HORÁRIO NOBRE (?!)

    Gostaria que alguém me explicasse porque a Tv, especialmente em suas novelas, que dizem retratar a realidade, ou, especialmente, a nossa sociedade, a cada capítulo  mostra pessoas com armas em casa e a usá-las em variadas situações?! A violência, tão condenada e combatida, na realidade atual, é exibida ali com uma freqüência impressionante. Vide as novelas das 19 e das 21 horas, na Tv – Globo.  Ah, você não assiste a novelas? Desculpe se o (a) decepciono, mas de uns tempos para cá eu tenho assistido sim, quase todos os dias. Não deixa de ser uma forma de prestigiarmos o trabalho de excelentes profissionais da arte cênica brasileira, no teatro assim como na televisão, claro. Mas, e as armas? Bem, armas surgem com facilidade na novela das 21 hs  (“Senhora dos Destinos”) que quando este texto for divulgado já deverá ter terminado. Isto para não ficar a falar do imenso espaço que dão, em certos capítulos, para os personagens com mau caráter, assassinos, corruptos, cafetões, prostitutas, a nata da marginalidade de uma ficção que dizem ter que retratar nossa realidade. Pois é. Mas, e a campanha do desarmamento? Não deveria merecer algum espaço naquelas obras também? Ou não vivemos atualmente uma campanha forte sobre este tema?  Na das 21 hs, Maria do Carmo, que é um magnífico exemplo de mulher vencedora que lutou sozinha, vindo do nada, em tempos difíceis e com 5 filhos para cuidar, tem, em um deles, Reginaldo, um carreirista vulgar, que se fez político, e de vereador foi a Prefeito de Vila São Miguel à base de corrupção e tretas mil.  Ele não titubeia em aplicar golpes na própria genitora, fazendo sua cúmplice uma cunhada sob ameaças e intimidações quanto ao passado desta. Ela superfatura (ou superfaturava) compras de material para obras da nova Prefeitura, na loja de Maria do Carmo, sua sogra! Reginaldo, o Prefeito, embolsa tudo e deposita em conta num paraíso fiscal, conforme ele mesmo declara em certo momento. Talvez ele não seja lá muito original, se formos mergulhar em nossa realidade. Mas o Reginaldo extrapola. Quando escrevo este texto ele pensa inclusive em matar… é, em matar a própria mãe para afastar o maior obstáculo que tem encontrado para continuar sua carreira marginal e alcançar sucesso em seus planos ambiciosos. Idéias e artimanhas sempre apoiadas ou sugeridas pela mulher dele, misto de assassina,  ninfomaníaca, etc e tal. Refiro-me à personagem bem interpretada por Letícia Spiller.   E as armas? Ele já as usou para matar um delinqüente que seqüestrara seu filho, embora o seqüestro tivesse sido planejado pelo próprio Prefeito, isto é, o pai do garoto seqüestrado… Maravilha! Em matéria de exemplos de perversão, de deformidade de hábitos e costumes, de lascívia, de sacanice, esta novela é um primor. Claro que ela também tem mensagens positivas, em especial a luta de “Dirceu de Castro” (vivido por José Mayer) para relançar o jornal Diário de Notícias.  Nota 10. Mais arma? Bem, o Prefeito também usou para ameaçar Chaulim que possuía uma fita gravada provando que ele planejara o seqüestro do próprio filho para assustá-lo e evitar que ele freqüentasse a casa de amigos na baixada fluminense. O Prefeito odeia pobre declaradamente, o que também não é nada original, convenhamos.  Entre tantas distorções de caráter, ele também é preconceituoso, ou seja, só usa o povão para votar… nele, claro. Isso também não é novidade, bem sei. Quando ameaçava o Chaulim surgiu um outro marginal que já o conhecia e também participara do seqüestro. Houve troca de tiros. O marginal morreu, Chaulim saiu muito ferido e o Prefeito… escapou ileso.  Ao contar à sua mulher o que ocorrera, esta manda ele matar (com que facilidade se mata nessa novela, caramba…) um parceiro do Chaulim, que o esperava em seu escritório, pois este também já conhecia os fatos e estava a fazer chantagem. Surge outra arma que a mulher do Prefeito tinha numa gaveta, no escritório!!! Mais uma.   