AMOR POR AMOR SE DÁ

    Amigos, não se trata de uma história do tipo Romeu e Julieta, nem um “Love Story” cinematográfico, não. É apenas uma história de amor comum, como tantas outras,  entre pessoas que o destino aproxima com aquele jeito de: “estava escrito”.  Ela vivia sua rotina habitual quando o conheceu no ambiente de um Departamento Médico da empresa em que ambos trabalhavam. Costumava levar lá sua genitora para consultas com um cardiologista. Ele, jovem como ela, estava sempre no balcão de atendimento ao qual ela se dirigia. Troca de olhares, de sorrisos, pequenos galanteios (naquele tempo, 1962, ainda se usava…) e os dois iniciaram uma firme amizade. A mãe dela até simpatizava com ele, digo simpatizava, sim, porque mudou sua empolgação quando soube que o jovem era desquitado. Sua rígida formação católica não admitia a dissolução do casamento. Mesmo sua filha sendo apenas colega e amiga dele a senhora decidiu antecipar-lhe uma advertência: “Nem pense em namorar este rapaz. Sabe que eu jamais concordaria com isso.” Ele ignorava o conceito da referida senhora sobre o desquite. A amizade continuou e eles, pelo apertar das mãos mais demorado, pelo atendimento mais alongado, pelos sorrisos cada vez mais cúmplices e prenunciadores de um enlace mais profundo, pareciam só aguardar a definitiva flechada de um cupido mais atento. O jovem viera de um rincão bem distante e carregava o fardo de um casamento fracassado, para o qual apenas 3 anos bastaram para o rompimento sem volta. Ela era solteirinha, exibia um sorriso cativante e um olhar cheio de promessas que coincidiam com as dele quando ambos se fitavam. As palavras eram desnecessárias, até então. Certo dia, quando ela apareceu só, sem a companhia da mãe, ele estremeceu e sentiu que não poderia desperdiçar aquela oportunidade. Pigarreou, gaguejou, recuou, mas finalmente avançou com aquela coragem que o amor implanta nos corações enamorados. Falou baixinho, bem próximo ao ouvido dela: “Você se importaria de ir comigo até o nono andar? Eu gostaria de ter uma conversa, mas longe de todos esses olhares curiosos e indiscretos dos meus colegas do setor. Pode ser?” Ele sabia que naquele horário os médicos e atendentes do nono andar já haviam se retirado. Ela vacilou, mas também terminou por não resistir ao impulso que, no fundo, aguardava há algum tempo: o momento de uma revelação tão sonhada. Lá chegando sentaram-se na sala de espera que, como ele sabia, estava totalmente vazia. O andar era o da cardiologia, que a genitora dela tanto freqüentava. Calando a ansiedade ele foi direto ao assunto. Falou do quanto ela estava sempre presente em seu pensamento, em seus sonhos, enfim, de que ele sofria com a incerteza da presença ou não dela, a cada dia, no balcão de atendimento. Pela primeira vez lhe disse: “Sabe, acho que eu lhe amo. Teria alguma chance de conquistar seu coração?”.   Ela ruborizou, sorriu, baixou os olhos, e quando os levantou fitou-o por alguns segundos e depois falou: “Eu acho que também estou gostando de você. Confesso que me agrada muito quando venho aqui e nos falamos.” Mais alguns segundos de silêncio em que ele esfregava as mãos suadas. “Olhe, eu aceito até que tenhamos alguns encontros para nos conhecermos melhor e quem sabe depois possamos namorar!” Ele já sentia o raiar de uma felicidade que chegava com a mulher amada e estava a pique de a ter em seus braços. Foi aí que ela fez a revelação que o jovem desconhecia. Explicou-lhe que sua mãe não admitia seu namoro com um homem desquitado, em hipótese alguma. Embora ela fosse maior de idade e independente, (tinha então 28 anos) respeitava demais a opinião de sua genitora, mesmo discordando dela. Perguntou a ele se estaria disposto a enfrentar, digamos assim, este “feroz” obstáculo. Logo ele se imaginou telefonando para ela, por exemplo, a imitar voz de mulher, caso a mãe atendesse, o que já fizera no passado, em outras circunstâncias. E ela confirmou que isto certamente aconteceria. Também ele jamais poderia ir à casa dela, já que o radicalismo da quase ex-futura sogra, era mesmo extremo. Mas ele não desistiu, ao contrário, estava disposto a esperar o milagre da “conversão” da mãe dela.  