APELIDOS

    Em dezembro, participei pela primeira vez do encontro anual da minha turma de ginásio. Mesmo tendo chegado no final, ainda encontrei muita gente e reconheci a maioria. Dos que não lembrava, uma pergunta aqui e ali resolveu a questão. Faltou saber apenas quem era aquele de cabeça branca, rosto vermelho de sardas escuras e pequenos olhos negros muito vivos. Perguntei e a resposta, já em altíssimo teor alcoólico foi: -Tá velho, heim. É o Jorge Andrade, pô!  Não recordei do antigo colega de sala, até encontrar, dias depois, um conhecido carregando uma gaiola com uma ave. Imediatamente, a presença daquele passarinho de elétricos olhos negros, plumagem de um vermelho quase marrom, contrastada apenas por uma faixa circular de penas escuras circundando o pescoço, me conduziram por uma viagem de regresso até ao tempo em que o imponente Jorge Andrade de hoje, era, no colégio, apenas o “Tico-Tico”. Outro momento do encontro aí do 1º parágrafo, foi lembrarmos do professor de francês, Jorge Saad. Sendo o colégio católico, antes das aulas eram realizadas orações. Um dia, em vez de “puxar” a Ave Maria em francês, o professor fê-lo em português. A turma continuou a oração rezando a 2a parte – Santa Maria – só que, em francês. Tentando consertar, ingenuamente, o docente emendou outra Ave Maria em francês. A classe, de gozação, contrapôs em português. E ficou nisso. Se rezasse numa língua, completávamos em outra. Na proporção em que se irritava, o professor ia ficando vermelho. O rosto parecia uma bola de sangue. O pescoço idem. Vingou-se aplicando uma prova “surpresa” valendo nota. Durante a avaliação, de vez em quando, se ouvia um “glu-glu-glu” daqui e dali. Depois disso, educador não mais se livrou do apelido de Jorge “peru”.A partir dessas recordações resolvi escarafunchar tudo sobre apelidos. E me surpreendi ao constatar, num desses sites de busca, que devo ter sido o último de uma infinidade de pessoas a ter mesma idéia. Assim, as conclusões do meu “estudo” não passam de obviedades. Uma delas é a de que existem alcunhas “temáticas”: os gordos variam entre “rolha de poço”; “baleia” e “elefante”. Magros não escampam do “macarrão”; “fiapo”, “bambu”; “caniço”. Usou óculos, é “quatro olhos”. Os anões são sempre “pouca-sombra”; “pintor de roda-pé” e “amostra-grátis”. Mulher feia, mas bem acabada, não tem perdão: é “Raimunda!”. Todavia, se fisicamente não possuir nada que chame a atenção vai ser chamada de “baranga”, ou um outro apelido, atualíssimo, que afunda com qualquer tentativa de recuperação da auto-estima: “jaburu-martelo”. A única surpresa dessa pesquisa foi a descoberta de que o coletivo de mulheres feias é “enterro”.  Outra peculiaridade foi a de que existem apelidos que definem pessoas por uma ou outra característica da personalidade. O casal de atores Giovana Antonelli e Murilo Benício, possui a mesma pecha do Governador de São Paulo, Geraldo Alkmim, ou seja, o de não possuírem o gosto de nada. Pelos seus altos teores de inexpressividade, são conhecidos como “picolés de chuchu”.  Também se aplicam ao mesmo caso, “pastel sem carne” e “água de salsicha”.  A tentativa de salvar o tema da crônica concentrando-me nos apelidos criativos de “âmbito interno” revelou-se em outra surpresa: o BC, no Rio, é paupérrimo em alcunhas. Exceto ao batismo de “quase mil” aos ônibus da linha 999 que alguns funcionários se utilizam para ir para Niterói, descobri – com muita boa vontade – somente dois codinomes dignos de registro. Precocemente falecido, havia um funcionário que possuía o porte e o rosto parecidos com o incrível Hulk. Contudo, fui informado que, desde os tempos de faculdade, a sua feiúra e esquisitice já o haviam levado a ser o “horroroso”. Quando a Xuxa surgiu na TV Manchete, vestia-se como uma menininha: botinha até o joelho; rabo-de-cavalo no alto da cabeça; saias e blusas coloridas de maneira a deixar à vista braços e coxas. Uma funcionária, hoje aposentada e naquela época já entrada nos anos, cismou de imitar os trajes da apresentadora: em uma semana, foi rebatizada como “avó da Xuxa”. Finalizando, informo que nessa busca pela cultura inútil, soube que anos atrás, hospedou-se em Santos, cidade famosa pelo espírito crítico da população, um caixeiro viajante que, conhecedor da fama dos santistas e detestando apelidos, isolou-se no quarto. Para voltar à capital, telefonou para um táxi e pediu que o fossem buscar em domicílio.  Enquanto o carro não vinha, o caixeiro, meio impaciente com a demora, abria e fechava a janela por várias vezes para espiar lá fora. Quando saía do hotel, o manobreiro levou os dedos à altura do quepe e despediu-se, sério:-Boa viagem… – Aliviado, o caixeiro agradeceu entrando no táxi, quando ouviu o final do cumprimento:…Cuco.  

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