Mas, o “Gato” (apelido do personagem) pula pela janela e foge do alcance dos tiros do Prefeito. Sua mulher, disposta a cometer mais um crime, ajudando seu maridinho, vai até o Hospital para tentar desligar os aparelhos que mantêm Chaulim vivo. Por pouco ela não o consegue. Seu “currículo” ficou desfalcado de mais um delito… Que pena!!! Há outra personagem, magnificamente bem interpretada por Renata Sorrah, a Nazaré, que no passado foi profissional do sexo, seqüestrou a única filha menina de Maria do Carmo, e acabou por escrever igualmente uma história de crimes vários. Ela passa a novela inteira a arquitetar maldades ou a satisfazer seus instintos sexuais, sem fazer escolha nem seleção exigente de parceiros. Juntou-se a ela o Josivaldo, canalha, cafajeste, cafetão, ex marido de Maria do Carmo, a personagem central da novela. Nazaré, para resumir, matou seu ex companheiro, empurrando-o do alto de uma escada em sua própria casa. Pelo mesmo método ela também matou uma antiga colega, mundana, que a vinha incomodando com o passado e tentou matar Cláudia, sua enteada, filha do ex companheiro. E ninguém provava nada contra ela!!!  Sua arma preferida entretanto é uma enorme tesoura com a qual tentou matar outras pessoas mas não se deu bem. Tesoura, faca, revólver ou outro instrumento qualquer pode ser arma e quem as usa com este fim professa a violência. O pior é que a super violenta e pervertida Nazaré vem sendo levada com naturalidade e bom humor, até em entrevistas. Parece já ter fã clube!! Em vez de condenarem  seu comportamento  (personagem) ele costuma ser visto com certo… consentimento. O errado serei eu?   Desarmamento é não à violência e faz parte da nossa realidade atual. É, todavia a Tv parece preferir ignorar, omitir esta ação em que se empenha nossa sociedade. Mas, audiência, hoje, vem sendo mais importante que ética, probidade, etc!  Impressiona o espaço dado aos personagens Nazaré, Josivaldo, o Prefeito, sua ninfômana mulher, em vários capítulos. As mais sórdidas tramas são planejadas em detalhes num horário dito nobre e ao alcance de jovens e crianças. Verdadeiras aulas de como ser criminoso, corrupto, seqüestrador, num universo de marginalidade em que a obra parece escorregar para a valorização e não para a condenação. Triste. Se fosse abordar outras situações que mereceriam alguma análise, algum comentário, teria que escrever umas 3 a 4 crônicas, com certeza. Mas quero encerrar com o personagem “Geovani Brotas”, magnífica criação e interpretação do excelente José Wilker. E é graças a este fantástico ator que somos levados a simpatizar com o “Dr. Geovani”. Não há como ficar indiferente ou condená-lo, não mesmo. Mas deveríamos? Vejamos: Geovani Brotas é antigo bicheiro, mas ainda ostenta um poder inimaginável e uma fortuna incalculável espalhada em paraísos fiscais. Cercado de seu “fiel escudeiro”, o também simpático “Madruga”, tem a seu serviço uma considerável quantidade de homens, bem armados ou não, conforme a situação a resolver. Qualquer problema é só chamar o Dr. Geovani. Ele estala os dedos, usa o celular, e com seu linguajar extravagante, muito dele mesmo, vai comandando um pequeno exército de fiéis seguranças. Curioso que ninguém liga para a polícia no caso de problemas maiores, só para ele. Dr. Geovani aplica a lei a seu modo e todos o aplaudem, inclusive nós, telespectadores! O personagem é mesmo fascinante!! O delegado de Vila S. Miguel o trata com todo o respeito e reverências, assim como os policiais da delegacia. Será que neste caso a ficção está mesmo copiando nossa realidade atual? Como devem se sentir nossas autoridades policiais diante deste quadro? Será que eu é que estou exagerando na preocupação? Lembro que a novela não se propõe a tratar de fatos históricos, como ocorre nas minisséries, e nem se trata de uma obra que priorize o humor, por exemplo, não. Apenas o acolhe de passagem. Já me falaram que o Prefeito, ao final, irá sofrer a vingança do povão e deverá morrer sendo… apedrejado em praça pública!! Desculpem, porém não vão me convencer da seriedade e/ou validade da comparação com o fato bíblico. É demais para mim… Mas, a violência e o uso de armas tantas, também ocorre, segundo estou informado, na novela das 19 hs, todavia não tenho tanto espaço para mergulhar nesta outra obra. Até porque vocês ficariam cansados demais e não suportariam me ler até o fim.  Só lhes informo que o personagem “Lucrécia Borges”, trama, rouba, corrompe e mata pessoas a sangue frio desde jovem e continua a fazê-lo, até pessoalmente. Com ela estão o seu filho, o Prefeito, Ademar, seu “pau mandado”, entre outros personagens  corrompidos por ela. Isto, apenas às 19 horas… Maravilha, hein?! Censura não, jamais, todavia creio que devemos ter muita responsabilidade até no uso de nossa liberdade de expressão, no ato da criação divulgada nesses horários pela Tv, no zelo das mensagens endereçadas a tantos jovens e mesmo crianças naquele horário que, do jeito que vai, de nobre só tem a teimosia em classificá-lo assim. E só. 

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