Enfim o primeiro capítulo daquela história de amor já estava sendo escrito. Ela costumava trabalhar até tarde da noite. O que hoje apenas se digita facilmente para os nossos computadores naquele tempo era feito através de inúmeros e imensos cartões cujas perfurações levavam as mensagens. Este era o trabalho dela. Paciente e ansioso ele se postava na portaria do prédio esperando pela saída da jovem. Quantas vezes saíram os dois, de mãos dadas, gesto que se repetiria depois por toda a vida conjugal de ambos, caminhando vários quilômetros até a rua, na Glória, onde ela morava. Isto, geralmente após as 23 horas. Hoje seria impensável. Logo ocorreu a primeira oportunidade dele testar seus dotes de “imitador”. Programaram ir ao cinema, numa tarde de sábado. Ele telefonou da padaria da esquina e… a mãe dela atendeu. O telefonema era necessário para melhor convencer a senhora de que sua filha ia sair, digamos, com uma de suas colegas de trabalho. Ela de nada desconfiou. O sucesso da “interpretação” do jovem animou-o a repetir aquilo muitas outras vezes. Mas, um dia bateu-lhe o inconformismo. Até demorara mais do que o esperado. Eles estavam cada vez mais apaixonados o que fez crescer nele a coragem de enfrentar a “fera”. Sabia dos riscos, fora mais do que advertido por sua amada. A jovem, por seu lado, enfim revelou à sua mãe o que se passava: estava namorando, há bastante tempo, com o …desquitado, amava-o e queria viver com ele. Sua genitora teve um de seus “ataques”, muito convenientes em momentos como aquele, mas a jovem não cedeu. Reuniu forças, bateu o pé e se afirmou decidida. Mais, disse-lhe que seu namorado viria falar com ela, a mãe, para pedir sua autorização e sua bênção. Houve ameaças de não recebê-lo, mas depois concordou, sem prometer, todavia, ser simpática com ele ou se comprometer com suas intenções. Três noites depois, o jovem, mais impulso do que audácia, penetrava na sala de estar onde a mãe de sua namorada nem sequer estendeu-lhe a mão ou respondeu ao seu “boa noite”. Caiu um silêncio turvo e sombrio, quebrado pelo sorriso da jovem que ofereceu um cafezinho ao namorado. Alguns minutos depois ele, enfim, falou. Disse respeitar as convicções de sua quase ex futura sogra, mas falou de suas melhores intenções para com a jovem e que tudo faria para que ela fosse feliz com ele, etc, etc. Antes que continuasse, a mãe da jovem foi direto ao assunto: não aceitava, não concordava, não permitia e apontou-lhe a porta de saída. Resumindo: abatido e derrotado ele teve que recuar e partir. Nem a intervenção da sua amada, junto à mãe, salvaram aquele fracassado “pedido de casamento”.  Passados alguns dias os dois decidiram buscar apoio na irmã dela e em seu marido, ambos simpáticos à pretendida união dos apaixonados. Prometeram interferir, e o fizeram. Finalmente a mãe da moça cedeu, mesmo sob protestos.  Houve depois um novo encontro no qual foi “negociado” que, por ser o jovem desquitado, casariam então na Igreja Católica Apostólica Brasileira, situada na Penha. Esta não fazia restrição de qualquer ordem para os casamentos que celebrava. Foi a saída.  A mãe da jovem não abria mão de ver sua filha vestida de noiva. Até já deixara de lado o fato de os sacerdotes da referida igreja terem sido todos excomungados pelo   Papa! Enfim o grande dia chegou. E foi daqueles para não esquecer. Ela estava linda, irradiava felicidade. Aos olhos dele era a noiva mais bela do mundo. Naquele 05 de dezembro de 1964, a vida escrevia mais um capítulo naquela história de amor. Ela arriscava sua sorte com aquele jovem que já trazia o estigma de um casamento fracassado. Ele de tudo faria para corresponder à confiança dela e provar quão verdadeiro era o seu amor. Os dois colocavam os alicerces de um futuro que, naquele presente, seria de muitas dificuldades. O padrão salarial de ambos era pequeno e  sobre ele ainda pesava o ônus de uma pensão alimentícia. Mas, o amor que já vencera etapas complicadas, até ali, certamente superaria tudo que se opusesse à felicidade. Saibam todos, que lerem esta história, que assim foi. Além da amizade, a solidariedade, a harmonia, a confiança mútua, a paz, a fé, que dizem remove montanhas, criaram raízes em seus corações. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, emoções, desilusões, tudo foi vivido com a intensidade do amor recíproco e verdadeiro. E posso lhes assegurar que eles foram felizes por muitos, mas muitos anos mesmo, e como o limite era: “até que a morte nos separe”, um dia o efêmero, o passageiro, o transitório, foi ceifado em cumprimento à sina, à lei que rege a vida. Mas, há quem garanta que aquilo que transcende a matéria, e que por imortal se reconhece, permanece vivo em ambos os corações e certamente os fará reencontrarem-se na eternidade.  Você acredita em almas gêmeas? Eu sim. 

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