização somente pelo receio de serem vítimas de uma possível apartheid social. Contou que um desses incompreendidos chega a sofrer de distúrbios de sono assim que chega dezembro. Ele tem um pesadelo recorrente: está andando pelo centro do Rio quando começa a tradicional chuva de papel picado. Só que todos aqueles papeizinhos que caem das janelas, têm nome de seus colegas de trabalho escritos. No sonho, não consegue andar e é logo soterrado pelos papéis.Conheço uma história de “amigo oculto” contada pelo meu “faz-tudo”: numa fábrica onde só trabalhava homens, a “piãozada” cismou de inovar e fazer um amigo-oculto diferente, ao som e sabor de muito vinho e cerveja. No final, uma suculenta peixada seria devidamente devorada.  Todos participariam com uma lembrança unisex, cujo conteúdo deveria vir embrulhado e colocado na montanha de presentes. A seguir, seria sorteada a ordem de participação. Ao primeiro, obrigatoriamente, caberia retirar um dos embrulhos da montanha e mostrar. Os demais teriam duas opções: tentar a sorte na tal montanha de presentes ou roubar o presente de outro, mesmo que já de posse de qualquer participante. Todos poderiam roubar, ser roubado ou tentar a sorte no bolo duas vezes. A partir daí, era obrigatório ficar com o presente que lhe coube.  Só que, já confuso com a complexidade das regras e sem entender direito essa história de unisex, um deles comprou uma saia preta, aberta do lado esquerdo. E a peixada fumegando… E para quem, no final, coube a saia? Claro que, para um negão que, pelo porte, tipo armário 2 x 2, disposição e força física tinha o apelido de “Minotouro”. E peixada fumegando… Como desgraça pouca é bobagem, havia uma última regra no amigo-oculto: qualquer que fosse o presente era obrigatório o seu uso durante a festa.  E a peixada fumegando…Sóbrio, ninguém teria tido coragem de lembrar ao “Minotouro” da obrigação. Mas, depois de caudalosos rios de cerveja e vinho, o brutamonte nem precisou ser lembrado. “Alegre”, entrou no clima natalino, colocou a saia e começou a desfilar. Mal iniciou a sua apresentação ouviu de uma voz vinda lá galera: – Se num final de noite, encontrar o “Touro” com essa saia, uma blusinha decotada e um batom vermelho nos lábios, até ATÉ QUE eu traço!  Aí a peixada deixou de fumegar e o silêncio e a expectativa tomou conta dos presentes.Resumindo: depois da indiscrição, tudo o que compunha a festa foi quebrado e da peixada, dias depois, podiam ser percebidos pedaços de peixe nas paredes. O restante das lembranças? Cada um ficou com uma, mesmo não sendo a que desejava. Exceto o “Minotouro” que, segundo os inimigos,  até hoje, anda feliz da vida com a sua saia.”