ASTERISCO

    Num texto para a revista Piauí, um Steve Martin, que não sei se é o ator, contou que o inventor da caixinha para CD foi recebido no inferno com honras de chefe de estado. Na homenagem, teve o direito de sentar do lado direito do Diabo – lugar até então exclusivo do  Belzebu  – e a serpente enroscou-se no seu corpo, para perguntar-lhe como surgiu a demoníaca idéia de revestir a embalagem com celofane.  O inventor explicou: – “A maldita caixinha original do CD era fácil demais de abrir. Porque cá entre nós… Se for para dificultar o acesso do consumidor, pelo amor de Deus, vamos fazer a coisa direito! O que eu quis foi criar uma embalagem que obrigasse o comprador a ir à cozinha buscar uma faca, porque assim pelo menos teríamos a chance de ele decepar a própria mão… Eu adoro a idéia de que não existe nenhuma brechinha para ninguém enfiar a unha e rasgar…”.O cronista revelou ainda que também ganharam citações de reconhecimento, entre outros, o criador do controle remoto de minúsculos botõezinhos espremido uns contra os outros e cheio de abreviações enigmáticas e o projetista do abacaxi. Eu não sei qual foi o caráter da diabólica festa e os requisitos para participação, mas vai daqui o meu protesto contra algumas das injustiças que considero terem sido cometidas. Por exemplo: porque o inventor das tampas das embalagens que NUNCA abrem sob pressão não foi lembrado? A chance de o consumidor ter que usar faca e se ferir é significativa.  E os autores dos manuais? Conhece alguém que consiga elaborar com tanto esmero e perfeição instruções que ninguém entende? Deveriam ser premiados pelo “conjunto da obra!”É quem sugeriu a impressão da bula de remédio no interior da caixa de papelão? Matou dois coelhos com uma só cajadada: cumpre a legislação e obriga o consumidor, para ler a bula, rasgar a embalagem. Perfeito!Já o prêmio de efeitos especiais poderia ser dos programadores das configurações de Dvd’s que não permitem ao simples acionamento do menu, a escolha, de uma só vez, do áudio, da legenda e do inicio do filme. Obrigam, para qualquer opção, à volta à tela inicial. Espetacular!  Mas, nenhum desses aí está à altura do criador do asterisco nos anúncios publicitários. Só o filho mais pródigo do Maquiavel poderia dar a um minúsculo sinalzinho, quase imperceptível lá no fim de um anúncio, o poder de contrariar – legalmente – tudo o que está prometido em letras garrafais.  E mais: dois asteriscos podem contradizer não só o anúncio, como o primeiro asterisco. Três asteriscos podem desdizer os dois asteriscos e acrescentar o que quiser. Quatro… Genial! Acredito que se estivesse presente ao jantar em homenagem ao criador da embalagem do CD, o inventor do asterisco significando que “não vale o que está escrito”, ganharia assento na cabeceira da mesa, já que, em respeito à sua presença, o Diabo, se recolheria à sua insignificância e passaria a ocupar o cargo de secretário.  

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