DIA DA SAUDADE

    Sei que este texto está com pelo menos um mês de atraso, mas acho que ainda vale: O Aldir Blanc contou em uma crônica que em véspera de velório na residência de algum amigo ou conhecido, o seu avô, prevenindo-se da noite que iriam passar acordados, antes de sair de casa, passava a tropa em revista. Verificava se estavam levando baralho, jogos de dominó e dama, garrafas de batida de limão e suco de maracujá, farnel carregado de frango com arroz e farofa e tabuleiros de salgadinhos.Lá na minha casa também era mais ou menos assim. Minha mãe providenciava agasalhos para o frio e não deixava de levar sanduíches de carne assada, refresco de groselha, garrafa térmica com café e broa de milho. Chegando no velório, nossa família sentava na sala do falecido (a) e ficava ouvindo aquele burburinho de várias conversas ao mesmo tempo. Dava um sono danado e só acordávamos na hora de voltar para casa para tomar banho e trocar de roupa para acompanhar o enterro.O caixão desfilava pelas ruas em cima de um carrinho, até ao cemitério, onde cumpria a “pré-hora”, no necrotério. Na hora das últimas pás de cal, as cenas de desespero que já haviam acontecido na sala da casa do defunto e na capela, voltavam a se repetir com mais força: desmaios, gritos, choros convulsivos, cabelos sendo puxados e pedidos histéricos para serem enterrados junto com o cadáver.Atualmente, os desfiles pelas ruas, os velórios das madrugadas e os “espetáculos de desespero” estão fora de moda. Os mortos são velados em silencio e com respeito na capela do cemitério e enterrados horas depois. Caso o sepultamento venha a acontecer no dia seguinte ao da morte, as capelas são fechadas durante a madrugada devido à insegurança. Mas, se mudaram os “pré-enterros”, o Dia de Finados continua o mesmo. Milhares de pessoas vão aos cemitérios para depositar buquê de flores nos túmulos, acender várias caixas de velas, compradas por preços absurdos, limpar o retrato do morto na sepultura, rezar um “Pai Nosso” e voltar para casa com o sentimento do dever cumprido. Neste último Finados, ouvi, na Rádio BandNews, o Ricardo Boechat dar uma sugestão que passei a assinar em baixo: os mortos, no seu dia, deveriam ser reverenciados com um almoço do seu prato predileto em família. Logo após, seus antigos retratos iriam passando de mão em mão para que todos pudessem matar as saudades. E para finalizar, todos comentariam sobre lembranças que guardavam de passagens alegres da vida do ente querido. E concluiu com uma idéia que não só ratifico como considero genial: caso a sugestão seja aceita, será preciso outra mudança fundamental: trocar o mórbido “codinome” de Dia de Finados ou Dia dos Mortos por um bucólico “Dia da Saudade”.