“ANTIGAMENTE” NO CINEMA

    Recebi, via corrente de e-mails, a coleção "Rio que mora no mar", com diversas fotos sobre antigos cinemas do Rio. São registros de uma época, não tão "priscas" assim, em que assistir a um filme era um programa obrigatório, elegante e requintado de final de semana, que exigia roupa de "sair" e, quem sabe, uma ida ao cabeleireiro ou ao barbeiro.Não é só a qualidade dos filmes que dá saudades, mas, tudo o que envolve uma sessão de cinema. As salas de projeção tinham vida. Manifestavam-se com um burburinho ante ao anúncio de um novo "filmaço" em Cinemascope. Havia esporádicas imitações do rugido do leão da Metro. Todavia, o que todo mundo gostava mesmo era enxotar o condor da Paramount Pictures para que levantasse vôo. Raros eram aqueles que deixavam de emitir um som parecido com "schit", "schit". Também era engraçado observar quem entrava de costas para ver o filme de graça. Havia uma "figura" em Friburgo, que usava a seguinte tática:Como a saída do cinema era feita pelos corredores laterais, ele ficava na calçada observando a saída da sessão anterior. Quando vislumbrava um conhecido vindo no meio do corredor, andava de encontro a multidão gritando e acenando para o cidadão, o que lhe permitia entrar no cinema por onde todo mundosaia.É claro que havia os "engraçadinhos" que "armavam" as situações.Numa das cenas de "fugindo do Inferno", Steve Mcqueen examinava os pontos da cerca de arame farpado do campo de concentração onde poderia haver possibilidade de fuga. No silêncio "ensurdecedor", uma voz se fez ouvir da platéia do Eldorado de Friburgo: – "Esse louro entende de cerca!". Uma outra responde: – "Por quê?".  E a primeira completou: – "Ele já foi vaca".Em o "Caso dos Dez Negrinhos", baseado no famoso livro de Agatha Christie, uma turma permaneceu na entrada do mesmo cinema Eldorado, somente para contar aos conhecidos que o "assassino era o juiz". Começa o filme e o juiz morre. Foi um alívio. Contudo, no término, a trama é desvendada: a morte do juiz era falsa e ele realmente era o assassino. Nos comentários sobre o final inesperado, muita gente, como eu, afirmou: -"Não foi surpresa. Desconfiei desde o início".Como espectador, também paguei "os meus micos".No Roxy, em Copacabana, eu e mais dois amigos recém-chegados "da roça" fomos assistir "Terremoto". O cinema prometia um som "arrasador". No primeiro estrondo, tivemos a impressão de que o mundo ia acabar. Quando demos por conta estávamos, cada um de nós, em pé e abraçado aos outros. E o restante da platéia, mesmo no escuro, "morrendo" de rir da gente.No Veneza, em Botafogo, fui com a minha esposa para assistir a segunda sessão de "Hair". O cinema lotava em todos os horários. Ficamos na sala de espera, separada da de projeção apenas por uma corrente e um curto corredor, tipo um túnel. Faltavam ainda uns quinze minutos para terminar a primeira sessão quando a minha esposa fez um gesto qualquer, involuntário, que foi interpretado como o de que ela iria atravessar a corrente. O "povo" não conversou:veio atrás e invadiu a sala de projeção, acabando com tranqüilidade de quem estava assistindo da 1a sessão.Cinema, hoje, só nos gelados "Cinemarks dos shoppings da vida". Mas, posso lhe garantir que aquele saudoso "pulgueiro" barulhento do bairro onde você morava continua funcionando. Mas, "só passa" sessões de "milagres", sob a "batuta" de algum showman evangélico.